Ernani Maurício Fernandes
Brasil no Mundo
O pior analfabeto
é o analfabeto político
Ele não ouve
não fala
nem participa
dos acontecimentos políticos
Ele não sabe
que é o custo de vida
o preço do feijão
do peixe
da farinha
do aluguel
do sapato
e do remédio
que dependem
das decisões políticas
O analfabeto político
é tão burro
que se orgulha
e estufa o peito
dizendo
que odeia política
Não sabe
o imbecil
que de sua ignorância política
nasce a prostituta
o menor abandonado
o assaltante
E o pior de todos os bandidos
o político vigarista
pilantra
corrupto
e lacaio
das empresas nacionais
e multinacionais
BRECHT
Apresentação
O autor, Ernani Maurício Fernandes, através deste livro –sobre o Brasil no Mundo tem como um primeiro objetivo de localizar no mundo como uma república democrática entre tantas tendências republicanas ao longo da História e para tanto se inicia com a própria história do país, assim como dos seus descobridores e colonizadores da península ibérica, assim como o seu desenvolvimento colonialista, monarquista e republicano, até o dia da posse do reeleição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 01 de janeiro de 2007.
A coleção terá o Tomo II, a partir de 01 de janeiro de 2011, quando então, teremos um novo presidente no Brasil. Serão coletados os fatos deste governo que acaba de ser empossado na sua segunda gestão e o desempenho da Eleições de 2010. E desta forma, os tomos se sucederam de acordo com este critério apresentado.
A coleção Tempestade do Tempo terá outros temas que estão sendo preparados como a Globalização e o Terrorismo Internacional, assim como a diversidade sexual, o choque entre a religião e a filosofia, e a implantação do terceiro setor. Futuramente o autor pretende ter a coo-autoria com estudantes nas áreas das Ciências Humanas, com objetivo de interatividade intelectual, como temas polêmicos sobre a atualidade.
Ernani Maurício Fernandes
JANEIRO DE 2007
Sumário
Parte 1
República Presidencialista do Brasil
1 - República de Platão
2 - República Romana
3 - República Humanista
4 - República Americana
5 - República Francesa
6 - República Alemã
7 - República Italiana
8 - Repúblicas Soviéticas
9 – República chinesa
10 - Repúblicas do Oriente Médio
11 - Repúblicas Africanas
12 - Repúblicas Latino-Americanas
México
Cuba
Haiti
Panamá
Nicarágua
Venezuela
Colômbia
Equador
Peru
Bolívia
Paraguai
Chile
Uruguai
Argentina
Mercosul
Parte 2
República Brasileira
A - Ibérica península da miscigenação mediterrânea
B - Oceano Atlântico - Mar Tenebroso
As navegações e o mundo se torna mais real
C- A miscigenação antropofágica do Brasil
D - Sistema de colonização – Exploração e povoamento
E - O ciclo - Açúcar - Escravagismo da África Negra
F - A Holanda e a França abaixo do Equador
G - Entradas e Bandeiras além das Tordesilhas
H - A Febre do Ouro - E a inconfidência de Minas Gerais
I - A Coroa portuguesa e a independência no Brasil
J - O império do brasileiro D. Pedro II e a Imigração do Mundo Novo
1- Brasil da República
Mal. Deodoro da Fonseca - Washington Luís
República do café
2- Brasil do Estado Novo
Getúlio Vargas
República populista de Vargas
3- Brasil da Bossa Nova
Anos de JK
República moderna da bossa nova
4- Brasil do Golpe
Jânio Quadros - João Goulart
Marechal Castelo Branco- Gen. Costa e Silva
República do golpe militar de 64
5- Brasil dos anos de chumbo
Brasil no Mundo
O pior analfabeto
é o analfabeto político
Ele não ouve
não fala
nem participa
dos acontecimentos políticos
Ele não sabe
que é o custo de vida
o preço do feijão
do peixe
da farinha
do aluguel
do sapato
e do remédio
que dependem
das decisões políticas
O analfabeto político
é tão burro
que se orgulha
e estufa o peito
dizendo
que odeia política
Não sabe
o imbecil
que de sua ignorância política
nasce a prostituta
o menor abandonado
o assaltante
E o pior de todos os bandidos
o político vigarista
pilantra
corrupto
e lacaio
das empresas nacionais
e multinacionais
BRECHT
Apresentação
O autor, Ernani Maurício Fernandes, através deste livro –sobre o Brasil no Mundo tem como um primeiro objetivo de localizar no mundo como uma república democrática entre tantas tendências republicanas ao longo da História e para tanto se inicia com a própria história do país, assim como dos seus descobridores e colonizadores da península ibérica, assim como o seu desenvolvimento colonialista, monarquista e republicano, até o dia da posse do reeleição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 01 de janeiro de 2007.
A coleção terá o Tomo II, a partir de 01 de janeiro de 2011, quando então, teremos um novo presidente no Brasil. Serão coletados os fatos deste governo que acaba de ser empossado na sua segunda gestão e o desempenho da Eleições de 2010. E desta forma, os tomos se sucederam de acordo com este critério apresentado.
A coleção Tempestade do Tempo terá outros temas que estão sendo preparados como a Globalização e o Terrorismo Internacional, assim como a diversidade sexual, o choque entre a religião e a filosofia, e a implantação do terceiro setor. Futuramente o autor pretende ter a coo-autoria com estudantes nas áreas das Ciências Humanas, com objetivo de interatividade intelectual, como temas polêmicos sobre a atualidade.
Ernani Maurício Fernandes
JANEIRO DE 2007
Sumário
Parte 1
República Presidencialista do Brasil
1 - República de Platão
2 - República Romana
3 - República Humanista
4 - República Americana
5 - República Francesa
6 - República Alemã
7 - República Italiana
8 - Repúblicas Soviéticas
9 – República chinesa
10 - Repúblicas do Oriente Médio
11 - Repúblicas Africanas
12 - Repúblicas Latino-Americanas
México
Cuba
Haiti
Panamá
Nicarágua
Venezuela
Colômbia
Equador
Peru
Bolívia
Paraguai
Chile
Uruguai
Argentina
Mercosul
Parte 2
República Brasileira
A - Ibérica península da miscigenação mediterrânea
B - Oceano Atlântico - Mar Tenebroso
As navegações e o mundo se torna mais real
C- A miscigenação antropofágica do Brasil
D - Sistema de colonização – Exploração e povoamento
E - O ciclo - Açúcar - Escravagismo da África Negra
F - A Holanda e a França abaixo do Equador
G - Entradas e Bandeiras além das Tordesilhas
H - A Febre do Ouro - E a inconfidência de Minas Gerais
I - A Coroa portuguesa e a independência no Brasil
J - O império do brasileiro D. Pedro II e a Imigração do Mundo Novo
1- Brasil da República
Mal. Deodoro da Fonseca - Washington Luís
República do café
2- Brasil do Estado Novo
Getúlio Vargas
República populista de Vargas
3- Brasil da Bossa Nova
Anos de JK
República moderna da bossa nova
4- Brasil do Golpe
Jânio Quadros - João Goulart
Marechal Castelo Branco- Gen. Costa e Silva
República do golpe militar de 64
5- Brasil dos anos de chumbo
Gen. Médici - AI-5 - Gen.Geisel – Gen.Figueiredo
República do Terror
6- Brasil da Abertura
José Sarney
República dos planos da Redemocratização
7- Brasil do Impeachment
Fernando Collor de Mello - Itamar Franco República dos Marajás
8- Brasil do Plano Real
Fernando Henrique Cardoso
República do último plano - o Real de F.H.C.
9-Brasil do PT
Luis Inácio Lula da Silva
República do proletariado. Lula da Silva
Esquerda Proletariada no Brasil
Governo de Lula 2002 - 2006
10 - Eleições 2006
11 - Sistemas Partidários
Pluripartidarismo-Bipartidário
Alianças Partidárias
A- PT – 25 anos de História pelo historiador petista Marco Aurélio Garcia
B - Ninho Tucano - História do PSDB
C- Partidos Complementares
1 - PMDB
2 - PFL
D - Partidos suplementares
1 - PDT
2 – PSOL
3 – PSO
4 – PSDC
5 - PSL
F – Corrida de Campanha
12- Corrida de Campanha
Orçamento de Campanha
Discursos e debates dos presidenciáveis
13- A Prática das eleições de 2006
14- Presidência 2006 – Lula da Silva
15- Discurso de posse do presidente reeleito
Luiz Inácio Lula da Silva
Senhores Pensadores do Brasil
Celso Furtado
Caio Prado Jr.
Sergio Buarque de Holanda
Gilberto Freire
Darcy Ribeiro
Florestan Fernandes
Oswald de Andrade
Parte 3
Os Senhores Pensadores do Brasil
Celso Furtado - Caio Prado Jr. - Sergio Buarque de Holanda - Gilberto Freire
Darcy Ribeiro – Florestan Fernandes - Oswald de Andrade
Deve-se deixar registrado neste capítulo as diretrizes dos pensamentos do que podemos considerar de uma civilização brasileira, por homens notáveis que tiveram a envergadura de ver o Brasil como ele é. São eles: Celso Furtado - Caio Prado Jr. - Sergio Buarque de Holanda - Gilberto Freire - Darcy Ribeiro - Oswald de Andrade. Cada um de sua forma e conteúdo, visto pela direita, pela esquerda, algumas vezes no centro e outras vezes distante destas posições dogmáticas da política recente do mundo contemporâneo.
Celso Furtado
Celso Monteiro Furtado nasce a 26 de julho de 1920 em Pombal, no sertão paraibano, filho de Maria Alice Monteiro Furtado, de família de proprietários de terra, e Maurício de Medeiros Furtado, de família de magistrados. Celso Furtado tem uma paixão especial pelo Brasil, a sua primeira paixão intelectual foi a história, aos catorze anos. A segunda foi a literatura e a terceira, a sociologia norte-americana, com a "teoria antropológica da cultura", revelada por Gilberto Freyre em Casa-grande e senzala.
Após seus estudos secundários no Liceu Paraibano e no Ginásio Pernambucano do Recife, chega ao Rio em 1939, entra para a Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Em 1943, é aprovado no concurso do DASP para assistente de organização, indo trabalhar no Rio e em Niterói. No ano seguinte, cursa o CPOR, conclui o curso de Direito e é convocado para a Força Expedicionária Brasileira. Com a patente de aspirante a oficial, segue para a Itália, servindo, na Toscana, como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano, e sofre um acidente em missão durante a ofensiva final dos aliados no Norte da Itália.
Em 1946, ganha o prêmio Franklin D. Roosevelt, do Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio "Trajetória da democracia na América". Viaja para a França, inscreve-se no curso de doutoramento em economia da Universidade de Paris-Sorbonne, e no Instituto de Ciências Políticas. Envia reportagens para a Revista da Semana, Panfleto e Observador econômico e financeiro, entre outras, narrando sua experiência como integrante de uma brigada francesa de reconstrução de uma estrada na Bósnia, e sua participação no Festival da Juventude em Praga. Em 1948, é feito doutor em economia pela Universidade de Paris, com a tese "L'économie coloniale brésilienne", dirigida por Maurice Byé, obtendo a menção très bien. De volta ao Brasil, retoma o trabalho no DASP e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, trabalhando na revista Conjuntura econômica. Casa-se com Lucia Tosi.
Em 1949, instala-se em Santiago do Chile para integrar a recém-criada Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão das Nações Unidas que se transformará na única escola de pensamento econômico surgida no Terceiro Mundo. Nasce seu filho Mário. No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria-executiva da CEPAL, é nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento, e até 1957 cumpre missões em diversos países do continente, como Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, e visita universidades norte-americanas onde então se inicia o debate sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento.
É de 1950 seu primeiro ensaio de análise econômica, "Características gerais da economia brasileira", publicado na Revista brasileira de economia, da FGV. Em 1952, "Formação de capital e desenvolvimento econômico" é seu primeiro artigo de circulação internacional, traduzido para o International Economic Papers, da Associação Internacional de Economia.
Em 1953, preside no Rio o Grupo Misto CEPAL-BNDE, que elabora um estudo sobre a economia brasileira, com ênfase especial nas técnicas de planejamento. O relatório do Grupo Misto, editado em 1955, será a base do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. Em 1954, com um grupo de amigos, cria o Clube de Economistas, que lança a revista Econômica Brasileira. Nasce seu filho André. Em 1956, mora na Cidade do México, em missão da CEPAL. Passa o ano letivo de 1957-58 no King's College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, a convite do professor Nicholas Kaldor. Escreve a Formação econômica do Brasil, que será seu livro mais difundido.
De volta ao Brasil, desliga-se definitivamente da CEPAL e assume uma diretoria do BNDE. É nomeado, pelo presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. Elabora para o governo federal o estudo "Uma política de desenvolvimento para o Nordeste", origem da criação, em 1959, da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), com sede no Recife.
Em 1961, como seu superintendente, encontra-se em Washington com o presidente John Kennedy, cujo governo decide apoiar um programa de cooperação com o órgão, e, semanas depois, com o ministro Ernesto Che Guevara, chefe da delegação cubana à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso.
Em 1962 é nomeado, no regime parlamentar, o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao país pelo presidente João Goulart por ocasião do plebiscito visando a confirmar o parlamentarismo ou a restabelecer o presidencialismo. No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à Superintendência da SUDENE, quando concebe e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.
O Ato Institucional nº 1, publicado três dias depois do golpe militar de 31 de março de 1964, cassa os seus direitos políticos por dez anos. Têm início seus anos de exílio. Ainda em abril, aceita um convite para dar seminários em Santiago do Chile. Meses depois, em New Haven, Estados Unidos, será pesquisador graduado do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Yale. Faz conferências em diversas universidades norte-americanas e participa de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo.
Em 1965, muda-se para a França, a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico. É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do general de Gaulle. Permanecerá nos quadros da Sorbonne por vinte anos.
Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. No correr do decênio de 1970, faz diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências das Nações Unidas. No mesmo decênio, é professor-visitante da American University, em Washington, da Columbia University, em Nova York, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e é feito Fellow do King's College.
Entre 1978-81, integra o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. No mesmo período, recebe um mandato do Commitee for Developement Planning, da ONU. Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, dirige em Paris seminários sobre a economia brasileira e internacional.
A partir de 1979, quando é votada a Lei da Anistia, retorna com freqüência ao Brasil, reinsere-se na vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Casa-se com a jornalista Rosa Freire d'Aguiar. Em janeiro de 1985 é convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo. É nomeado embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Européia, em Bruxelas, assumindo o posto em setembro. Integra a Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição. Em março de 1986 é nomeado ministro da Cultura do governo do presidente José Sarney; sob sua iniciativa, é aprovada a primeira lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pede demissão do cargo, retornando às atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.
De 1987-90 integra a South Commission, criada e presidida pelo presidente Julius Nyerere, e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Sul. Entre 1993-95 é um dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/UNESCO, presidida por Javier Pérez de Cuéllar.
Entre 1996-98 integra a Comissão Internacional de Bioética da UNESCO. Em 1997 é organizado em Paris, pela Maison des Sciences de l'Homme e a UNESCO, o congresso internacional "A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento", reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França, Itália, México, Polônia e Suíça. No mesmo ano é criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste, o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política.
É Doutor Honoris Causa das universidades Técnica de Lisboa, Estadual de Campinas-UNICAMP, Federal de Brasília, Federal do Rio Grande do Sul, Federal da Paraíba e da Université Pierre Mendès-France, de Grenoble, França.
Em agosto de 1997 é eleito para a cadeira n. 11 da Academia Brasileira de Letras. Empossado em 31 de outubro, é saudado pelo Acadêmico Eduardo Portella. Durante um colóquio organizado no Rio de Janeiro em agosto, a Cátedra e a Rede da Unesco e da Universidade das Nações Unidas (REGGEN), a Associação dos economistas da América Latina (AEALC), o Conselho latino-americano de ciências sociais (CLACSO) apresentaram o nome do professor Celso Furtado para candidato ao "Bank of Sweden Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel" — o prêmio Nobel de economia — em 2004. A acolhida mais que favorável que essa iniciativa recebeu fez com que já conte com o apoio da CEPAL (Comissão econômica para a América Latina e o Caribe), do SELA (Sistema econômico latino-americano), da Academia de Ciências Sociais da China, e de inúmeras instituições acadêmicas, centros de pesquisa, universidade em todo o mundo.
Pensamento – idéias e críticas
Desde suas primeiras obras, nos anos 50, Celso Furtado avançou a hipótese de que subdesenvolvimento e desenvolvimento são dois aspectos do mesmo processo de expansão da economia capitalista internacional. O subdesenvolvimento não seria apenas uma expressão do « atraso econômico » de um país, nem uma etapa pela qual passaram os países desenvolvidos, mas um processo com suas leis próprias de funcionamento, cuja compreensão exige um esforço teórico específico. Furtado elaborou elementos decisivos dessa teoria, como a interação entre a atividade de subsistência e o setor exportador.
Sua visão do sistema produtivo internacional, inspirada em outro economista latino-americano, o argentino Raúl Prebisch, foi decisiva para o pensamento econômico e social que prevaleceu na América Latina nos anos 50-60. Tratava-se de demonstrar a relação entre a deterioração dos termos de intercâmbio e a distribuição desigual dos frutos do progresso tecnológico. Na ausência de mudanças no nível das estruturas econômicas e políticas, as relações econômicas internacionais gerariam uma desigualdade crescente, e não a igualdade prevista pela lei das vantagens comparativas consagrada pela economia ortodoxa.
Celso Furtado trabalhou de modo concludente na formulação desses conceitos a fim de torná-los operacionais. Além disso, demonstrou que a industrialização dos países periféricos não se faria sem o apoio de políticas de planificação.
Paralelamente a suas contribuições para a teoria do desenvolvimento e da planificação, Celso Furtado estudou em profundidade a história econômica do Brasil e a da América Latina com o instrumental teórico e analítico moderno. Seus livros Formação econômica do Brasil e A economia latino-americana foram traduzidos para uma dezena de línguas, inclusive para o chinês e o persa, e influenciaram a famosa Escola dos Anais, como reconheceu um de seus fundadores, o historiador Fernand Braudel. Com efeito, seus estudos sobre a história dos Estados Unidos e a formação do capitalismo na Europa são clássicos que se baseiam na análise intra e interdisciplinar.
Em seus trabalhos mais recentes, Furtado analisa o impacto da transnacionalização e da globalização na economia capitalista contemporânea. Da mesma forma, ele também aprofunda seus estudos sobre as dimensões culturais e sociais do desenvolvimento. Enfim, ele procedeu a uma reflexão sobre a metodologia da ciência econômica, que nos últimos tempos enveredou por um caminho mais próximo da física de fins do século 19 do que de uma ciência social autêntica. Mas a obra de Celso Furtado não se limita ao plano teórico. Sua ação como homem público tornou-o conhecido por ocasião da criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em 1958, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek. À frente dessa agência de desenvolvimento regional ele aplicou as técnicas de planificação regional que fizeram recuar de modo significativo a miséria dos trinta milhões de brasileiros que ali viviam na época.
O sucesso da SUDENE levou-o a ocupar o posto de ministro do Planejamento do governo de João Goulart. Em seguida ao golpe militar de 1964 Furtado foi cassado de seus direitos políticos. A contribuição de Celso Furtado para o pensamento contemporâneo é inestimável. Por isso convocamos todos os Colégios de economistas, as instituições docentes, os centros de pesquisa e outros organismos a apoiarem a proposta dessa candidatura que fará justiça a um eminente economista latino-americano.
Celso Furtado é a melhor expressão do novo tempo, como administrador e cientista social. Visto inicialmente como economista, tem uma obra de importantes desdobramentos e que hoje deve ser percebida como de um pensador que trata do social e sua amplitude", esta é a análise do historiador Francisco Iglésias (falecido em 1999), autor de diversas obras de referência sobre História do Brasil. Para comemorar os 80 anos do humanista Celso Furtado, a Academia Brasileira de Letras inaugurou a exposição "Celso Furtado: vocação Brasil".
Autor de mais de trinta livros que abordam temas econômicos e sociais, além de dezenas de ensaios em livros e revistas. São 32 livros e 53 traduções. Entre os manuscritos, podemos destacar toda a obra de Celso Furtado escrita em cadernos, o discurso de posse na ABL (digitado com anotações); carta de Juscelino Kubitschek; o original do livro mais vendido do escritor "Formação Econômica do Brasil", de 1959. Desde seus primeiros escritos,
Celso Furtado questionou o modelo econômico "essencialmente agrícola", defendido pela classe dominante. Foi o primeiro a denunciar o agrarismo como causa do nosso atraso. Sempre à frente do seu tempo, ocupou cargos importantes e trabalhou em grandes projetos, fundamentais para o Brasil e para América- Latina.
O economista Celso Furtado não é apenas um dos mais influentes pensadores da esquerda brasileira, talvez o mais influente.
Não é apenas o criador da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), nos anos 50, ou um dos sustentáculos da filosofia desenvolvimentista elaborada na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), organismo das Nações Unidas, nem apenas o autor de mais de trinta livros, o último dos quais O Capitalismo Global (Paz e Terra, 1998) e o mais importante o clássico Formação Econômica do Brasil 1959).
Celso Furtado é também uma ponte entre vários Brasis e várias épocas. Uma ponte entre o Brasil dos cangaceiros, do padre Cícero e da violência política entre clãs inimigos, que conheceu na infância, na Paraíba e o Brasil da inserção global, que encara com temor. Entre o Brasil do regime democrático da Constituição de 1946, ao qual serviu em sucessivos governos (Juscelino, Jânio, Jango), e o da redemocratização de 1985, ao qual serviu como ministro da Cultura, no governo Sarney, passando por cima do regime militar que o cassou, censurou e exilou.
Celso Furtado viu tudo, analisou tudo, conheceu todo mundo. Suas relações pessoais com presidentes da República vão de Epitácio Pessoa (1919-1922), que visitou uma vez no Rio, ele rapaz, Epitácio já velho e aposentado, a Fernando Henrique Cardoso, companheiro antigo, com quem manteve estreitas relações, até que a vida e as idéias os separassem. Celso Furtado das idéias e das análises, tão freqüente na imprensa, ou, pelo menos, não apenas esse Celso Furtado que recentemente proclamou ser "inevitável" a moratória da dívida externa brasileira, mas, principalmente, o Celso Furtado da memória dos homens que conheceu e das coisas que viveu.
Tem a vida entre os apartamentos do Rio de Janeiro e de Paris, cidade que acolheu Celso Furtado em diferentes versões -- do estudante dos anos 40 ao exilado dos 60, do professor de Desenvolvimento Econômico da Sorbonne, de 1965 a 1985, ao escritor que encontra hoje, na capital francesa, o melhor ambiente para escrever seus livros.
E declara: O Brasil assumiu riscos muito grandes. Eu, que há cinqüenta anos acompanho todo esse processo de perto e sempre acreditei muito no Brasil, estou seriamente preocupado. Estamos diante de escolhas tão graves que todas parecem apontar contra nós. Se o Brasil se afasta da globalização, perde. Se se aproxima com as mãos atadas, como está fazendo, por meio do Fundo Monetário Internacional, também perde.
A globalização é um imperativo tecnológico, não é nela em si que está o problema. A globalização é uma força acima de tudo, como foram a invenção da roda ou a Revolução Industrial do século XVIII. O problema é a maneira de se integrar a ela. O Brasil enriqueceu, se desenvolveu, está entre os dez países mais industrializados do mundo, mas mantém sua subordinação aos grandes centros, às decisões negociadas fora do país. Por outro lado, quebrar isso significa ir contra a História, porque a História moderna é a da integração. Só tem acesso à tecnologia quem participa do mercado mundial.
Segundo - Vera Alves Cepêda - doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, Celso Furtado é um autor controverso no debate intelectual brasileiro, oscilando de uma posição intelectual quase hegemônica a uma recusa formal de suas teses. Seus primeiros textos, principalmente depois da publicação de Formação Econômica do Brasil, tiveram grande impacto no debate econômico do período e influenciaram a produção acadêmica da geração de intelectuais que se formaram entre os anos 60 e 70.
Nos anos 80 e 90, Furtado passou à categoria de clássico, como um autor necessário para compreender a realidade das décadas que trataram o desenvolvimentismo e a transição da economia mercantil para a economia industrial. A preocupação com um projeto para o Brasil está presente como uma marca em todo o pensamento furtadiano, obedecendo ao diálogo que o autor tece com as variações da realidade que o cerca. O movimento de adequação permite classificar o conjunto da obra de Furtado em três momentos distintos: a fase otimista, o pessimismo espantado e a crítica renitente.
O primeiro bloco representa os trabalhos e a participação política compreendida desde o início da carreira de Furtado até o golpe de 1964. Sua principal característica era o sentimento de esperança, que partia do reconhecimento claro dos limites impostos pela herança colonial ao pleno desenvolvimento nacional, mas que enxergava nos anos 50/60 uma fissura estrutural capaz de permitir o salto para a modernização.
A segunda fase inicia-se com a cassação política e vai até os anos 70, e tem um sabor de amargura. O sentimento de derrota nasce da constatação de que venceu a pior alternativa histórica desenhada no início dos anos 60 - um regime político fechado. Mais adiante, este sabor amargo vai ser ainda mais acentuado pela rachadura aberta na teoria formulada por Furtado na véspera do golpe, de que regimes fechados levariam inevitavelmente ao estrangulamento econômico. Este diagnóstico não ocorreu como o previsto e, anos mais tarde, Furtado revê suas posições, introduzindo o conceito de modernização do subdesenvolvimento.
Os trabalhos posteriores à década de 70 avaliam que o crescimento da economia brasileira, durante o regime militar, conduziu à modernização do subdesenvolvimento. Ou seja, houve adoção de certos aspectos do capitalismo contemporâneo, como novos padrões de consumo, urbanização e surgimento de novos segmentos produtivos, mas, nos aspectos fundamentais, permaneceram defasados os padrões tecnológicos e a modernização da produção. Sem transformações profundas, distantes dos padrões de modernidade ficaram as questões dos direitos sociais, da participação política, da função social do Estado e o problema da democracia. O corte imposto pelo modelo de desenvolvimento do regime militar criaria um obstáculo ainda maior para uma verdadeira superação do subdesenvolvimento, servindo, ao contrário, para perpetuá-lo.
Os anos 80 inauguram a era das reminiscências. Celso Furtado organiza seu passado e ajusta as contas com a memória, a sua e a da geração desenvolvimentista. Terminada a tarefa documental de um dos momentos de maior importância para a história brasileira, respira fundo e parte novamente para o ataque frontal - retoma os temas dos anos 50/60 e os ajusta frente aos desafios e à aparência de progresso unânime apresentados pelo capitalismo globalizado. A economia capitalista desenvolvida de nossa época se configura como um sistema econômico-social com uma relativa aptidão para manter-se em equilíbrio dinâmico. O avanço da ciência, que se apresenta como função exponencial do próprio desenvolvimento econômico, assegura um permanente avanço da tecnologia. A formação de capital segue assim por um canal previamente aberto, tropeçando apenas com obstáculos institucionais decorrentes dos ajustamentos insuficientes ou atrasados do marco institucional que disciplina os distintos fluxos econômicos. Os principais desses obstáculos refletem a persistência de formas anacrônicas de distribuição da renda, que se traduzem em insuficiente vigor na demanda final para consumo ou investimento.
Os países subdesenvolvidos sofrem sérios obstáculos para a introdução dessa dinâmica. Não são atrasados porque não adentraram na modernidade, os principais entraves existentes nas economias subdesenvolvidas é a exigüidade da inovação tecnológica e a abundância na oferta de trabalhadores. Como o exército industrial de reserva é muito grande, não há pressões por elevação de salários nem por políticas de distribuição de renda. A grande oferta de mão-de-obra e os baixos salários acomodam os capitalistas, que não são obrigados a incorporar novas tecnologias nem a aumentar o rendimento do trabalho com base nas técnicas de capital intensivo. Há um raciocínio cíclico impedindo o desenvolvimento de se processar.
O resultado é um círculo vicioso - exército industrial de reserva; mão-de-obra barata; nenhuma distribuição de renda; nenhum incentivo ao investimento tecnológico; baixa produtividade; reforço do subdesenvolvimento. E voltamos ao ciclo infernal que caracteriza o subdesenvolvimento.
Caio Prado Júnior
Caio Prado Júnior, um dos principais representantes do pensamento marxista na filosofia e na teoria política brasileira — e certamente um dos precursores da moderna ciência social no Brasil-, é um pioneiro na utilização dos conceitos marxistas como fator explicativo para a compreensão da nossa história.
Em sua obra, que abrange, além da visada histórica e filosófica, aspectos da nossa geografia, sociologia, economia e política, a formação e o desenvolvimento da nacionalidade brasileira são analisados a partir do ponto de vista da herança colonialista e da questão agrária. Seus estudos procuram alcançar uma dinâmica dialética que dê conta das determinações de nosso passado colonial e investigue as perspectivas para um provável futuro dentro do contexto do capitalismo. Ainda que hoje seu pensamento possa parecer datado, sobretudo em virtude da queda do comunismo mundial, o alcance histórico de suas análises ultrapassa qualquer modelização típica do marxismo e apresenta grande validade contemporânea para o entendimento da sociedade brasileira.
"É nessa reação contra o esquematismo que Caio Prado Jr. se revela um autêntico historiador, atento à realidade e capaz de captar a especificidade do caso brasileiro."
"Caio Prado Júnior nos oferece dois excelentes livros sobre o Brasil […] é, para bem e para mal, um historiador nato. Trata-se de um observador habituado a checar as fontes, a confrontar a relação entre os fatos, a avançar com prudência e, principalmente, atento à vida múltipla dos homens, que confunde os teóricos, sempre caprichosos, mesmo em relação às causas mais profundas e determinadas..." (Fernand Braudel, Folha de S. Paulo)
Quanto à casa-grande, se é certo que seu núcleo é a família ou antes, a família do senhor, e só ele (da pequena, da minúscula maioria, portanto, e isso se esquece freqüentemente), e se, neste sentido, é um ambiente familiar que cerca o filho-rico da sociedade colonial, exceção, no conjunto, quase única; há que abrir larga margem para restrições se pelo conceito de família não entendermos apenas uma estrutura anterior, mas todo aquele complexo de normas, de "atmosfera" mesmo, que concede à família, nas sociedades da nossa civilização, o grande papel de formador dos indivíduos e de seu caráter.
Neste sentido, a casa-grande ficou muito aquém de sua missão. O sistema de vida a que dá lugar, a promiscuidade com escravos, e escravos do mais baixo teor moral, as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas, a indisciplina que nela reina, mal disfarçada por uma hipócrita submissão, puramente formal, ao pai e chefe, tudo isso faz a casa-grande, antes uma escola de vício e desregramento, apanhando a criança desde o berço, que de sua formação moral.
Gláucia Rodrigues Castelani e Luiz Fernando B. Belatto do Depto. de História-USP apresentam a visão deste notável brasileiro com o objetivo de apresentar a vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e que, até hoje, influencia gerações de pensadores de diversas áreas do conhecimento no Brasil.
Primeiro intelectual a utilizar as teorias marxistas no estudo da História Colonial do Brasil, destacadamente, analisar como essa visão está presente no seu principal livro, Formação do Brasil Contemporâneo, e dentro deste no texto introdutório Sentido da Colonização, torna-se um dos responsáveis pela renovação da historiografia e Ciências Humanas brasileiras nos anos 30.
Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. Pertencia à aristocrática família Prado, de certa tradição na sociedade paulista, dona de riquezas e importante participação na economia local. Assim, estudou no Colégio São Luís, realizando depois um ano de estudos secundários no Colégio Chelmesford Hall, em Eastborn (Inglaterra). Voltou para o Brasil para estudar Direito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde formou-se em 1928. Desde sua juventude teve importante participação na conjuntura política nacional; de tendências políticas contrárias ao velho Partido Republicano Paulista, que representava os interesses dos fazendeiros de café, que dominavam desde a proclamação de República o cenário político nacional.
Como oposição a essa corrente, formou-se em 1926, o Partido Democrático, que reuniu os adversários do Partido Republicano Paulista. O jovem Caio Prado Jr. inscreveu-se nele logo no ano de sua fundação, e nele atuou intensamente; foi essa sua primeira experiência política. Participou da Aliança Liberal que apoiou Getúlio Vargas em sua candidatura à presidência da República em 1930, a qual somente chegou ao poder por meio de uma revolução no mesmo ano. Desiludido com o plano político do Partido Democrático e do novo governo, em 1931 tornou-se membro do Partido Comunista e passou a trabalhar para a formação e organização de suas bases políticas junto ao proletariado.
Teve participação também na Intentona Comunista de 1935, sendo preso com a derrota desta e solto dois anos depois. Em 1937 vai para o exterior, exilando-se na França. Época essa do auge do nazi-facismo na Europa e da ascensão do franquismo na Espanha, com a Alemanha e Itália intervindo abertamente na Guerra Civil Espanhola.
Nesta, Caio Prado Jr. vai para a fronteira auxiliando os emigrados espanhóis a fugir do território através de uma organização montada pelo Partido Comunista Francês. Retorna ao Brasil em 1939. Mantendo-se ativo na militancia comunista (ainda que restrita) elege-se deputado estadual por São Paulo em 1947, mas foi cassado no ano seguinte quando o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade. Homem de negócios, fundou a Editora Brasiliense e a Gráfica Urupês. À primeira, fundada com Monteiro Lobato, em 1944. Pela editora publicou de 1955 a 1964 a Revista Brasiliense, editada por vários intelectuais.
Caio Prado Jr. candidatou-se à cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito do Largo São Francisco – embora conhecesse bem o conservadorismo do local, pois lá estudara e se formara -, escrevendo uma tese intitulada Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira. Sabia que não seria aprovado em função de suas posições socialistas, opostas demais a uma instituição tão conservadora. Deram-lhe o título de livre docente (1954), que lhe foi cassado mais tarde, em 1968. Mesmo assim, quando vagou a cadeira de História do Brasil na Faculdade de Filosofia, com a aposentadoria do seu titular, Sérgio Buarque de Holanda, candidatou-se novamente com o trabalho História e Desenvolvimento. O concurso não aconteceu, entretanto, devido ao Golpe Militar de 1964.
Caio Prado Júnior sempre dizia não saber história, no sentido de ignorar uma quantidade de datas e esquecer outras, se embrulhar nas dinastias e dar pouca importância às batalhas e detalhes. O que lhe interessava é a vida diária, a produção, o movimento dos negócios, as técnicas de plantio, os costumes, o mecanismo de transmissão da propriedade.
A curiosidade intelectual foi um traço inesgotável e essencial de sua personalidade, nunca manifestando desconforto ou preguiça ao enfrentar as precárias estradas e hotéis existentes no Brasil. Queria saber a verdade, conhecer de perto as relações de trabalho e de produção em cada recanto do país: defendia uma reforma agrária planejada, com o conhecimento das situações regionais. Motivava-o, basicamente, uma profunda perplexidade diante das desigualdades sociais. Em suas viagens pelos países industrializados, comparava a qualidade de vida, o nível cultural do camponês ou do operário de lá com o daqui, lamentando as desigualdades de nossas estruturas sócio - políticas que ainda mantinham e mantêm padrões de vida deploráveis para a maioria da população.
Quando tinha cerca de 18 anos e retornava de uma viagem que fizera sozinho ao Oriente Médio, desejou então conhecer o Brasil, viajando pelos estados interioranos. A visão que teve marcou-o profundamente. Assombrou-se com a miséria e subdesenvolvimento discrepante dos países considerados modelos do capitalismo industrial. Ao mesmo tempo, observou a diversidade regional deste país.
Sobre tal experiência, acrescentou: "Eu era na realidade um burguês rico, de educação e visão européia, acostumado ao conforto material. Ignorava até então a nossa realidade". Costumava dizer que naquele instante despertou-se para os problemas brasileiros e daí para os porquês daquilo e para suas soluções. A partir de então, começou o seu engajamento e o seu estudo sistemático do Brasil, adotando uma postura receptiva constante. Passou a trabalhar com o presente e o passado, em vista do futuro, perseguindo para sempre tais atividades.
Em 1934, Caio Prado Jr."descobriu" a geografia e sua utilidade, mérito que sempre atribuiu a Pierre Deffontaines, geógrafo francês que viera lecionar a matéria na recém inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Com o professor, viajou diversas vezes pelo Estado de São Paulo e participou da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil, a qual promovia encontros anuais dos especialistas e estudos regionais conjuntos. Dessa forma a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História, produzindo importantes estudos na disciplina.
Considerava suas prisões como oportunidades que a vida lhe proporcionou para aprendizagem, inclusive no sentido didático. Por ocasião de uma delas, aproveitou para tomar aulas de matemática, transmitiu seus conhecimentos aos companheiros e alfabetizou um operário.
E como pensador Caio Prado Júnior destaca-se como um dos principais representantes da utilização do marxismo no estudo da História e teoria política brasileiras. Sua obra abrange os campos da História, Geografia, Sociologia, Economia, Política e Filosofia.
Ela é composta pelos seguintes livros: Evolução Política do Brasil (1933); URSS: Um novo mundo (1934); Formação do Brasil Contemporâneo (1942), que é considerada sua principal obra, um clássico ensaio sobre a História Brasileira; História Econômica do Brasil (1945); Dialética do Conhecimento (1952); Diretrizes para uma Política Econômica (1954); Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica (1957); Introdução à Lógica Dialética (1959); O Mundo do Socialismo (1962); A Revolução Brasileira (1966), pelo qual recebe o título de Intelectual do Ano, sendo agraciado com o prêmio Juca Pato; História e Desenvolvimento (1968); O Estruturalismo de Lévi-Strauss - O Marxismo de Louis Althusser (1971); A Questão Agrária no Brasil (1979) e A Cidade de São Paulo (1983). Caio Prado Júnior morreu em 1990 devido a complicações de saúde conseqüentes de um aneurisma na artéria aorta.
Evolução Política do Brasil (1933) é a primeira obra de Caio Prado Júnior, e também a primeira análise marxista e materialista da história nacional. Curto ensaio de síntese da História do Brasil (da Colônia até o fim do Império). Apresenta um nova visão do passado: temas novos são abordados e outros antes esquecidos reaparecem.
No livro, Caio Prado Jr., prega e prova a não existência do feudalismo no Brasil (pois considera que desde o início da colonização nossa estrutura econômica é capitalista). O que mais se pode destacar é que ele dá uma nova análise às rebeliões regenciais, colocando-as como movimentos que tentaram romper a ordem colonial, considera-os como movimentos do povo, que procura melhorar as condições de vida e ocupar um espaço na nacionalidade (estruturas produtivas e sociais)
Diferentemente da historiografia oficial, Caio Prado Júnior vê tais movimentos como relativamente organizados e nascidos da vontade popular. Considera a Independência não como "emancipação", mas sim "libertação" surgida de um "arranjo político". Ou seja, preserva-se as instituições de mando e a ordem colonial; o povo mantém-se à parte da política nacional. E o livro coloca, pela primeira vez, o "povo" na História do Brasil como participante ativo da mesma.
História Econômica do Brasil (1945) é um texto interpretativo da formação econômica nacional, desde o período colonial até os anos 30 deste século,abordando nossa trajetória econômica. A Revolução Brasileira (1966) critica a atuação das forças de esquerda brasileiras. Ele aponta as falhas das propostas políticas da esquerda e como isso compromete o destino nacional. Critica, entre outros temas, a distância entre as análises do partido comunista brasileiro sobre o Brasil e nossa realidade. Da mesma forma, abre espaço para ressaltar a importância do povo na sociedade e história nacional. Para o autor, somente a ação popular, voltada para a realização de suas necessidades para a sobrevivência, pode revolucionar a sociedade brasileira. Uma sociedade mais voltada para si do que para o exterior (a superação do nosso "sentido" inicial definido no "Sentido da Colonização").
O sentido histórico de um povo é perceptível nos fatos mais importantes e essenciais de sua formação em determinado período de tempo. O sentido histórico pode variar, sob a influência de transformações internas profundas de equilíbrio e estrutura do povo; bem com acontecimentos externos estranhos a ele. Ou os dois juntos. Exemplo: Portugal, que até fins do século XIV se define com o objetivo de formar uma Nação lutando contra a invasão árabe e constituindo uma Monarquia.
Porém no século XV, a nação passa por uma mudança de sentido; com suas fronteiras estabelecidas e a centralização do poder nas mãos de um rei, o país se volta para o oceano; com isso, fomenta ao longo do tempo as navegações e, com as conquistas que promove, forma uma empresa colonial.
Em relação a tal problemática, Caio Prado Júnior afirma que para se compreender a história brasileira é preciso localizar o seu sentido, que se define na nossa formação colonial.
Para promover a análise com vias de achar nosso sentido histórico, o autor parte do início do século XIX. Considera tal período a "síntese" de nossa época como colônia, ou seja, um tempo no qual a obra colonizadora encerra-se e a sociedade começava a buscar outros rumos. O que possibilita tal corte é, para o autor, a continuidade estrutural e de organização que o Brasil teve durante seus três séculos de história colonial.
Sua proposta é, então voltar ao passado para entender nosso sentido, da mesma forma que encaixar nossa colonização e ocupação num processo maior: as navegações e descobertas dos séculos XV e XVI. O sentido histórico do Brasil relaciona-se a tal expansão. A colonização lusa na América não é um fato isolado, mas "a parte de um todo". É um acontecimento não facilmente analisável, pois envolve a compreensão dos anseios econômicos metropolitanos e as circunstâncias de momento histórico.
A colonização não ocorre espontaneamente ou naturalmente, mas é um capítulo relacionado aos Grandes Descobrimentos Marítimos, que se encaixa por sua vez na história do comércio europeu. Todas as políticas conquistadoras e colonizadoras dessa época têm em comum o caráter comercial: é sempre desejando o tráfico de mercadorias que os europeus produzem tal obra. Não é possível entender isso tudo sem uma análise do movimento maior da expansão marítima e comercial da Europa.
Em virtude do caráter mercantil inicial, não há preocupação com o povoamento. O objetivo é somente as atividades mercantis imediatas, o que a América portuguesa não poderia proporcionar naquele momento para comércio imediato. Além disso, a Europa não possuía excesso populacional que viabilizasse a colonização. O que se tem são, inicialmente, simples feitorias que praticam escambo com indígenas e defendem a terra.
O grande processo colonizador virá com a queda do comércio com as Índias e a necessidade de gerar novas fontes de riqueza. A idéia de povoar surge então da tentativa de promover atividades econômicas que gerassem lucros à Metrópole, sendo também capaz de abastecer e manter as feitorias encarregadas desse processo e defender a área. Em relação às outras nações européias, Portugal foi pioneiro nisso. Mas perdeu sua posição de maior potência colonial para ingleses e franceses, com o desenvolvimento destes nos séculos seguintes. O novo sistema colonizador é moldado de acordo com o que o território oferece. O autor propõe a divisão da América em duas áreas de colonização:
1- Temperada – colonizada por camponeses e perseguidos religiosos europeus – seu caráter é constituir "um novo mundo", pois seus habitantes não são traficantes e aventureiros, mas pessoas expulsas de sua terra. Além disso, dirigem-se a uma área de características semelhantes às da Europa, e que portanto não ofereciam bens de interesse comercial. Forma-se uma colonização não voltada para o fornecimento de produtos para o comércio.
2- Tropical – repele o colono do tipo temperado, ou seja, "regular" – (pois o meio era diferente e desconhecido, oferecendo dificuldades de adaptação). Os poucos que vem para cá vão se adaptando com as gerações seguintes. Assim, um novo caráter colonizador é construído. A colonização dos trópicos será realizada em função dos produtos exóticos e diferentes não existentes na Europa que podem fornecer (açúcar, tabaco, pimenta, etc.). este será o estímulo do colono para vir a uma região desconhecida e prover a obra colonizadora. Deseja a riqueza imediata e que custa pouco esforço. Assim, virá para ser dirigente da empresa comercial produtora de bens agrícolas, e não o seu trabalhador
A força de trabalho nos trópicos, assim, será o escravo negro. Influi para isso mais uma vez, a escassa população da Península Ibérica, que impedia a vinda de grande número de colonos. Mas o fato de que já se usava (principalmente em Portugal) escravos negros vindos da África nos trabalhos agrícolas e urbanos. Assim, o negro virá das colônias africanas para abastecer as lavouras coloniais americanas, que por sua vez estão organizadas no regime de grande propriedade e monocultura tudo isso voltado exclusivamente para o abastecimento europeu.
A sociedade que se origina nos trópicos será original, ou seja, especializada na produção de bens agrícolas de grande valor para o comércio europeu. Nunca se tentara isso; será a "empresa do colono branco", que comandará a produção e subjugará o trabalho de "raças inferiores" (negros e índios). Tudo nessa sociedade se dá em função disso: exploração de recursos naturais por uma vasta empresa comercial produzidos em latifúndios monocultores que usam mão-de-obra escrava. É este o sentido da colonização tropical, do qual o Brasil é uma das resultantes; ele explicará nossa formação histórica e evolutiva tanto no campo econômico quanto no social.
O autor afirma que, se vamos à essência da nossa formação, perceber-se-á que o país se constituiu para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros; ouro e diamantes; algodão e depois café para os mercados externos. Isso caracterizou a colônia ao longo de três séculos, dispondo de todas as estruturas e atividades sociais e econômicas para seu desenvolvimento.
O resultado final é que nossa sociedade e economia são moldadas em função desse sentido, o qual se prolonga e se faz notar na nossa evolução até o momento em que o livro foi escrito (1942). Para Caio Prado Júnior, compreender nosso sentido é entender a realidade brasileira, sua formação e problemáticas e é isso que ele se propõe a demonstrar no decorrer da obra.
Caio Prado Jr ao aplicar a ciência marxista na análise da História Brasileira, como um processo: os fatos passados se relacionam e se fazem existentes no presente, e ambos tempos servem de base para se chegar a um futuro, o que ao longo de Formação do Brasil Contemporâneo, o caráter colonial permanece na estruturação da sociedade brasileira.
O passado fazia-se notável no presente do país, mesmo mais de um século de Independência, como uma sombra e característica fundamental, implantada na formação nacional. O sentido da formação e evolução histórica brasileira definiu-se para fornecer bens agrícolas tropicais para o comércio europeu.
É isso que afirma Sérgio Silva em seu ensaio A crítica ao Capitalismo Real: para Caio Prado, a diversificação das atividades produtivas e a industrialização trazem modificações para a economia nacional e contribuem para a superação da velha ordem colonial (produtor de gêneros agrícolas). No entanto, ao mesmo tempo que o elimina gradativamente o reforça, pois a produção ainda se destina ao mercado externo; muitas pessoas ficam excluídas do mercado consumidor e produtivo; essa produção é regida pelos interesses do mercado internacional e por conglomerados imperialistas.
Não se tratava somente de industrializar, mas acima de tudo voltar a produção e economia nacional às necessidades do mercado interno, da nacionalidade, e integrar a população brasileira a esse processo dinâmico produtivo.
Nossa sociedade foi moldada por tal sentido, que representa um modo de produção característico. Este modulará, em conseqüência, um modo de vida. Esta idéia foi expressa por Marx em A Ideologia Alemã:
"O modo pelo qual as pessoas manifestam sua vida reflete muito exatamente o que elas são. Tal modo de ser coincide portanto com sua produção, tanto com o que produzem como o modo pelo qual produzem. O que as pessoas são depende, portanto, das condições materiais de sua produção".
Dessa forma, a presença do latifúndio agrário, do caráter exportador da nossa economia, da força da monocultura em muitas áreas agrícolas, nem mesmo a industrialização modificou essa situação: para Caio Prado Jr., o caráter externo de nossas bases econômicas e sociais permaneceu, visto que a produção industrial passou a ser exportada, e não destinada ao consumo interno.
Da mesma forma, se analisarmos o grosso das exportações brasileiras, ver-se-á que, para as nações européias, continuamos basicamente um grande fornecedor de produtos agrários.
O Materialismo Histórico considera a produção dos bens materiais necessários à existência dos homens – a estrutura econômica da sociedade – como a força principal que determina toda a vida social humana e condiciona a transição de um regime social a outro.
Dessa forma, a História nasce da constante relação homem-natureza, envolvendo a produção dos recursos necessários para a satisfação das suas necessidades. Com a multiplicação da espécie e seu desenvolvimento, o homem sempre está estabelecendo novas necessidades, gerando assim outras relações com a natureza e novos sistemas sociais. Como tal processo é constante.
Fernando Novais considera em seu livro Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial que o papel que justifica e explica o surgimento e funcionamento das colônias é a geração de recursos por meio do comércio de produtos agrícolas que elas produzam e da venda de manufaturas metropolitanas para as mesmas. Ou seja, gerador da acumulação primitiva de capitais, sendo estes surgidos do movimento comercial e empregados no processo de avanço tecnológico das manufaturas para as máquinas (quando o capital gerado a partir da produção das máquinas é denominado industrial).
Essa transformação leva o Antigo Regime a uma crise estrutural e econômica, e o Capitalismo Comercial dá lugar ao Capitalismo Industrial, centrado no lucro fabril.
Dessa forma, o papel da colonização dos trópicos, inicialmente, é montar bases estáveis para a produção de bens agrícolas que gerassem lucros mercantis às suas metrópoles. A acumulação que esse regime proporciona leva, mais tarde, ao inevitável incremento tecnológico e ao deslocamento do gerador de capital: este passa a ser fruto da fábrica e da produção em série das máquinas.
Numa palavra, a Revolução Industrial, que inaugura um novo regime econômico, social e produtivo na Europa. Portanto, o fundamento das colônias ao longo da história é produzir lucros mercantis e servir como escoadouro da produção manufaturada mercantil.
O Brasil é parte da engrenagem desse sistema: essa é a visão pradiana que é explicitada no Sentido e abordada no decorrer da obra. As contradições e deficiências do Capitalismo Comercial geraram outro Capitalismo, que na essência mantém os mesmos parâmetros de funcionamento mas possui certas diferenças. As colônias não mais geram capital, mas sim fornecem matérias-primas para as indústrias; da mesma forma, é mais lucrativo dispor delas não como territórios acoplados à metrópole, mas como países cujas economia sejam dela dependentes.
E, claro, o advento do Capitalismo Industrial engloba a luta de classes: destacadamente entre realeza e burguesia, na qual a segunda exige liberdade para exercer suas atividades, e não mais ser limitada e explorada por um rei absolutista e dominador.
Assim, as contradições, novas conjunturas e luta de classes levam às transformações e modificação do sistema produtivo-econômico próprio do Antigo Regime, característico do Brasil Colonial.
Desta forma o pensamento de Caio Prado Jr. referente a entender o Brasil repúblicano e ditatorial devemos ter análises do período colonial, do qual configura a formação econômica do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda
Juntamente com Celso Furtado e Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902, foi um dos "explicadores do Brasil", isto é, alguém que, por meio de um respeitável obra, procurou tornar o país mais inteligível aos próprios brasileiros. Seu interesse oscilou entre a literatura e a história, sempre abordadas pelo viés da sociologia, especialmente a da escola alemã, mais precisamente a de Max Weber.
Hoje, Sérgio Buarque de Holanda, falecido em 1982, é considerado um dos mais eminente intelectuais brasileiros do século XX.
Sérgio Buarque de Holanda, saindo com a mulher e amigos nas noites de sábado no Rio de Janeiro, tinha um meio infalível de conseguir uma boa mesa num restaurante. Chegando-se ao maitre dizia: "Sou o pai do Chico!" Palavras mágicas que, testemunhou Raymundo Faoro, faziam com que de imediato providenciassem um lugar para o historiador e seus convivas. O próprio Sérgio Buarque, cujo centenário de nascimento comemora-se no dia 11 de julho de 2002, divertia-se com aquilo, comprovando assim a eficácia de uma das suas teses famosas: a da inata cordialidade do homem brasileiro.
Quando ele a defendeu, nos idos dos anos trinta ( é o 5º capitulo do Raízes do Brasil, publicado em 1936), desabaram críticas. Para os integralistas, os fascistas brasileiros de então, a concepção dele era desvirilizante, pois eles preferiam um varonil bandeirante como característica nacional. Alguém como Domingos Jorge Velho ou Pai Pirá, descritos na Marcha para o Oeste de Cassiano Ricardo, paulista como Sérgio, editado em 1940, uns fura-matos que, com trabuco na mão, facão na cintura e muita crueldade, enfiando-se pelos sertões, dilataram as fronteiras nacionais no peito e na raça.
Para os comunistas, ao revés, sempre cultivando a revolta, a insurgência das massas, a idéia da cordialidade cheirava a submissão, a conformismo, a conluio com as oligarquias. O tipo ideal deles era o Cavaleiro da Esperança exaltado por Jorge Amado, em edição de 1942, o herói a cavalo que, com pouca munição e muita coragem abalara fundo o agreste injusto e bárbaro, como fizera Luís Carlos Prestes com sua coluna rebelde. Mas assim era Sérgio Buarque, avesso aos extremos, sentia-se mais seguro nas sendas do liberalismo.
A cordialidade....a lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam com efeito um traço definitivo do caráter brasileiro..."Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil, 1936
Historiador e amante da literatura, entre os alemães que então estavam em moda, decidiu-se por Max Weber e por George Simmel, textos de quem ele privou diretamente quando da sua estada na Alemanha entre 1929-1930. Daí a preocupação dele, recorrendo à sociologia weberiana, em identificar entre os ocupantes do Novo Mundo os "tipos ideais" , cunhando então as figuras do semeador e do ladrilhador, para melhor distinguir a colonização lusitana da espanhola.
Ao contrário de Gilberto Freyre, que exaltara a adaptabilidade do português no trópico, Sérgio Buarque queixou-se, veemente, da má vontade deles para com as letras, para com a imprensa e a educação, deixando o Brasil colônia mergulhado por três séculos numa ignorância estratégica. Viu-os como simples semeadores que mal queriam sair do litoral, os "caranguejos" do Padre Antonil, feitores criando arraiais e vilarejos ao deus-dará, espremidos por latifúndios gigantescos, bem ao contrario do ladrilhador espanhol que , este sim, embrenhou-se no coração da América, ocupando-a com cidades planejadas, abrindo escolas, gráficas e universidades, desbugrando o Novo Mundo.
Atribuiu a eles, aos lusos, este nefasto gosto nosso pelo palavreado sem freio, sonoro mas nem método, o cultivo da inteligência como ornamento, sem aplicação útil, a busca bocó pelo anel de grau, a " equivaler a autênticos brasões de nobreza." E, claro, o pavor à técnica e às artes mecânicas em geral, vistas sempre como atividades inferiores, indignas de um homem de bem. Para Sérgio Buarque, o momento crucial da historia social do Brasil dera-se com a Abolição.
A partir de 1888, desencadeara-se uma revolução silenciosa rumo a um progresso material e moral, fazendo com que os demais acontecimentos políticos nacionais (tal como a Revolução de 1930, que ele, como paulista, não devotou simpatias), não passassem de tumultos e afobações inconseqüentes. Viu o Brasil, desde a Lei Áurea, movendo-se como um grande rio de planície, que, no seu fluir, arrasara a casa grande & senzala, deslocando a sociedade brasileira do mundo rural para o mundo urbano, arrastando em seu lento cataclismo o Império, apagando com isso os vestígios do nosso passado ibérico.
Estava em formação algo novo, uma alquimia ainda pouco conhecida, talvez ilusoriamente americano, dominado pelas cidades, que, rompidas com a antiga ordem agrária, reclamavam agora sua soberania, a querem vida própria, a terem a primazia de tudo. Porém, o grande drama, persistente, ainda se impunha.
Como, inquietava-se Sérgio Buarque, implantar uma ordem e uma cultura européia num território tão vasto e tão estranho aos ditames da razão e do método? Pois, como ele assegurava, "somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra", tendo contra nós um outro clima e uma outra paisagem. E, além disso, descendíamos de dois países bem pouco europeus, Portugal e Espanha, que eram destacados amantes do personalismo, chegando as raias da anarquia, avessos à instituições solidárias, o que levava à frouxidão da estrutura social e à falta da hierarquia organizada. Desafio para colossos que, entretanto, repousa nos ombros estreitos de todos nós. Ao comentar o destino que previa para os integralistas, uma força política nos anos trinta, foi lapidar e profético ao dizer que eles, como qualquer outro partido que representava interesses ou de ideologia, se estiolariam, pois "a tradição brasileira nunca deixou funcionar os verdadeiros partidos de oposição".
O "achamento" do Brasil pela frota de Pedro Alvares Cabral não teve efeitos imediatos, nem para os lusos nem para os nativos. Somente meio século depois, com a instalação de um governo-geral na Bahia em 1549, é que pode dizer-se que seu descobrimento começou a gerar proveitos. A razão disso é que a Coroa Manuelina estava mais interessada no comércio com as Índias, devotando suas energias para a instalação de uma atividade regular com Calicute e outras feitorias, bem como não terem encontrado os portugueses nenhum metal precioso no território recém conhecido. Assim, o Brasil foi considerado em seus princípios apenas como uma paradouro, eventualmente a recorrer-se, na "carreira para as Índias"
Tanto é que a frota de Cabral, partiu uns dias depois ao da missa. Quanto ao descobrimento ter sido causal ou não, como colocou em duvida o escritor brasileiro Joaquim Norberto, parece-nos hoje uma discussão ociosa, bem como aquelas outras afirmações de ter sido o litoral brasileiro desbravado antes por outros navegadores, tais como Jean Cousin, Martim Behaim ou Vicente Pinzón. "Paz do esquecimento" recomendou Oliveira Martins "a todas as quimeras!"
Pensador de idéias graves e um dos mais alegres homens de sua geração. Jornalista, boêmio, crítico literário e historiador profundo, o maior deles, das nossas raízes brasileiras. Sérgio Buarque de Holanda, e sua obra, saborosa pelo estilo, legado de escritor, mantém-se um desafio para toda pessoa que se dispuser a entender o Brasil. A sua memória continua a inspirar a polêmica, em seminários e novos livros, com o leque de fontes para a discussão ampliado pelos textos garimpados, nos últimos anos, em seu extenso arquivo, com muitos inéditos, que continuam a vir à tona.
A viagem pelo arquivo, mantido desde meados dos anos 80 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é o encontro com um homem de biografia multifacetada, pai dos sete filhos que teve com Maria Amélia - alguns ilustres, como Miúcha e Chico - e autor de uma obra complexa, na qual o pensamento se desdobra em caminhos inesperados, que causaram muita perplexidade. Até o fim da vida, dr. Sérgio, como era chamado, viu-se obrigado a explicar uma idéia que tivera nos seus 30 e poucos anos, lançada no arrebatador "Raízes do Brasil", de 1936, quando afirmou que o brasileiro é o homem cordial.
"Já refutei essa tese", diria, numa entrevista de 1958 à "Tribuna da Imprensa" que pode ser lida no arquivo. "Hoje eu não usaria essa expressão, porque é ambígua", voltaria a reiterar à "Folha de São Paulo" em 1977. "Nunca disse que o brasileiro é bonzinho. O sujeito pode ser mauzinho e mauzão", brincou ele na conversa. Na segunda edição de "Raízes", em 1947, Sérgio Buarque já acrescentara uma nota, para afastar controvérsias: "A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado".
Na sociedade onde vive o homem cordial, diria ele no livro, cada indivíduo "afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas". O homem cordial, generoso e hospitaleiro no trato, é na verdade superficial, apegado às aparências. Abre flanco aos personalismos, segundo ele, um dos fundamentos da sociedade brasileira. - É um livro muito polêmico, mas os bons livros são polêmicos. É um mérito ser assim depois de tanto tempo. A cada geração, "Raízes do Brasil" faz pensar. Incomoda porque essa noção de cordialidade não é uma essência, mas resulta de um longo processo histórico de mudança.
A cordialidade é sobretudo um alerta, não se trata de uma verificação feliz, é algo que precisa ser alterado - afirma a antropóloga Lilia Schwarcz, autora, entre outros, de "As barbas do imperador", sobre d. Pedro II, em que lançou mão de muitas lições aprendidas com o mestre.
Na Unicamp, pode-se consultar a biblioteca de Sérgio Buarque, com 8.513 livros, 600 obras raras, sua rica correspondência, cadernos e blocos de anotações, recortes de jornais, fotografias. O próprio Sérgio, pesquisador acurado que era, iria se sentir radiante diante de acervo tão rico (complementado pelo site www.unicamp.br/siarq/sbh).
O historiador Edgar de Decca, que preside a comissão da Unicamp para a celebração do centenário, estuda há quatro anos uma dissertação de mestrado inédita de Sérgio Buarque, "Elementos formadores da sociedade portuguesa na época dos Descobrimentos", de cerca de 150 páginas, que gostaria de ver publicada. A tese foi defendida em 1958 na Escola Livre de Sociologia de São Paulo.
Para prestar o concurso para professor de História da Universidade de São Paulo (USP), no mesmo ano, Sérgio Buarque precisava apresentar títulos acadêmicos (ele era formado em direito). Segundo De Decca, o texto inédito complementa "Visão do paraíso", a tese que o professor apresentou no concurso de admissão na USP e que se tornaria, para muitas pessoas, seu mais belo e importante livro. Em "Visão do paraíso", Sérgio Buarque trabalha no plano das mentalidades dos portugueses no tempo dos Descobrimentos. Já em "Elementos", ele estuda o lado mais material dessa cultura, mostra o vazio do interior de Portugal, de forte cultura marítima - conta De Decca.
Modernista de primeira ordem, Sérgio Buarque, aos 20 anos, foi o correspondente da inovadora "Klaxon" no Rio, em 1922. Com Mário de Andrade, manteve uma contínua correspondência, que iria até o fim da vida do autor de "Macunaíma". As cartas trocadas serão publicadas em breve pela Edusp, em livro preparado pelo professor de literatura de Princeton Pedro Meira Monteiro, autor de "A queda do aventureiro", sobre o legado de Sérgio Buarque, e a pesquisadora Vera Neumann. Muitas das cartas encontram-se no arquivo de Campinas. Mário de Andrade elegeu Sérgio Buarque como consultor de questões históricas, no tempo de sua pesquisa sobre folclore. É impressionante acompanhar como ele insistia em algumas perguntas a Sérgio, até que ele respondesse - conta Pedro Meira.
Com a modernização do Brasil, acreditava Sérgio Buarque que muitos dos arcaísmos e vícios do país poderiam ser superados. Segundo Antonio Arnoni Prado, organizador do fundamental "O espírito e a letra", que reúne a maior parte das críticas literárias publicadas pelo pensador em jornais, o projeto de Sérgio Buarque para o futuro do Brasil era uma interrogação. Sérgio Buarque abriu caminhos para se pensar o Brasil na sua singularidade exótica, excluída, diferente, desigual, errada, mas nossa - declara Arnoni.
Gilberto Freyre
" Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro." Mestre Gilberto Freyre... Escritor pernambucano, morador de Apipucos, no Recife. Era descendente de senhores de engenho. Conhecia bem os casarões... Em 1933, após exaustiva pesquisa em arquivos nacionais e estrangeiros, Gilberto Freyre publica Casa-Grande & Senzala, um livro que revoluciona os estudos no Brasil, tanto pela novidade dos conceitos quanto pela qualidade literária.
Gilberto Freyre foi buscar nos diários dos senhores de engenho e na vida pessoal de seus próprios antepassados a história do homem brasileiro. As plantações de cana em Pernambuco eram o cenário das relações íntimas e do cruzamento das três raças: índios, africanos e portugueses. Em Casa-Grande & Senzala, o escritor exprime claramente o seu pensamento. Ele diz: "o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada" . Os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos.
Casa-Grande & Senzala foi a resposta à seguinte indagação que eu fazia a mim próprio: o que é ser brasileiro? E a minha principal fonte de informação fui eu próprio, o que eu era como brasileiro, como eu respondia a certos estímulos."
Havia tempos Gilberto Freyre procurava escrever sobre o ser brasileiro. Pressões políticas e familiares o levaram, entre 1930 e 1932, a viver o que chamou de "a aventura do exílio". Partiu para a Bahia e pesquisou as coleções do Museu Afro-Brasileiro Nina Rodrigues e a arte das negras quituteiras na decoração de bolos e tabuleiros. Observou que a culinária baiana era neta da velha cozinha das casas-grandes. Depois da Bahia partiu para a África e Portugal. Iniciou em Lisboa as pesquisas e estudos que sedimentariam o livro Casa-Grande & Senzala. De Portugal foi, como professor visitante, para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde viajou pelo Sul e pôde constatar a existência, durante a colonização americana, do mesmo tipo de regime patriarcal encontrado no nordeste brasileiro. Durante o período de estudos na universidade americana, o escritor elaborou uma linha de pensamento que diferenciava raça e cultura, separava herança cultural de herança étnica; trabalhou o conceito antropológico de cultura como o conjunto dos costumes, hábitos e crenças do povo brasileiro.
Portugal, um país largamente marítimo, recebia sempre povos de todos os lugares do mundo. Seus portos eram rota de comércio e de migrações. O contato com estrangeiros estimulava, no povo português, tendências cosmopolitas, imperialistas e comerciais.
Na Península Ibérica as raças se misturavam havia milênios. O encontro das culturas árabes e romana impregnava a moral, a arte, a economia e a vida do português. Os árabes - excelentes técnicos navais - e os judeus - financistas e com altos cargos de administração, no conselho real -, emprestavam conhecimento e dinheiro para o empreendimento das navegações e dos descobrimentos.
A burguesia comercial ganhava mais poder que a aristocracia territorial portuguesa e buscava no além-mar terras e riquezas nunca exploradas. Além da mobilidade, o português tinha a capacidade de se misturar facilmente com outras raças. Os homens vinham sem família, sozinhos. Chegavam carentes de contato humano e começavam a se reproduzir primeiro com as índias e depois com as negras escravas. Era preciso povoar o território. No momento em que embarcou na aventura ultramarina, Portugal tinha três milhões de habitantes. O Brasil era imenso; então, como povoar esse território?
Num processo de equilíbrio de antagonismos, o branco e o negro se misturavam no interior da casa-grande e alteravam as relações sociais e culturais, criando um novo modo de vida no século XVI. As relações de poder, a vida doméstica e sexual, os negócios e a religiosidade forjavam, no dia-a-dia, a base da sociedade brasileira.
A casa-grande abrigava uma rotina comandada pelo senhor de engenho, cuja estabilidade patriarcal estava apoiada no açúcar e no escravo. O suor do negro ajudava a dar aos alicerces da casa-grande sua consistência quase de fortaleza. Ela servia de cofre e de cemitério. Sob seu teto viviam os filhos, o capelão e as mulheres, que fundamentariam a colonização portuguesa no Brasil. Embora diretamente associada ao engenho de cana e ao patriarcalismo nortista, a casa-grande não era exclusiva dos senhores de engenho. Podia ser encontrada na paisagem do sul do país, nas plantações de café, como uma característica da cultura escravocrata e latifundiária do Brasil.
O clima tropical e as formas agressivas de vida vegetal e animal impossibilitavam a implantação de uma cultura agrícola, nos moldes do costume europeu. O português teve então de mudar seus hábitos alimentares. A mandioca substituía o trigo; no lugar das verduras, o milho; e as frutas davam um colorido novo à mesa do colonizador. Mas sua dieta ficava empobrecida, devido à ausência de leite, ovos e carne, que só apareciam em datas especiais, festas e comemorações.
A terra foi usada para o cultivo da cana em detrimento da pecuária e da cultura de alimentos, o que provocou a apatia, a falta de robustez e a incapacidade para o trabalho. Males geralmente atribuídos à mestiçagem. Os portugueses não traziam para o Brasil nem separatismos político, nem divergências religiosas, e não se preocupavam com a pureza da raça. Assim o país se formava. E a unidade dessa grande extensão territorial com profundas diferenças regionais, garantida muitas vezes com o uso da força, aconteceu devido à uniformidade da língua e da religião.
A Igreja desenvolvia planos ambiciosos de evangelização da América Latina, toda ocupada por países de tradição católica. Nessa quase cruzada no Novo Mundo, os padres jesuítas desempenhavam um papel importante na tentativa de implantar uma sociedade estruturada com base na fé católica. Para catequizar os índios, os jesuítas decidiram vesti-los e tirá-los de seu hábitat. Já o senhor de engenho tentava escravizá-los.
Nos dois casos, o resultado era o extermínio e a fuga dos primitivos habitantes da terra para o interior. A sociedade brasileira, entre todas da América, era a que se formava com maior troca de valores culturais. Havia um aproveitamento de experiências dos indígenas pelos colonizadores. Mesmo quando inimigo, o índio não provocava no branco uma reação que levasse a uma política deliberada de extermínio, como a que ocorria no México e Peru.
A reação dos índios ao domínio do colonizador era quase contemplativa. O português usava o homem para o trabalho e a guerra, principalmente na conquista de novos territórios, e a mulher para a geração e formação da família. Esse contato provocava o desequilíbrio das relações do índio com o seu meio ambiente.
"A grande presença índia no Brasil não foi a do macho, foi a da fêmea. Esta foi uma presença decisiva, a mulher índia tomou-se de amores pelo português, talvez até por motivos fisiológicos, porque, segundo pude apurar quando escrevi Casa Grande & Senzala, as sociedades ameríndias ou índias, inclusive a brasileira, eram sociedades que precisavam de festivais como que orgiásticos para provocar nos homens, nos machos, desejos sexuais. O que há de acentuar é o grande papel da índia fêmea na formação brasileira, essa índia fêmea não só através do relacionamento mencionado sexual, mas através do papel social que ela começou a desempenhar magnificamente, tornou-se uma figura capital na formação brasileira."
A união do português com a índia havia gerado os mamelucos que atuavam como bandeirantes e, junto com os índios, formavam a muralha movediça da fronteira colonial. O mameluco e o índio, que excediam o português em mobilidade, atrevimento e ardor guerreiro; que defendiam o patrimônio do senhor de engenho contra o ataque de piratas estrangeiros, nunca firmaram as mãos na enxada. Os pés de nômades não se fixavam na plantação da cana-de-açúcar.
Dos costumes dos primitivos habitantes da terra eram as relações sexuais e de família, a magia e a mítica que marcavam a vida do colonizador. A poligamia e a sexualidade da índia iam ao encontro da voracidade do português, ainda que a vida sexual dos indígenas não se processasse tão à solta quanto o relatado pelos viajantes que aqui estiveram. Para as tribos mais primitivas, a união do macho com a fêmea tinha época; o costume de oferecer mulheres aos hóspedes era prática de hospitalidade, quase um ritual. A mulher nativa resgatava o sonho da ninfa, que se banhava no rio e penteava os longos cabelos negros. Uma imagem deixada pela invasão moura na Península Ibérica e adormecida no inconsciente do português.
Os portugueses davam uma contribuição criativa ao novo mundo através da produção de açúcar. E implantavam um sistema econômico que aprenderam com os mouros durante a ocupação da Península Ibérica. Os mouros, de grande tradição agrícola, introduziram a laranjeira, o limoeiro e a tangerina e implantaram a tecnologia do fabrico do açúcar em Portugal. O engenho mouro é avô do engenho pernambucano. Essa contribuição criativa é que diferenciava o português do holandês e do francês, que para cá traziam apenas aperfeiçoamentos tecnocráticos.
O choque das duas culturas, a européia e a ameríndia, no Brasil colônia, se dava mais lentamente, tanto a Igreja quanto o senhor de engenho fracassavam nos esforços de enquadrar o índio no sistema de colonização que iria criar a economia brasileira. Fora de seu hábitat natural, o índio não se adaptava como escravo: morria de infecções, fome e tristeza. Para suprir a deficiência da mão-de-obra escrava, os senhores de engenho de Pernambuco e do Recôncavo baiano começavam a importar negros caçados na África.
Agora, as escravas negras substituíam as cunhãs tanto na cozinha como na cama do senhor. Na agricultura, a presença do negro elevava a produção de açúcar e o preço do produto no mercado internacional. O Brasil, esquecido por quase duzentos anos, despertava finalmente o interesse do Reino de Portugal. Entre os africanos que vinham para o Brasil, eram os negros muçulmanos, de cultura superior não só à dos índios como também à da maioria de colonos brancos, que aqui chegavam e viviam quase sem nenhuma instrução, que para escrever uma carta necessitava da ajuda do padre-mestre.
O movimento malê da Bahia, em 1835, foi considerado um desabafo da cultura adiantada, que era oprimida por outra menos nobre. Contava-se que os revoltosos sabiam ler e escrever em alfabeto desconhecido. Eram negros que liam e escreviam em árabe. "Pode-se juntar à superioridade técnica e de cultura dos negros sua predisposição como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto pelo sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical."
O Brasil importava da África não somente o animal de tração que fecundou os canaviais, mas também técnicos para as minas, donas de casa para os colonos, criadores de gado e comerciantes de panos e sabão.Os negros vindos das áreas de cultura africana mais adiantada eram um elemento ativo, criador e pode-se dizer nobre na colonização do Brasil, degradados apenas pela condição de escravos. O negro escravo e a cana-de-açúcar fundamentavam a colonização aristocrática e a estrutura básica do mundo dos coronéis se repetiria nos ciclos do ouro e do café, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com o mesmo fundamento: a ocupação da terra.
Na sociedade escravocrata e latifundiária que se formava, os valores culturais e sociais se misturavam à revelia de brancos e negros. Sua convivência diária favorecia o intercâmbio de culturas e gerava sadismos e vícios, que influenciavam a formação do caráter do brasileiro. A escravatura degradava senhores e escravos.
A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. Além dos trabalhos forçados, ele era usado como reprodutor de escravos: era preciso aumentar o rebanho humano do senhor de engenho. As crias nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja, esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado ao negro. A mulher escrava fazia a ponte entre a senzala e o interior da casa-grande e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelo sinhô para serem concubinas e domésticas.
Objeto dos desejos sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados. Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas que normalmente estariam destinadas à mãe de família. As damas da sociedade se casavam entre os doze e os quinze anos com homens muito mais velhos. Cedo se casavam e cedo morriam por causa de sucessivos partos ou se tornavam matronas aos dezoito anos. O ócio e a vida reclusa faziam das sinhás mulheres amarguradas. E ignorantes: era raro encontrar uma que soubesse ler e escrever. "Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas.
O Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado. A contaminação da sífilis em massa ocorreria nas senzalas, mas não que o negro já viesse contaminado. Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram as negras das senzalas. Por muito tempo dominou no Brasil a crença de que para um sifilítico não há melhor depurativo que uma negrinha virgem."
Os senhores de engenho casavam-se sucessivas vezes, sempre preferindo as jovens sobrinhas; exagerava-se, então, o sentimento da propriedade privada. As heranças eram disputadas por filhos legítimos e parentes próximos. Aos filhos bastardos, gerados nas casa-grande e paridos na senzala, restava a tolerância do senhor, que ao morrer os libertava. Nomes e sobrenomes se confundiam: os escravos mais próximos, que ganhavam a simpatia do senhor, conseguiam adotar o sobrenome dos brancos. Na tentativa de ascensão social, os negros imitavam dos senhores as formas exteriores de superioridade. Mas muitos nomes ilustres de senhores brancos vinham dos apelidos indígenas e africanos das propriedades rurais - a terra recriava os nomes dos proprietários à sua imagem e semelhança.
A música, o canto e a dança dos escravos tornavam a casa-grande mais alegre. A risada do negro quebrava a melancolia e o silêncio infinito do senhor de engenho. As mães negras e as mucamas, aliadas aos meninos, às moças das casas-grandes e aos moleques, corrompiam o português arcaico ensinado pelos jesuítas aos filhos do senhor. A nova fala brasileira não se conservava fechada nas salas de aula das casas-grandes, nem se entregava de todo à maior espontaneidade de expressão da senzala. Mas o modo carinhoso do brasileiro colocar os pronomes: me diga, me espere... vem do africano. Também do seu modo de falar ficaram as formas diminutivas: benzinho, nézinho, inhozinho.
A culinária da senzala aproveitava as sobras de carnes da casa-grande, usava o aipim indígena e as verduras, misturava aos temperos africanos, principalmente o dendê e a pimenta malagueta. Surgiam a feijoada, a farofa, o quibebe, o vatapá. Alimentos que combinavam com a dureza do trabalho no cativeiro. As crenças e magias trazidas pelos portugueses eram transformadas em feitiçaria nas mãos dos africanos. Aos negros feiticeiros recorriam os senhores brancos idosos a procura de afrodisíacos; as jovens sinhás, que não conseguiam engravidar; e as belas mucamas, que aprendiam a receita do café mandingueiro, um filtro amoroso feito com café bem forte, muito açúcar e sangue de mulata.
Na religião conviviam a cultura do senhor e a do negro. O catolicismo praticado aqui era uma religião doce, doméstica, de intimidade com os santos. Os padres se vangloriavam de conceder aos negros certas vantagens, como o direito de manifestar suas tradições nas festas do terreiro. Nasciam então as religiões afro-brasileiras: São Jorge é o orixá Ogum e Nossa Senhora é Iemanjá.
Os negros, muitos agora, libertos pela alforria, pela revolta ou pelas fugas, unidos nos quilombos, lutavam pelo fim da escravidão. Aliavam-se aos ideais libertários os filhos de poderosos senhores de engenho que se tornavam abolicionistas por motivos econômicos, humanitários ou, simplesmente, pelo apego que tinham às suas mães de leite.
Em 1984, numa de suas últimas entrevistas, o escritor Gilberto Freyre resumia o seu pensamento sobre a situação presente do negro, lembrando o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco: Com a abolição, os problemas do negro estariam apenas começando. Mas quem se interessou por isso? Ninguém se interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar as periferias das cidades. Abandonado, constituiu-se num sub-brasileiro.
Gilberto Freire é a paixão de Darcy Ribeiro. Mas tem muita gente da esquerda que o acha reacionário e chato. Intragável. Assim como é fácil se apaixonar pela obra-prima de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala. Um livro de décadas atrás. Exemplar, genial, pelo texto, pelo estilo. Um livro erótico como poucos de nosso Brasil. Não é sociologia chata. Uma espécie de filme. Uma literatura de paixão pela mulher negra. O sensualismo do século 19. Quem descobriu que Casa Grande e Senzala era um poeta foi Otto Maria Carpeaux. E quem ficou apaixonado por este livro foi Roberto Rosselini, o gênio do neo-realismo italiano. Queria filmar Casa Grande e Senzala. Ficou amigo de Gilberto Freyre. Bebeu o famoso conhaque de pitanga. Fórmula secreta.
O sensualismo é o que define a formação da raça brasileira de uma nação engendrada na alcova. E aquilo, que antropologicamente, cientificamente interessa, o encanto era o estético, o erótico e o sensual. A mestiça de sangue negro e branco, sangue negro e índio, é uma mulher que não anda como as outras, ela anda dançando sempre por instinto de andar assim. O europeu de certa época desprezava esta figura na sua beleza, nas suas qualidades, na sua inteligência. E um dos afãs do autor de Casa Grande e Senzala é essa reabilitação de um tipo étnico desvalorizado injustamente. E um afã um tanto patrioticamente brasileiro, dada a grande presença do negro na população do Brasil. Não só da negra, como do negro. o verdadeiro brasileiro integrado com o clima tropical foi o negro.
O Brasil colonial era profundamente erótico. O Brasil criou, tipos antagônicos de mulher, aristocrática, a da expressão da casa grande e sua rival, a expressão da senzala. A que vinha da senzala pelo seu próprio mérito físico, sensual, sexual, em competição com a outra, que tinha outros méritos, tinha requintes europeus, tinha requintes de perfumes vindos da Europa, de modas vindas da Europa. A mucama, quando conquistava o senhor branco, ela o conquistava quase somente pelo seu encanto físico, biológico, pelo seu próprio cheiro de suor.
A idéia de Casa Grande e Senzala surgiu em mim no exílio. Eu era secretário particular, mas inteiramente particular, sem ser eleitor, sem me interessar em partidos, sem ter qualquer ideologia política, de um antigo vice-presidente da República, quase presidente da República, quase presidente, que foi Estácio Coimbra.
Ele foi um derrotado político em 30 - e muito visado, porque era acusado de ser responsável pelo assassinato de João Pessoa, na Paraíba. Ele teve de deixar o governo, depois de muitas peripécias, o Recife caiu na mão dos revoltosos. Estácio Coimbra estava no Sul de Pernambuco esperando auxílio militar do Sul. Nada de chegar. Decidiu, então, fugiu para a Bahia. E fomos, mas no caminho, fomos interceptados por um navio de guerra brasileiro que manda a nossa embarcação parar para ter um entendimento.
O Estácio Coimbra me designa para ir ter esse entendimento e o vice-almirante, que vinha nesse cruzador, me disse. "Avise ao governador Estácio Combra que ele quanto antes siga para a Europa, pois a vida dele está em perigo. Eu sou legalista, mas a Marinha não vai poder fazer coisa alguma. Quem está dominando é o Exército, que está inteiramente revoltoso. Vai destronar o Washington Luís em poucos dias". E, assim, da Bahia seguimos para a Europa em um cargueiro, ou um semicargueiro, um navio misto, francês, que ia primeiro à África e depois a Lisboa.
Eu fui, devo dizer, com as roupas com que estava, sem dinheiro nenhum. Estácio Coimbra era um homem de certa riqueza, mas o dinheiro dele já estava bloqueado. O cargueiro francês em que íamos parou na África, para tomar uma grande carga, me lembro bem, de amendoim, que demorou três dias. Nessa parada eu disse: que vou fazer aqui? Era perto de Dakar, Senegal. O Senegal ainda nominalmente francês, mas inteiramente tribal. Eu vi que, saindo de Dakar, entrava-se numa África selvagem, de tribos, gente nua... Algumas negras muito bonitas, até estive notando. E penso: daqui foi muita gente para o Brasil. Estou vendo aqui parentes daqueles negros que conheço no Brasil. E comecei a tomar várias notas.
Aquilo já era Casa Grande e Senzala sem eu me aperceber. Era um assunto tomando conta de mim, sem eu estar à procura do assunto. Tomei notas e notas... e fomos para Lisboa, residir numa água-furtada a coisa era bastante crua do ponto de vista do clima. Ali ficamos, fazendo o possível para que nossos conhecidos em Lisboa não soubessem que estávamos em situação tão precária. Passei fome em Lisboa, onde tinha muitas amizades ilustres, com gente da nobreza me convidando para ir a chás e recepções. Passei fome indo a jantares com duquesas e condessas.
Mas o que eu quero dizer é que o meu interesse pela presença da África no Brasil acentuou-se em Lisboa, onde até para me defender do frio eu me refugiava na biblioteca e no arquivo, tomando notas, e no museu etnológico. Mas uma honra enorme e uma honra que vinha com um talão de cheques... De repente, eu, que era obrigado a lavar minhas próprias roupas, estava num transatlântico, a caminho de Nova York. .. E, daí, para a Califórnia. Em Stanford havia uma grande coleção de livros brasileiros, de um antigo reitor, um geólogo que na mocidade fizera estudos de geologia no Brasil. Dei meus cursos para ótimos estudantes e comecei a escrever o que seria Casa Grande e Senzala. Com essa documentação magnífica que estava lá como que à minha espera.
Do que eu tinha visto na África e do que eu tinha aprendido em Lisboa, era evidente que a formação brasileira se tinha dado entre a casa-grande e a senzala. Veio a idéia de que não era o rei de Portugal, que não era a Igreja Católica, que não era nenhum poder que tinha feito o Brasil, mas a família patriarcal. Eu consegui acumular uma tal riqueza de documentação desse ponto de vista... Estava tão inspirado... que eu pensava que tinha um anjo-da-guarda me guiando. Assim nasceu um livro chamado Casa Grande e Senzala.
Darcy Ribeiro
Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro.
Meu livro mostra por que caminhos e como nós viemos, criando aquilo que eu chamo de Nova Roma. Roma com boa justificação... Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença. Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical. Com as vantagens imensas de um mundo enorme que não tem inverno e onde tudo é verde e lindo, e a vida é muito mais bela... E é uma gente que acompanha esse ambiente com uma alegria de viver que não se vê em outra parte. Esse país tropical, mestiço, orgulhoso de sua mestiçagem... Isso é que me levou muito tempo. Entender como isso se fez... Havia muita bibliografia sobre aspectos particulares, mas não uma visão de conjunto.
Deixa eu contar pra vocês como é que isso se fez? Os iberos se lançaram à aventura no além-mar... desembarcavam sempre desabusados, atentos aos mundos novos, querendo fruí-los, recriá-los, convertê-los e mesclar-se racialmente com eles... "
No Brasil a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se fez desde o primeiro dia... Eu prometi contar como. Imagine a seguinte situação: uns mil índios colocados na praia e chamando outros: "venham ver, venham ver, tem um trem nunca visto"... E achavam que viam barcas de Deus, aqueles navios enormes com as velas enfurnadas... "O que é aquilo que vem?" Eles olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar...
Mas os portugueses e outros europeus feiosos assim traziam uma coisa encantadora: traziam faquinhas, facões, machados, espelhos, miçangas, mas sobretudo ferramentas. Para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la.
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Crianças indígenas: junto à natureza. Ao longo da costa brasileira se defrontaram duas visões de mundo completamente opostas: a selvageria e a civilização. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Aos olhos dos europeus os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção do "pecado". Mas com um grande defeito: eram "vadios", não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Com a descoberta de que as matas estavam cheias de pau-brasil, o interesse mudou... Era preciso mão-de-obra para retirar a madeira.
Onde tinha algum europeu instalado na costa em contato com as naus, e portanto capaz de fornecer mercadoria, cada aldeia, e eram milhares de aldeias, levava uma moça pra casar com ele. Se ele transasse com a moça, então ele se tornava cunhado. Ele passou a ter sogro, sogra, genros... ele passou a ser parente. Então o sabido do português, do europeu, conseguia desse modo pôr milhares de índios a serviço dele, pra derrubar pau-brasil...
A porta de entrada do branco na cultura indígena foi o "cunhadismo". Através desse costume foi possível a formação do povo brasileiro. E da união das índias com os europeus nasceu uma gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil.
No ventre das mulheres indígenas começavam a surgir seres que não eram indígenas, meninas prenhadas pelos homens brancos – e meninos que sabiam que não eram índios... que não eram europeus. O europeu não aceitava como igual. O que era ? Era uma gente "ninguém ", era uma gente vazia. O que significavam eles do ponto de vista étnico ? Eles seriam a matéria com a qual se faria no futuro os brasileiros...
Um dos primeiros núcleos povoadores surgiu em São Paulo, chefiado pelo português João Ramalho. Há quem afirme que ele tenha chegado ao planalto paulista antes mesmo da chegada de Cabral. Os poucos registros da época supõem que ele teve mais de trinta mulheres índias e quase oitenta filhos mestiços. Um escândalo comentado numa carta do padre Manoel da Nóbrega de 1553! "É principal estorvo para com a gentilidade que temos, por ser ele muito conhecido e aparentado com os índios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irmãs e têm filhos delas... suas festas são de índios e assim vivem andando nus como os mesmos índios... "
O povoamento se fez a partir do litoral. Na Bahia, em Pernambuco, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, em toda a costa os europeus geraram uma legião de mestiços. Homens e mulheres chamados de mamelucos pelos jesuítas espanhóis, por acusa do aspecto rústico e da violência com que capturavam e escravizavam os indígenas, de quem descendiam.
"A expansão do domínio português terra adentro, na constituição do Brasil, é obra dos mamelucos... O mameluco abriu seu mundo vasto andando descalço, em fila, por trilhas e estreitos sendeiros, carregando cargas no próprio ombro e no de índios e índias cativas..." Esses filhos das índias aprendem o nome das árvores, o nome dos bichos, dão nome a cada rio... Eles aprenderam, dominaram parcialmente uma sabedoria copiosa, que os índios tinham composto em dez mil anos. Em dez mil anos os índios aprenderam a viver na floresta tropical, identificaram 64 tipos de árvores frutíferas, domesticaram muitas plantas, essas que a gente usa: mandioca, milho, amendoim.... quarenta e tantas que nós demos ao mundo...
A mandioca faz parte do cardápio do brasileiro. Ela é cultivada e preparada em todo o país do mesmo modo que os indígenas ensinaram no começo da colonização. É uma planta preciosa porque não precisa ser colhida nem estocada. Mantém-se viva na terra por meses. Nas comunidades caiçaras, isoladas dos centros urbanos, é possível reviver um pouco da atmosfera do Brasil dos primeiros tempos. Os ancestrais dessa gente provavelmente descendem dos primeiros mestiços que habitaram o litoral. A canoa, feita a partir do tronco de árvore, se parece com as usadas pelos índios. Ela é o único meio de transporte e garante a sobrevivência. Em alguns lugares o recuo na história é ainda maior. Quinhentos anos após a chegada dos portugueses, é possível encontrar indígenas vivendo no litoral, próximo do Rio de Janeiro. São guaranis, um povo nômade, de origem tupi, que hoje habita a Serra do Mar. Eles conseguiram resistir ao processo de extermínio de sua gente e à ocupação de suas terras. Mesmo depois de séculos de contato eles conseguiram preservar boa parte de sua origem e cultura.
"Antigamente a terra era do índio guarani... Guarani passava com fruta do mato. A mistura era palmito. Hoje nós estamos que nem branco. Os brancos terminaram com a natureza. Nosso trabalho a maioria é de lavoura; comemos numa panela só. A gente sente o guarani como puro brasileiro, porque muitos brancos dizem: 'esses bugres aí, índio não vale nada'. Não é isso não. O puro guarani é o brasileiro puro... Cacique Miguel. "Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani.... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo.
Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP. Há duas contribuições fundamentais nesse encontro: uma mestiçagem do corpo e uma mestiçagem da cultura. Em nós vivem milhões de índios, índios que foram esmagados porque a brutalidade do branco com o índio foi terrível. Esmagados porque o europeu tinha muita doença. Os índios não tinham cárie dentária, nem gripe, nem tuberculose... Cada enfermidade dessas era uma espécie de guerra biológica, matou índios em quantidade...
Estima-se em cinco milhões o número de indígenas que habitavam as terras brasileiras na ocasião da chegada dos portugueses. Dois séculos depois, eles não chegavam a dois milhões. Hoje, os sobreviventes somam duzentos e setenta mil habitantes, menos de meio por cento da população brasileira
Em cinco séculos desapareceram para sempre cerca de oitocentas etnias. Eram povos de diferentes culturas, que ocupavam vastos territórios de características geográficas distintas. Mas esses índios que morriam sobreviviam naqueles mestiços que nasciam. Somos nós que carregamos no peito esses índios, os genes deles para reprodução e a sabedoria deles da mata. O Brasil só é explicável assim, é uma coisa diferente do mundo...
A população paulista dos primeiros tempos vivia numa economia de subsistência. Não podia contar com a riqueza gerada pela exportação de açúcar. O regime de trabalho, voltado para o sustento, e não para o comércio, era quase o mesmo da aldeia tribal. A base da agricultura era indígena, enriquecida pela contribuição dos europeus, que trouxeram os animais domésticos. As casas passaram a ser de taipa, cobertas por telhas. E equipamentos como o monjolo vieram para ficar. Até hoje facilitam o trabalho de beneficiar o milho. "A importância dele é que a gente, por exemplo, planta, depois colhe, depois leva para lá para ceifar farinha pra gente gastar. A gente cria galinha pra gastar... Dá um pouco pra criação, pro gado, pro porco..." Era uma sociedade que, por ser mais pobre, era também mais igualitária.
A miscigenação era livre, porque quase não havia entre eles quem não fosse mestiço. Até meados do século XVIII essa gente falava uma língua aprendida com os índios, o " nheengatu " . Um jeito de falar tupi com boca de português, inventado pelos padres jesuítas. Em suas andanças, os paulistas foram aumentando o tamanho do Brasil. Na esperança de encontrar minérios, eles buscavam no fundo das matas a única mercadoria que estava ao seu alcance: os indígenas. As bandeiras partiam de São Paulo levando mais de duas mil pessoas. Eram homens e mulheres, famílias inteiras de mestiços que iam fazendo roça de milho e feijão pelo caminho, fundando vilarejos, caçando e pescando pra comer. Eles ignoraram as fronteiras portuguesas para aprisionar os habitantes da terra e depois vendê-los como escravos aos engenhos do nordeste. E não pouparam sequer os índios convertidos à fé católica que habitavam as missões jesuíticas do sul do país e do Paraguai. O modelo jesuítico procurava assegurar a eles uma existência própria dentro das Missões, ao contrário dos colonos, que tratavam o indígena como mão-de-obra escrava.
Desde o princípio houve um partido de jesuítas que tinha uma utopia para os índios. Era fazer dos índios pios seráficos, religiosos, gente tão boa que era a melhor gente do mundo. Eles achavam que era a maneira de fazer o Paraíso na Terra. A religião pegou mesmo foi com as filhas das índias e das negras, as mestiças, que, não podendo satisfazer-se com a religião dos índios e dos negros, aceitavam e gostavam das novenas, das ladainhas, das missas, das procissões... E assim surgiu esse catolicismo santeiro e festeiro, que foi um belo catolicismo do Brasil até pouco tempo.
Minas foi o nó que atou o Brasil e fez dele uma coisa só. No final do século XVII, a descoberta de ouro pelos paulistas nas terras do interior mudou os rumos do Brasil Colônia. Em menos de dez anos, chegaram à região das Minas mais de 30 mil pessoas, vindas de todo o país. Eram paulistas, baianos, senhores de engenho falidos e, principalmente, escravos.
No começo da exploração muitos morriam de fome com o ouro nas mãos, já que não havia o que comer. Os tropeiros garantiam a sobrevivência vendendo comida e panos de algodão. Atraídos pelo ouro, muitos deles acabaram se fixando no cruzamento das rotas de comércio e estabeleceram as primeiras povoações. Desse modo abriram caminho para a ocupação do interior do país. "No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos daqui mesmo."Setenta anos depois, a capitania de Minas Gerais já era a área mais populosa da América, com trezentos mil habitantes. Eram pessoas que vinham fazer fortuna, como os garimpeiros que ainda hoje trabalham na região das Minas.
A descoberta do ouro mudou totalmente a vida da colônia. A mineração desbancou a indústria açucareira, que era então a principal atividade econômica. A sociedade estava estruturada nos moldes da fazenda – da casa-grande e da senzala - vivendo ao redor do senhor de engenho. O país prosperava graças ao trabalho escravo de três milhões de negros. O açúcar, no entanto, começava a sofrer concorrência das Antilhas. A grande contribuição da cultura portuguesa aqui foi fazer o engenho de açúcar... movido por mão-de-obra escrava.
Por isso, começaram a trazer milhões de escravos da África. O negócio maior do mercado mundial era a venda de açúcar para adoçar a boca do europeu e depois a remessa de ouro. Mas a despesa maior era comprar escravos. Os europeus sacanas iam à África e faziam grandes expedições de caça de negros que viviam ali uma vida como a dos índios aqui, com sua cultura, com sua língua, com seu modo... Metade morria na travessia, na brutalidade da chegada, de tristeza, mas milhões deles incorporaram-se ao Brasil.
E esses negros não podiam falar um com o outro, veja esse desafio como é tremendo. Eles vinham de povos diferentes. Então, o único modo de um negro falar com o outro era aprender a língua do capataz, que nunca quis ensinar português. Milagrosamente, genialmente esses negros aprenderam a falar português. Quem difundiu o português foi o negro, que se concentrou na área da costa de produção do açúcar e na área do ouro... Mas preste atenção: com os negros escravos vinham as molecas de 12 anos, bonitinhas. Uma moleca daquelas custava o preço de dois ou três escravos de trabalho. E os donos de escravos queriam muito comprar, e os capatazes também. Comprar uma moleca pra sacanagem. Mas essas molecas pariam filhos, e quem era o filho? Era como o filho da índia. Ele não era africano, visivelmente. Ele não era índio. Quem era ele ? Ele também era um "zé ninguém" procurando saber o que era. Ele só encontraria uma identidade no dia em que se definisse o que é o brasileiro.
Nestas terras, ricas em ouro e diamante, muitos escravos conseguiram comprar a liberdade e enriquecer. Assim surgiu uma classe intermediária formada de mulatos e negros libertos, que conseguiram melhorar de vida e se dedicar às atividades de ourives, carpinteiros, ferreiros e artistas. Ouro Preto viu florescer a mais alta expressão da civilização brasileira.
Na música, na poesia e na arquitetura o mineiro deixou sua marca. Entre eles um brasileiro, mulato de grande talento, que traduziu na pedra tosca a sofisticação do barroco europeu: Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A riqueza com que as igrejas foram construídas no período do ouro deixa transparecer a importância da religião católica na vida da colônia. Todos iam à missa: brancos, negros libertos, mulatos e escravos. Mas cada um freqüentava sua própria igreja, decorada a seu modo. Nos detalhes da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o catolicismo é temperado com os símbolos religiosos africanos. A mineração de ouro e diamante alterou profundamente o aspecto rural e desarticulado do país.
Até então, os brasileiros viviam isolados uns dos outros devido às grandes distâncias. Mas a rede de intercâmbio comercial que começava a se formar entre as capitanias daria uma bela base econômica à unidade nacional. O sertão nordestino, que vivia da criação de gado, fornecia a carne e o couro. A sede do governo foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, devido à proximidade das Minas. E o Rio Grande do Sul acabou sendo incorporado ao país através do comércio de mulas.
Esse país tomou conta de si pela primeira vez num movimento fantástico – a Inconfidência Mineira... O movimento idealizado por uma elite intelectual previa uma nova organização da sociedade. Entre os planos dos inconfidentes estavam a criação de universidades, a instalação de indústrias e a libertação dos escravos. A inspiração maior vinha dos ideais da Revolução Francesa e de um novo país da América do Norte, os Estados Unidos. Uma denúncia acabou levando à forca um dos líderes do movimento: o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que foi esse herói nacional fantástico, um homem sábio, engenheiro que fez o serviço de águas do Rio de Janeiro, que fez o planejamento dos portos do Rio... e que conspirou na Europa, em Portugal e conspirou com os norte-americanos também.
Era um intelectual que lia, conhecia a constituição americana e queria fazer uma república. Era respeitado pelos magistrados, pelos coronéis militares, pelos poetas, por aquele grupo atípico de Minas que quis criar uma República Brasileira, criar um Brasil e criar brasileiros, dando dignidade. Mas os portugueses abafaram isto tão bem que continuou soterrada a idéia de liberdade e de autonomia do Brasil... Trinta anos depois da rebelião dos inconfidentes, o Brasil se tornava império autônomo.
Mas levaria quase cem anos para extinguir o trabalho escravo em seu território. Durante trezentos anos o país usou cerca de doze milhões de negros como principal força de trabalho em seu processo de formação. Trazidos do Sudão, da Costa do Marfim, da Nigéria, de Angola e de Moçambique, essa gente marcaria com sua cor e com sua força a fisionomia e a cultura brasileiras. E, ao final do período colonial, era uma das maiores populações do mundo moderno.
"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária ".
São Paulo. A terceira cidade do mundo. Uma megalópole com doze milhões de habitantes. Esta cidade, fundada em 1554 é hoje o espelho do Brasil. Olhando com atenção seus bairros e sua gente é possível perceber todas as contradições do país. O Brasil rico, moderno, que chega às vésperas do século XXI como a oitava economia do planeta. Mas também o Brasil que não acompanhou o progresso. O país que ainda luta por melhores condições de vida. As grandes capitais são o retrato do crescimento desordenado das cidades brasileiras no século XX.
Para se ter uma idéia, entre 1920 e 1960 a população urbana cresceu dez vezes. Hoje quase 70% dos brasileiros moram em cidades. As maiores transformações foram sentidas nos centros urbanos, mas elas são reflexos do que ocorreu no campo. Em toda a história brasileira, as mudanças de regime pouco afetaram a ordem social.
Durante o período colonial e depois no Império e na República, o poder na zona rural sempre foi baseado no monopólio da terra e na monocultura. Aqui nenhuma terra foi reservada para o povo que ia formando o Brasil. Nos Estados Unidos as pessoas iam para o Oeste (o que corresponderia no Brasil a Goiás, Mato Grosso). Elas iam porque sabiam que se construíssem uma casa, fizessem uma roça ganhavam o direito de demarcar uma fazenda de 30 hectares. Aqui isto nunca deu certo porque um pequeno grupo monopolizou a terra, obrigou o povo a sair das fazendas. Eles não dividiam e sim expulsavam. Não é que eles usem a terra. Eles não usam dez por cento da terra que existe, mas expulsaram. E essa gente que foi expulsa vem viver uma vida miserável na cidade. Em 1850 as regras de acesso à propriedade rural mudaram. A simples ocupação e cultivo já não bastavam para garantir a posse. O registro obrigatório acaba expulsando da terra os menos favorecidos.
Na periferia de São Paulo vive gente entregue a uma pobreza total. É de se perguntar: como tão poucos latifundiários fizeram a infelicidade de tantos brasileiros que estão em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Recife, na Bahia, por toda parte?
Nenhum município estava em condições de absorver o êxodo rural num ritmo tão intenso, mas nem sempre foi assim. O país cresceu e se desenvolveu a partir de uma economia de base agrícola, voltada para abastecer o mercado europeu. A maioria da população concentrava-se na zona rural. As cidade e vilas funcionavam como entrepostos comerciais, onde o povo vivia da prestação de serviços aos fazendeiros. Somente nas regiões mineradoras é que se implantou uma rede urbana independente da produção agrícola. Recife enriqueceu com os holandeses e com o açúcar. Na Amazônia, Belém e Manaus se desenvolveriam como portos de exportação dos recursos naturais extraídos da floresta. O Rio de Janeiro cresceu como porto de escoamento do ouro.
A partir de 1808 tornou-se o principal núcleo urbano do país, com o desembarque do rei de Portugal D. João VI e de sua corte. Muito sabido esse D. João VI. Descrevem-no como um bestão que andava numa carroça, comendo frango com as mãos e jogando os ossos para o lado... Ele é descrito popularmente como uma besta, mas não tem nada de besta. Enquanto os reis de Espanha ficavam querendo pedir perdão a Napoleão para continuar mandando, ele viu que o bom era o Brasil, não era Portugal. Ele largou aquela velharia e veio para cá, abriu os portos e começou a organizar o país. Trouxe 18 mil pessoas. Essa trasladação trouxe pra cá toda uma classe dominante já feita, muitos deles com cursos universitários em Coimbra. É essa gente que organiza o país.
A luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi – e ainda é – a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional." O Brasil só se tornou uma nação com a abolição da escravatura, que concedeu aos negros, ao menos no papel, a igualdade civil. Emancipados mas sem a terra que cultivaram por quase quatro séculos, os ex-escravos abandonaram as fazendas e logo descobriram que não podiam ficar em nenhum lugar. A terra tinha dono. Saindo de uma fazenda caíam em outra, de onde eram, também, fatalmente expulsos. Houve quem tivesse melhor sorte. É o caso de uma comunidade negra situada no litoral fluminense. Ali, todos descendem da mesma família. São netos, bisnetos, trinetos e tataranetos de três mulheres escravas – como o Sr. Valentim.
Ele nasceu na comunidade e casou-se com D. Madalena, com quem teve nove filhos, que também moram nas redondezas. Nos dias de festa todos aparecem para dar um abraço no patriarca da família. Hoje estas terras se valorizaram e a família, ameaçada de perder tudo, tenta provar que tem direito de permanecer onde nasceu. "Eu sempre falo isso: que se desse um lote aqui, de graça, para uma pessoa que morava na cidade, ela não aceitaria porque é um lugar difícil. Como é que o cara que nunca fez uma horta no lugar, nunca plantou sequer um pé de flor vai colocar três juizes porque ele é dono daquela terra? A escritura é muito fácil fazer... Essa terra é terra hereditária, terra que vem de lá de trás do tempo da escravidão."Depoimento do Sr. Valentim.
"Eu vim pra cá com dezessete anos. O povo era muito bom. Um pessoal escuro, mas eu senti em mim a mais negra, por causa da maneira que me acolheram. A minha parte da família não queria mas a parte dele fazia muito gosto. Eu acabei casando com ele e graças a Deus tenho fé em Deus de levar nossa vida pra frente. Deus é que abraça o mundo, tudo é filho dele, não tem gordo, nem magro, não tem cor, não tem raça. Tudo é dele, né?"Depoimento de d. Madalena.
A maior parte dos escravos concentrou-se na periferia das cidades, nos bairros africanos. Ali eles criaram uma cultura própria, feita de retalhos do que o povo africano guardou nos longos anos da escravidão. O negro guardou sobretudo sua espiritualidade, sua religiosidade, seu sentido musical. É nessas áreas que ele dá grandes contribuições e ajuda o brasileiro a ser um povo singular. Quando chegam na cidade são capazes de fazer coisas, por exemplo, a cultura do Rio de Janeiro, a beleza do Carnaval carioca, que é uma criação negra, a maior festa da Terra!
A beleza de Iemanjá, uma mãe de Deus que faz o amor. Você não vai lá pedir que o marido não bata tanto, que não seja tão filho daquilo, vai pedir um amante gostoso. Isso é uma coisa fantástica! Um povo que é capaz de inventar uma coisa destas! Nunca houve depois da Grécia! Isso são os nossos negros, os nossos mulatos desse país.
"O jongo é tradição muito antiga, e naquele tempo, logo que a princesa Isabel libertou os escravos, o preto fundou o jongo. Naquele tempo os brancos freqüentavam, mas os negros não gostavam muito. Gostavam dos pretos, dos morenos, morenos bem pardos, bem tostados, né... Hoje é diferente. Hoje tudo dança, dança preto, dança branco, dança moreno, dança qualquer um. Mas naquele tempo não era assim não, segundo a escola que tive do meu pai, que foi da escravidão, né? Então, tem um ponto de jongo que eu canto pro jongueiro e pergunto pra ele: o que é o jongo? E o jongueiro não sabe responder o que é jongo. Agora, pro jongueiro tirar mesmo o ponto, para dizer tirei o ponto, ele precisa responder pra mim, na cantoria, na hora do jongo: " jongo pra quem sabe, é jongo, pra quem não sabe, não é nada ". É isso ...""Eu canto o canto porque eu sei cantar. Não quero que a saudade venha me matar...Enquanto a abóbora amadurece, eu como a cambuquira... "
No final do século XIX, a crise de desemprego que ocorreu na Europa trouxe para o Brasil sete milhões de imigrantes. Eles vinham para trabalhar nas plantações de café, o principal produto de exportação da época. Acabaram ocupando o lugar dos mestiços e escravos libertos, como mão-de-obra assalariada.
Os europeus se fixaram principalmente em São Paulo e no sul do país, onde renovaram a vida local e promoveram o primeiro surto de industrialização do país. Esse país já feito num certo momento recebe uma invasão branca... Veja a diferença.
Os que foram para a Argentina caíram em cima do povo argentino, paraguaio e uruguaio que haviam feito seus países, que eram oitocentos mil, e disso saiu um povo europeizado. Aqui não, essa quantidade de gringos caiu em cima de quatorze milhões de brasileiros. Então foram absorvidos por nós. Encontraram um país feito, com um século de história, com cidades importantes. Deram, é claro, uma grande contribuição e continuam dando, mas muitos deles não conhecem nada e acham que deram o automóvel.
Essa influência das matrizes índias, negras e européias foi descrita algumas vezes como uma democracia racial. Aqui não há nenhuma democracia racial. Aqui é muito duro ser negro, o preconceito nosso é por natureza diferente do preconceito americano. Aqui há um conceito curioso de branquização, o negro quando vai ficando claro, a mestiçagem facilita isso sobretudo quando vai ficando rico, fica branco. Esse preconceito de branquização é um conceito bonito, não é democracia racial. É branquização, é uma possibilidade até preconceituosa de que o negro é aceito como alguém que vai deixar de ser negro, que vai transar com todas as brancas que vão clarear os filhos deles. É um preconceito, de certa forma, melhor do que um apartheid, que quer que o negro fique longe, fique distante para respeitá-lo lá longe, mas não quer proximidade com ele. Nós queremos é confluir, misturar. Isso é bom, mas não pode ser chamado de democracia racial. "A distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres aos ricos. A ela se soma a discriminação que pesa sobre índios, mulatos e negros. "
Nos anos 90, a separação entre classes ricas e pobres é quase tão grande quanto as que existem entre povos diferentes. E o Brasil destaca-se no mundo por sua péssima distribuição de renda. Quando o indivíduo consegue melhorar de vida, é possível perceber que seus descendentes em uma ou duas gerações cresceram em estatura, se refinaram, se educaram.
Muitos estrangeiros que chegaram aqui no começo do século XX encontraram condições de ascensão social mais rápida do que muitos brasileiros gerados aqui. Para Darcy Ribeiro, o país pouco mudou desde 1.500. E dos escravos aos assalariados de hoje, o Brasil se fez como um moinho de gastar gente. É muito duro para um negro fazer carreira no Brasil. Eles são a parcela maior da camada mais pobre que tá lá, no fundo do fundo, e é a camada onde pesa mais o analfabetismo, a criminalidade, a enfermidade. E é claro que precisam de uma compensação que nunca tiveram. Eles fizeram este país, construíram ele inteiro e sempre foram tratados como se fossem o carvão que você joga na fornalha e quando você precisa mais compra outro. A atitude para com o negro e o mulato e com o pobre é muito bruta.
Sobretudo os branquinhos de merda, que tem uma atitude muito freqüentemente de profundo preconceito e nenhum respeito para com essa gente que fez o Brasil. Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Essa unidade não significa porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais. Mais do que uma simples etnia, o Brasil é um povo nação, assentado num território próprio para nele viver seu destino.
Mas foi essa gente nossa, feita da carne de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Esse "paisão" formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil do mundo, bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma área imensa, preparada para lavouras imensas, produtoras de tudo, principalmente de energia.
A Amazônia devia ser um país, porque é tão diferente. O nordeste, até a Bahia... outro país que é diferente. A Paulistânia e as Minas Gerais juntas são outra gente... O sul, outra gente... Esse povão que está por aí pronto pra se assumir como um povo em si e como um povo diferente, como um gênero humano novo dentro da Terra. É claro que eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa forma isso. E vivi fazendo pesquisa, e vivi muito com negros, brasileiros, pioneiros de todo o lugar do Brasil. E li tudo que se falou do Brasil. Então estava preparado pra fazer esse livro. E gosto dele. Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro. É o melhor que eu podia dar. Gosto muito disso.
Florestan Fernandes
O intelectual militante, o professor engajado e o político eleito com mandato pelo partido dos trabalhadores marcaram a história deste grande educador. Um pensamento importante de Florestan se deu por volta de 1969 em plena ditadura militar, com a transição da fase acadêmica-reformista para a política-revolucionária. O processo de consolidação do pensamento revolucionário foi destruído pelo AI-5, que coloca vários intelectuais para fora das universidades, inclusive Florestan, que passa a não reconhecer mais a universidade como um centro dinâmico das transformações.
Seu ingresso no partido dos trabalhadores se deu a convite do presidente do partido, Luis Inácio Lula da Silva, num momento de sua vida, onde o desencantamento com a Universidade já se fazia presente. Época da Constituinte, em frente ao Congresso Nacional.
Eleito deputado federal duas vezes pelo Partido dos Trabalhadores, ele manteve coerência com seu pensamento e obra, e, se destacou na defesa da escola pública e do projeto de Diretrizes e Bases da Educação. Devido à sua crítica ao governo militar, a sua ligação a movimentos sociais e organizações políticas de esquerda e a luta pela educação pública. Revolucionando a sociologia brasileira.
Na Universidade, Florestan inaugura uma nova fase de sua vida. Engajado nos estudos e na reflexão sobre a sociedade, aprofunda-se no pensamento de Émile Durkheim e dos demais pensadores da sociologia positivista. Como um intelectual orgânico, introduz no meio acadêmico um novo perfil intelectual, responsabilizando-se e engajando-se nos problemas da realidade social brasileira, sobretudo na militância em prol das pessoas de condições menos favorecidas.
Na década de 40, Florestan participava de um grupo marxista, onde se dedicou ao estudo da obra de Marx e sofreu uma influência muito grande, principalmente sobre o pensamento dialético, pois isso o ajudou a entender melhor a dominação da sociedade burguesa e seus métodos expressos na realidade social.
Aliando o rigor metodológico à pesquisa empírica, Florestan Fernandes funda a sociologia critica no Brasil. Inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social. Para Florestan, o pensamento se pensa todo o tempo, pois a reflexão crítica deve ser sobre o pensamento e o pensado.
Segundo Ianni, contribuições de Florestan para a Sociologia brasileira, tem origem em 5 fontes, são elas:
A Sociologia Clássica e moderna, com diálogo contínuo, aberto e crítico que se desenvolve com os principais sociólogos, ou cientistas sociais, que apresentam alguma contribuição à pesquisa e à interpretação da realidade social.
No pensamento marxista é contínuo e o crescente diálogo com as obras de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Gramsci, entre outros, incorporou progressivamente o pensamento dialético, que fica evidenciado tanto na escolha dos temas quanto no tratamento dado a eles; criando desafios para os movimentos sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes populares.
A corrente mais crítica do pensamento brasileiro – em diferentes momentos, manifesta-se um diálogo, explícito ou implícito, como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Manoel Bonfim, Astrogildo Pereira, Graciliano Ramos, Caio Prado Junior e outros cientistas sociais e escritores, inclusive do século XIX.
Em diferentes escritos, reencontram-se sugestões, desafios ou temas suscitados pela obra desses autores, compondo uma espécie de família intelectual fundamental e muito característica no pensamento brasileiro. Levam em conta as lutas dos mais diversos setores populares que entram no passado e no presente da sociedade brasileira. Ajudam a recuperar algumas dimensões básicas das condições de existência, de vida e trabalho, do índio, caboclo, escravo, colono, seringueiro, camarada, sitiante, operário e outros, pretéritos e presentes.
Os desafios de sua época, a começar pelos anos 40. As transformações em curso na sociedade, em termos de urbanização, industrialização, migrações internas, emergência de movimentos sociais e partidos políticos, governos e regimes, sem esquecer as influências externas, criam e recriam desafios práticos e teóricos para muitos.
Os grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo, descortinando um panorama social e histórico mais largo do que aquele que aparece no pensamento produzido segundo as perspectivas dos grupos e classes dominantes.
É o negro, escravo e livre, isto é, trabalhador braçal, na lavoura e indústria, que descortina um horizonte inesperado, amplo. Ao lado do índio, imigrante, colono, camarada, peão e outros, a presença do negro na história social brasileira desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de vista crítico na Sociologia, nas Ciências Sociais e em outras esferas do pensamento brasileiro.
Além dessas cinco fontes principais da Sociologia Crítica fundada por Florestan, Ianni acrescenta outras inspirações como a militância política, a reflexão sobre a responsabilidade ética e política do sociólogo, o convívio com o pensamento latino-americano, destacando-se figuras como as de José Martí, José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara e assim por diante.
Sintetizando as matrizes da Sociologia inaugurada por Florestan Fernandes no Brasil. Sociologia Crítica essa que se caracteriza como um estilo de pensar a realidade social a partir da raiz.
Na década de 50, Florestan volta-se para a questão do racismo, em um trabalho pioneiro, onde levantou sérias dúvidas sobre o mito da democracia racial e deu espaço para o estudo da democracia de forma mais ampla. Em um artigo de 1977, publicado em O Globo, o sociólogo afirma que no Brasil “não existe sequer democracia para brancos poderosos, imagine para negros e mulatos”.
Antonio Candido, intelectual, amigo de Florestan por mais de 50 anos, descreve o professor Florestan Fernandes em três momentos com a seguinte citação: “Houve um Florestan dos anos 40, um Florestan dos anos 50 e um Florestan dos anos 60 a partir do qual a síntese já estava feita.
O Florestan dos anos 40 é o da construção do saber, que ao construir o seu, constrói a possibilidade de saber dos outros. O Florestan dos anos 50 é o que começa a se apaixonar pela explicação do saber do mundo, porque, tendo já os instrumentos na mão, se dedica a aplica-los para compreender os problemas do mundo. O terceiro momento é o do Florestan que, tendo aplicado o saber à compreensão do mundo, transforma-o numa arma de combate. Naturalmente, as três etapas estão misturadas, pois sempre houve a terceira na primeira e, a primeira na terceira. Estou me referindo às predominâncias.
O professor Florestan criticou a pedagogia tradicional e condenava a postura dos educadores distante do processo social, acreditando que estes deveriam estar engajados na tarefa de transformação social. Desta forma, tornou-se defensor permanente da escola pública, fazendo da Educação um dos temas centrais da sua vida. Para ele, não poderia existir estado ou sociedade democrática sem uma educação democrática via escola pública gratuita.
Como bom marxista defendeu uma educação vinculada ao pensamento socialista. Para ele, a classe trabalhadora era a principal força revolucionária, e, portanto seus membros deveriam estar preparados, bem informados e conscientes de seu papel e isto seria uma responsabilidade da Educação. Portanto entendia a Educação como um fator de mudança social.
As faces que marcam o professor Florestan Fernandes na Educação são: a de professor, cientista, militante e publicista da Educação, faces que ele manteve em outras práticas e que mostraram a coerência deste intelectual em toda sua trajetória de vida.
Muitos educadores já estavam envolvidos na discussão e principalmente na criação de um projeto que, através do Estado-Educador, privilegiasse a educação escolarizada, tornando o acesso e a permanência cada vez maior nas classes mais baixas. Simultaneamente, estava em tramite a aprovação da lei de Diretrizes da Educação Nacional, que com o apoio das elites, não suportavam essas propostas. É neste contexto que nasce a campanha em defesa da escola pública.
Em torno de indignações, reuniram-se vários educadores em São Paulo e realizaram a I Convenção Estadual em Defesa da Escola Pública, donde saiu grande mobilização, dando origem a Campanha em Defesa da Escola Pública.
Essa campanha conseguiu juntar diversos intelectuais além de outros segmentos da sociedade. No meio intelectual uniu uma diferente corrente do pensamento educacional: os liberais idealistas, os liberais pragmáticos e os socialistas. Nesta esta última corrente, encontravam-se Florestan, Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso.
Tendo a Educação se apresentado como tema de grande relevância para o professor Florestan, sua atuação em defesa do tema se constitui em algo memorável. Além de sua atuação na campanha, podemos destacar a sua atuação na assembléia constituinte e no processo de construção da L.D.B.
No processo de constituição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Florestan Fernandes sofre uma grande decepção com seu até então amigo Darcy Ribeiro, que havia o acompanhado na longa trajetória em defesa da Educação.
A maior injustiça de Darcy a Florestan é referente a sua frase: “Florestan não se inquieta com o milhão de alunos do proletariado estudantil, que pagam caro para estudar a noite, em escolas péssimas, montadas para fazer lucros empresariais, enganando-os. Abandona-os à sua sorte”.]
Florestan, que sempre lutou pelos menos favorecidos, que mobilizou diferentes segmentos para a construção de um projeto democrático e tentou incluir nas leis medidas que contemplassem a educação popular, encontrando resistências nas comissões foi traído e injustiçado por seu amigo.
Darcy considera, também, que o projeto da Câmara consolida o atual sistema de ensino e que continuará a manter o Brasil na condição do “... país que oferece a seu povo a pior educação”. Esse conflito vivido entre Florestan e Darcy Ribeiro foi aberto e ocupou espaço na mídia, persistindo até próximo dos últimos dias da vida do professor.
Florestan Fernandes foi professor a vida toda e apesar de decorrentes internações hospitalares nos últimos anos de vida, o sociólogo não abriu mão do tom professoral e intelectual que o caracterizava. Florestan foi, sem dúvida, um dos maiores professores e sociólogos do Brasil por ser um dos grandes responsáveis pela Consolidação do pensamento científico no estudo dos temas sociais no Brasil.
Florestan Fernandes, de engraxate a Professor catedrático, 75 anos de vida dedicada a luta contra desigualdade social. Intelectual orgânico, no sentido empregado por Gramsci, foi militante aguerrido na defesa da Escola Pública de Qualidade e com forte influência marxista, acreditou, lutou e defendeu a transformação social, atribuindo papel relevante aos trabalhadores a partir da consciência de classe e incluindo a Educação como tema de grande destaque na construção e consolidação de um novo projeto de sociedade.
Sociólogo formado em 1943, obteve título de mestre em 1947 e de doutor em 1951. Atuou em universidades importantes no Brasil e em outros países, contudo, conquistou uma posição de destaque na Sociologia Brasileira devido sua atuação nos diferentes campos das ciências sociais, abrindo caminho para a profissionalização dos sociólogos ao defender a participação e a interferência dos intelectuais nos problemas nacionais, inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social, por meio da qual se torna possível reinterpretar a sociedade e a história, bem como a Sociologia anteriormente produzida.
Fundador da Sociologia Crítica no Brasil, tem sua produção intelectual impregnada de reflexão, no questionamento à realidade e o pensamento sintetizado. Enfrentou especialmente durante a ditadura, a grande repressão por propagar no meio universitário, um engajamento dos intelectuais, aos problemas da sociedade brasileira. Foi desligado da Universidade e exilado no Canadá, com base no AI 5, retornando para o Brasil após 1972.
No Brasil, guiado pela inquietude em que o tema da Educação representava em seu projeto de sociedade, participou intensamente da Campanha em Defesa da Escola Pública, na criação do Fórum de defesa, no processo de construção da LDB, defendendo um projeto lei, democrático e tinha o apoio e a participação de diversas entidades sociais.
Este grande intelectual, a convite de Lula, inicia sua vida partidária no partido dos trabalhadores, mantendo sempre sua coerência, valoriza a diversidade dentro do partido, mas mantém-se, como ele me se intitulava: "lobo solitário", sendo admirado e respeitado por todas as alas do PT. Conquista o parlamento, onde convive com as tensões do momento de transição pelo qual passava o nosso país.
No parlamento, dedica-se a defender as causas dos menos favorecidos, sem nunca abandonar sua dedicação ao tema Educação, desempenhando um papel de grande relevância na Constituinte de 1988. Acreditava que a Constituição poderia corrigir as desigualdades verificadas no projeto Educacional da sociedade.
Com toda sua participação na Constituinte, conhecendo por dentro o parlamento, Florestan teceu críticas de que o parlamento servia para sustentar o conservadorismo imperialista, expressando as tensões entre passado autoritário e as perspectivas futuras e que a constituição de 88 foi um processo inacabado, pois a própria conjuntura que desencadeou colocou a Constituição de um lado, e as organizações populares de outro.
Enfim, crítica social, militância ativa, dedicação à docência, a pesquisa, ao publicismo; o sociólogo e professor, político engajado na luta contra desigualdade, na defesa da educação pública, do socialismo, da democracia e da solidariedade entre a classe trabalhadoras e entre os povos latino-americanos fizeram do Professor Florestan Fernandes, um grande homem de nosso tempo – coerente, sonhador e comprometido com sua classe.
No dia 10 de agosto de 1995 o Brasil perdeu uma pessoa ilustre. O nome dele: Florestan Fernandes. Desde sua despedida, seu testemunho e sua voz continuam ecoando entre aqueles que lutam e sonham com um Brasil diferente. Na seqüência destacaremos alguns elementos do trabalho acadêmico de Florestan Fernandes, dada sua atualidade e pertinência ao nosso contexto.
As décadas entre 1930 e 1960 representam um período extremamente significativo para a compreensão da realidade brasileira. Período controverso que motivou uma vasta produção acadêmica, literária, filosófica, artística e cultural.
Acontecimentos emblemáticos deste período são, por exemplo, o processo de industrialização; o surgimento, crise e declínio do Estado Novo; a criação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP); o I Congresso Brasileiro de Escritores; a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); a Plataforma da Nova Geração; a criação do Instituto Brasileiro de Economia Sociedade e Política (IBESP); e a crescente disputa entre os partidos políticos entre o Estado Novo e o golpe militar de 64.
A demanda por mão-de-obra vinda do processo de industrialização provocou um grande êxodo do campo para as cidades, fator decisivo no processo de formação dos centros urbanos brasileiros. Este cenário, propiciou algumas formulações do pensamento social brasileiro em torno de questões como classes sociais no Brasil, as possibilidades da industrialização, o capitalismo associado, negros e índios, o subdesenvolvimento e outras...
É neste período que surgem análises e interpretações teóricas da realidade sócio-política, econômica e cultural do Brasil elaboradas por figuras como Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido, Hélio Jaguaribe, Raimundo Faoro e Florestan Fernandes. Este último, sem dúvida, foi um dos intelectuais que mais se destacou na interpretação do processo de modernização da sociedade brasileira.
Sua obra abrange vários campos para além da sociologia, como a antropologia e etnologia (no que diz respeito aos estudos sobre os índios Tupinambás e sobre os negros), a educação, a questão da universidade, a política nacional e internacional, bem como ocupou-se, também, da tradução e edição de várias obras para o português, sobretudo, na área da Sociologia. Preocupou-se com o fomento à pesquisa em todos os setores da ciência, pois acreditava que por meio do desenvolvimento científico e tecnológico seria possível ao Brasil superar a situação de atraso e dependência na qual se encontrava.
Florestan Fernandes acreditava que o desenvolvimento da ciência, de modo amplo, possibilitaria aos brasileiros detectar os problemas sociais, bem como aplicar esforços e inteligência na sua solução, e promover o processo de emancipação cultural em relação aos países que nos colonizavam.
No sentido acadêmico, a formação de Florestan Fernandes acontece entre 1941 e 1953. Seus primeiros trabalhos visavam, simultaneamente, testar os conhecimentos teóricos recebidos dos professores e, por meio da leitura de autores clássicos, interpretar a realidade brasileira nas suas diversas relações, instâncias e processos. Autores como Comte, Durkheim, Mauss, Gurvitch, Weber, Sombart, Simmel, Mannheim, Malinowski, Parsons, Merton e Wright Mills destacam-se nas pesquisas de Florestan.
Para ele, a produção e a utilização da ciência estão ligadas a dois fatores condicionantes: os modelos de indagação e verificação (método) da verdade e as exigências sócio-culturais do meio (possibilidade de aplicação). Na obra A sociologia numa era de Revolução Social ele constata, que “a sociedade estimula, assim, o desenvolvimento da ciência, compelindo os cientistas, de várias maneiras, a conceber e a realizar projetos de investigação ou de aplicação que levem em conta necessidades práticas de alcance social.
Entretanto, ele observa que naquela época, especialmente nos países subdesenvolvidos, o segundo elemento era ignorado, isto é, a ciência e os cientistas estavam mais preocupados com a questão do método do conhecimento que com sua aplicação à realidade social. E adverte: “Em nossa época o cientista precisa tomar consciência da utilidade social e do destino prático reservado às suas descobertas. O ‘bom’ ou o ‘mau’ uso dos conhecimentos científicos depende, em grande parte das atitudes que os cientistas tomarem diante da utilização dos dados da ciência.
Neste sentido, Florestan voltou-se a análise de alguns dos fatores condicionantes do processo de desenvolvimento da ciência no Brasil. Ele destaca que, com o avanço tecnológico e a ascensão da ciência na planificação racional da sociedade, teriam surgido novas exigências para os cientistas. Estas transformações, afirma ele, expressam a marcha que a civilização estaria tomando: uma marcha rumo à civilização baseada na ciência e na tecnologia científica.
Deste modo, surge uma nova perspectiva quanto à natureza e o significado das obrigações extra-científicas do cientista na sociedade. Caberia, então, a eles uma dupla tarefa: “contribuir de modo positivo para o progresso do saber científico” e, também, “contribuir para o progresso das comunidades às quais pertencem em termos dos ideais associados à propagação e à democratização da concepção científica do mundo, com suas garantias materiais, sociais e morais”. Em nossa interpretação é a partir desta perspectiva que podemos afirmar sem titubeios que Florestan não só defendeu como exigiu um vínculo indissolúvel entre o saber e o compromisso com a transformação da sociedade numa perspectiva política socialista.
Florestan denunciava, neste sentido, como a postura da sociedade marcada pela herança tradicional aristocrata, escravocrata e senhorial, baseada num noção elitista de ciência, postulou uma educação pública voltada exclusivamente para a classe dominante ou visando formar uma classe seleta para as atividades de liderança social, administrativa e política; enquanto que para as classes populares foram criados especialmente o SENAI e SENAC com o objetivo de preparar mão-de–obra apta para o mercado de trabalho.
Para ele, a ciência tem essencialmente um papel transformador e, por esta razão, a responsabilidade pela efetivação deste papel transformador da ciência recairia sobre os ombros do cientista. Deste modo, torna-se indispensável o comprometimento e a colaboração entre os cientistas das diversas áreas do conhecimento, objetivando encontrar alternativas para a superação do sub-aproveitamento dos quadros de pesquisadores, das vocações intelectuais e dos recursos materiais empregados na pesquisa no Brasil.
A preocupação de Florestan com relação ao tema do desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil fica explícita em sua obra. Para ele, o desenvolvimento econômico e social (e, neste aspecto, entra a questão da educação) estaria atrelado ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Decorrente destas questões resulta a preocupação constante e a defesa da pesquisa na universidade, fato que não se deu somente no período que se comenta neste ensaio, mas que foi um dos marcos na militância e na produção acadêmica de Florestan. “(...) Sem conjugar ciência e tecnologia de forma verdadeiramente ampla estaremos sempre na condição de país importador de técnicas inventadas alhures, sem iniciativas próprias e, o que é pior, aproveitando tais técnicas com margens enormes de atraso temporal e cultural.”
Deste modo, tornava-se urgente a preparação de quadros humanos para o florescimento das ciências no Brasil e uma das formas de acelerar este processo era, e ainda é, a investida na preparação de pessoal para a atuação científica (ensino e pesquisa). Tal preparação compreenderia desde uma educação básica de qualidade até a formação de um espírito de colaboração entre os cientistas das diversas áreas do conhecimento. Ora, isto significaria pôr fim ou, então, minimizar ao máximo a lógica competitiva que estava instaurada nas áreas de investigação e que transformava a pesquisa e a disputa pelas parcas verbas de financiamento numa guerra de interesses particularistas.
Assim, os líderes intelectuais das diversas áreas olhavam-se como “aves de rapina”, conforme Florestan, demonstrando-se verdadeiramente oportunistas. As conseqüências disto eram extremamente prejudiciais ao desenvolvimento qualitativo e quantitativo da ciência no Brasil. Ao invés da colaboração inteligente havia um antagonismo e uma concorrência absurdos.
Comenta Florestan que: “embora saibam que a ciência exige progressos concomitantes nos diversos ramos de investigação, que ela é um edifício construído na base da cooperação inteligente e da capacidade de especialização interdependente, na prática dão ombros a esses valores.
Na defesa destes valores, foi expressiva e intensiva sua atuação e produção especialmente por meio de artigos em revistas acadêmicas (especializadas), conferências e artigos de jornal. Florestan não só se ocupou em falar ou escrever sobre a importância da pesquisa como encarnou em si a missão de praticá-la e difundi-la como uma práxis essencial. Como resultado temos sua intensa produção intelectual sistemática que vai desde o trabalho teórico, analítico e interpretativo dos clássicos até a pesquisa empírica, buscando desvelar a realidade brasileira através de estudos sobre os Tupinambás, sobre a revolução burguesa no Brasil, as questões raciais e o folclore em São Paulo, estudos sobre comunidade e sociedade e questões relativas à educação. Ele sempre esteve atento ao complexo processo histórico-social da cultura brasileira, mesmo admitindo que nem todas as faces da realidade são evidentes e podem ser analisadas do ponto de vista sociológico. O debate que Florestan Fernandes instaura no período em questão é de suma importância para a compreensão da realidade brasileira atual.
Florestan constatou o acúmulo de conhecimento sobre os mundos orgânico e inorgânico; era momento de sabermos mais sobre o mundo supra-orgânico. Em conseqüência, ao sociólogo (cientista social) é atribuído um papel fundamental a ser desempenhado, pois ele, por meio dos devidos instrumentos (conceituais, metodológicos e materiais) desvela a realidade, apontando para os seus problemas, dilemas e inconsistências, propondo a reflexão sobre as perspectivas de solução.
Assim, o saber deve estar fundamentalmente a serviço da transformação da sociedade, na perspectiva da transformação dentro da ordem e/ou contra a ordem. Como a ordem social brasileira apresentava sérias inconsistências, especialmente no plano social (dilema social) e cultural (demora cultural), era urgente a modificação do padrão de ação e relação nestas duas esferas.
Entre seus principais trabalhos encontram-se: A organização social dos Tupinambá (1949), Ensaios de sociologia geral e aplicada (1960), A sociologia numa era de revolução social (1962), Educação e sociedade no Brasil (1966), Sociedade de classes e subdesenvolvimento (1968), A revolução burguesa no Brasil (1975), Universidade brasileira: reforma ou revolução? (1975), A sociologia no Brasil (1977).
"Intelectual militante largado a si mesmo", eis como se define neste livro Florestan Fernandes. Vitimado pelo AI-5, foi afastado de sua cátedra e abandonou suas antigas idéias sobre a possibilidade de uma sociologia cientificamente neutra . O funcionalismo deu lugar ao marxismo, e o apego à vida acadêmica foi substituído por uma nova militância, intransigente e sem compromissos, solitária e despojada.
Florestan prega a "desobediência civil generalizada" como forma de luta política contra o regime, e justifica e defende a necessidade de uma extrema esquerda organizada que, embora ineficaz a curto prazo, teria a função de "desmascarar e desmistificar a democracia burguesa", além de desempenhar outras funções revolucionárias.
Não obstante o linguajar às vezes incendiário, trata-se afinal de tese bastante moderada. Florestan defende a implantação de um regime político democrático, com lugar para ampla participação de setores hoje marginalizados dos centros de decisão.
Ainda que sua preferência seja pelo que chama de "democracia operária", esta é uma opção para o futuro, a não ser que "a transição da democracia restrita em sua versão atual para a democracia de participação ampliada" seja "bloqueada de modo cego e persistente; sem deixar alternativas e esperanças", caso em que surgiriam "as polarizações anti-capitalistas e socialistas".
Finalmente, ao contrapor a democracia operária a democracia burguesa, Florestan simplesmente deixa de lado toda a triste experiência das chamadas "democracias populares" contemporâneas, que tem levado os analistas políticos a considerarem, cada vez mais, que a democracia não pode ser entendida como simples decorrência de determinado jogo de interesses, mas implica a implantação e manutenção de uma série de mecanismos de garantia da pluralidade e diversidade de interesses e valores em uma mesma sociedade, incluindo um sistema judiciário independente e o pluri-partidarismo.
Dificilmente alguém não compartilharia as preocupações do autor com os limites estreitos do sistema político brasileiro, e com o destino trágico de. tantos que ficam à margem ou pagando o preço da sociedade moderna que aqui se vem implantando a duras penas. O que nem sempre se percebe, porém, é que não bastam a indignação e a firmeza de intenções para alterar esta situação; é necessário, e além disto, incorporar de forma adequada o conhecimento e a experiência acumulada em relação a esses problemas.
Oswald de Andrade
Numa conferência em 1923 na Sorbonne, em Paris, em que destacou a presença sugestiva do tambor africano e do canto negro como forças étnicas que desembocavam na modernidade, Oswald Andrade também afirmou que o século XX estava em busca das fontes emotivas das origens concretas e metafísicas da arte. Desta maneira, venho digerindo o pensamento Oswaldiano desde o Tropicalismo.
É a marca do “Manifesto Pau-Brasil”, que tanto penderia para o primitivismo de natureza psicológica quanto para o da experiência da forma externa na estética do cubismo, associada à exaltação futurista da vida moderna nos grandes meios urbanos. O ideal do “Manifesto Pau-Brasil” é conciliar a cultura nativa e a cultura intelectual renovada, num composto híbrido que ratificaria a miscigenação étnica do povo brasileiro e que ajustasse, num balanço espontâneo da própria História, o melhor da tradição lírica com o melhor de nossa demonstração moderna. E graças ao despojamento do modo de sentir e conceber provocado pela máquina e pela tecnologia, o caráter universal da cultura não dependeria mais de um centro privilegiado de irradiação de idéias e experiências: “A universalidade da época deixará de ser excêntrica para tornar-se concêntrica. O mundo se regionalizará e o regional contém o universal. Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi or not tupi that is the question. Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do Homem. Sem nós, a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Morte e vida das hipóteses. Da equação, eu parte do Cosmos, ao axioma, Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia. Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso! Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais”.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. A alegria é a prova dos nove. No matriarcado de Pindorama. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. Se examinarmos em conjunto, a geografia e a história, veremos que tudo que de mais importante se vem processando no globo, tem por habitat uma faixa que se pode situar entre o Trópico de Câncer e o 60 graus de latitude norte. Os Estados Unidos e a Europa, o Egito, a Judéia e o Japão. Que aconteceu de essencial fora desta faixa geográfica, as sociedades, países ou aglomerados que se desenvolveram, dividiram precocemente, ou melhor, o seu trabalho e criaram mais cedo as instituições e as suas éticas.
Partiram tanto as conquistas da guerra, como saíram os frutos da paz. A geometria e a gramática, a colonização e a máquina, as finanças e o direito, a arte, a literatura e a ciência. O solo, a fauna e a flora, o clima e a nitidez das estações, o subsolo e as cercanias fáceis do mar, o índice demográfico e a técnica. Tudo isso preparou uma eleição antropológica que se tornou preponderância histórica. Foram as nações marinhas desse anel latitudinário que criaram a navegação. E esta lhes deu as descobertas. A Fenícia levou as suas moedas até o Báltico, a Holanda e a Península Ibérica dominaram os oceanos renascentistas. Foi o carvão que equipou depois oImpério Britânico e o petróleo a América do Norte e a Rússia atual. Todos esses fatos se localizaram na faixa situada ao norte do Trópico de Câncer. Ao lado desse anel de terra e mar, onde brotou e se fez o homem organizado e inquieto, fica o anel equatorial onde o Brasil acorda, com a Índia e a África. Ao sul, na faixa correspondente à primeira vista, isto é, do Trópico de Capricórnio a 60 graus de latitude meridional, uma atividade de reflexo parece imitar e querer seguir a outra.
São Paulo situa-se no limiar deste último anel, onde estão a Argentina, a Austrália, a África do Sul e o sul do Brasil. Na faixa mais decisiva e importante, os ciclos históricos se têm sucedido e revezado com características que os separam nitidamente. Numa fase predomina o elemento individual e na outra o coletivo. Assim, verificam-se na História períodos de individualismo e períodos de coletivismo. Pelo menos quatro períodos se marcaram no desenvolvimento da Humanidade, desde que a vida sobre a Terra foi fixada pela memória, pela arte e pela escrita. Dois trazem um forte caráter coletivista e social. Suas expressões são dadas pela Judéia dos profetas e pela Idade Média européia. Dois outros períodos, apesar de suas íntimas contradições, são preponderantemente humanistas.
O primeiro vem do século V a.C. até a queda de Roma e, o segundo, do Renascimento até a atualidade. Hoje estamos em face de um quinto período, cujo caráter é eminentemente social. O humanismo é sempre uma cultura da liberdade que traz em seu bojo o individualismo econômico. Anima-o a consciência de novas necessidades do indivíduo em expansão. Ao contrário, os períodos coletivistas se caracterizam por uma cultura do social, que traz em si uma economia sempre dirigida, seja patriarcal como na Judéia, comunal como na Idade Média ou, como hoje, nacional ou autárquica. Forma-se neles uma consciência da necessidade de novas limitações do indivíduo pelo bem social. Da Judéia, saiu do Velho Testamento, o espírito autocrático. Ao contrário, o primeiro período humanista deu, como seu índice, o Direito Romano, base de toda legislação individualista posterior. Depois do período coletivista chamado Idade Média cujo signo é o Papado e cujo bardo é Dante, surge o segundo período humanista.
É o que inicia a busca das matérias-primas, o comércio exterior e a conquista colonial. Criou o Renascimento e a Reforma. A era máquina produziu o Código Napoleônico, esta Marselhesa dos direitos burgueses e, como resultado, criou Wall Street. A forma por que se processam estas mudanças históricas já foi estudada por mais de um exegeta. A superestrutura da sociedade, direito, moral, forças espirituais, letras, e artes, passa a não mais corresponder à estrutura, às forças econômicas, ao progresso técnico e ao índice demográfico.
E a derrocada dos sistemas dominantes se produz inexoravelmente. Foi assim quando a idade homérica, mitológica e fideísta terminaram na democracia ateniense. Os filósofos gregos surgiram no ângulo de dissociação dos dois ciclos. A moral socrática, apesar de seu tom de conquista social, levado avante por Platão e expresso na ética aristotélica. A moral socrática era a oposição individualista ao ciclo dionisíaco que a precedera. Isso não foi visto totalmente por Nietzsche. E ela estava também longe do pensamento tribal judaico. Do “Conhece-te a ti mesmo” é que saiu o cinismo de Diógenes, o ceticismo de Pirro e o edonismo de Epicuro. Há um progresso sensualista que doura toda a cultura romana. Isso conduziria o Império ao latifúndio e à conquista exterior. A superestrutura exorbitou da estrutura. E a derrocada se produziu, conduzida ideologicamente pela revolução cristã. Nos primeiros séculos da nossa era, um ciclo social se movimenta na mitologia das catacumbas, o cristianismo primitivo. Ele traz em si, contraditoriamente, a personalidade humana, posta em foco pelo agreste espírito pauliniano. Mas é Agostinho, com seu mágico fideísmo, que prevalece sobre o individualismo de Paulo. O período é vitoriosamente conventual, místico e coletivista. E é esse caráter que oferece toda a Idade Média.
O Cristianismo foi a ideologia revolucionária do momento, mas não teria êxito se as condições econômicas do Império não exigissem uma transformação de sistema político. Uma era evangélica profetiza sempre as convulsões econômicas. Com a quebra do livre contrato e o advento da pequena propriedade, o Cristianismo estava maduro para tomar o poder. E, como a propriedade, cresceria depois, durante o Feudalismo. Do mesmo modo, quando na alta Idade Média se estabeleceu a querela filosófica da Santíssima Trindade, já se colocavam em face um do outro os dois ciclos novos em debate ante a aproximação de uma ruptura econômica do sistema feudal. Os realistas que acreditavam na realidade do “Unum in trino” eram os senhores da época, os que afirmavam a realidade substancial do coletivo e da sua forma de produção. Ao contrário os nominalistas, eram os condutores do futuro, os pioneiros da liberdade econômica. Foram revolucionários do momento, os que viram no coletivo somente um nome, incapaz de dissolver o indivíduo ímpar.
Com o pensamento socrático, no início de uma era individualista e o pensamento pauliniano de uma era coletivista, temos a dialética hegeliana que elucida perfeitamente este propósito. O progresso humano se processa por contradições e não caminha numa reta ascensional. Aliás, Sócrates e São Paulo são fontes luminosas de contradições. Como o Cristianismo bebeu suas origens triunfais nos elementos platônicos do ciclo humanista anterior, é no paulinismo que a Renascença e a Reforma vão buscar suas ardências contra a hegemonia tomista. Algumas das obras-primas do humanismo clássico, a “Cidade do Sol”, de Campanella, a “Utopia”, de Morus têm sentido social. São tardes góticas em meio às auroras da burguesia.
No entanto, é o racionalismo cartesiano e a mordacidade de Erasmo, a análise de Cervantes a Moliére, dos enciclopedistas aos naturalistas ingleses como Dickens, de Renan e Spencer aos sorrisos cansados de Anatole France. A guerra, os terrores do fascismo, o apelo às forças primitivas da Humanidade, significando a morte de um ciclo – o ciclo individualista burguês. Estamos no verdadeiro limiar da História. Quero dizer com isto que a era da máquina tecnizou de tal maneira o Homem em toda a Terra que ele pode alcançar, enfim, uma unificação de destino e igualar-se num padrão geral de vida civilizada. Então, o Homem poderá ser o mesmo em todo o globo, e pretender, portanto, os mesmos direitos em qualquer latitude. Estamos, pois, à entrada de um ciclo que traz, de um modo novo, todas as características coletivistas. Vivemos no mesmo sentido da Idade Média ou da Judéia, mas bem longe delas. Há a máquina entre o século XIII e XX. A política de nossos dias de ser mais comunal ou autárquica e a economia mais social do que individual. Quando se afirmou, há cem anos, que bastava encontrar o necessário, era preciso transformá-lo para encontrar sua própria mitologia. Desta Terra, nesta Terra, para esta Terra. E já é tempo. A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto, ao valor favorável.
A vida é devoração pura. Nesse devorar que ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao Homem totemizar o tabu. Que é o tabu senão o intocável, o limite? Enquanto em sua escala axiológica fundamental, o Homem do Ocidente elevou as categorias de seu conhecimento até Deus, o supremo bem, o primitivo instituiu a sua escala de valores até Deus, o supremo mal. Há nisso uma radical oposição de conceitos que dá uma radical oposição de conduta. E tudo se prende à existência de dois hemisférios culturais que dividiram a História em matriarcado e patriarcado. Aquele é o mundo do Homem primitivo. Este o do civilizado. Aquele produziu uma cultura antropofágica, este, uma cultura messiânica.
No mundo do Homem primitivo, que foi o matriarcado, a sociedade não se dividia em classes. O matriarcado assentava-se sobre uma base tríplice – o filho do direito materno, a propriedade comum do solo, o Estado sem classes, ou seja, a ausência de Estado. Quando se instaurou o Estado de classes, como conseqüência da revolução patriarcal, uma classe se apoderara do poder. A ruptura histórica com o mundo matriarcal produziu-se quando o homem deixou de devorar o homem para fazê-lo seu escravo. Friedrich Engels assinala o fecundo progresso dialético que isso constitui para a Humanidade. De fato, da servidão derivou a divisão do trabalho e a organização da sociedade em classes. Criou-se a técnica e a hierarquia social. E a história do Homem, passou a ser, como disse Marx, a história da luta de classes. Uma classe se sobrepôs a todas as outras: a sacerdotal. A um mundo sem compromissos com Deus, sucedeu um mundo dependente de um Ser Supremo, distribuidor de recompensas e punições. Sem a idéia de uma vida futura, seria difícil ao Homem suportar sua condição de escravo. Esta é a importância do messianismo na história do patriarcado. O monoteísmo do fundo de velhas fés absolutistas tinha uma finalidade, a obediência do homem-escravo ao senhor de terra que era espelho do Senhor do céu. O sacerdote foi muitas vezes o legislador, outras vezes, por meio de augúrios e oráculos, presidiu a paz como ordenou a guerra.
Sacerdócio que dizer ócio consagrado aos deuses. O ócio não é esse pecado que farisaicamente se aponta como a mãe de todos os vícios. Ao contrário, Aristóteles atribui o progresso das ciências ao ócio concedido aos pesquisadores e aos homens de pensamento e de estudo. A palavra ócio vem do grego sxolé, donde se deriva “escola”. E hoje, quando pela técnica e pelo progresso social e político, atingimos a era em que, no dizer de Aristóteles, os fusos trabalham sozinhos, o homem deixa sua condição de escravo e penetra no limiar da Idade do Ócio. É um outro Matriarcado. A Utopia da Antropofagia de Oswald de Andrade.
República do Terror
6- Brasil da Abertura
José Sarney
República dos planos da Redemocratização
7- Brasil do Impeachment
Fernando Collor de Mello - Itamar Franco República dos Marajás
8- Brasil do Plano Real
Fernando Henrique Cardoso
República do último plano - o Real de F.H.C.
9-Brasil do PT
Luis Inácio Lula da Silva
República do proletariado. Lula da Silva
Esquerda Proletariada no Brasil
Governo de Lula 2002 - 2006
10 - Eleições 2006
11 - Sistemas Partidários
Pluripartidarismo-Bipartidário
Alianças Partidárias
A- PT – 25 anos de História pelo historiador petista Marco Aurélio Garcia
B - Ninho Tucano - História do PSDB
C- Partidos Complementares
1 - PMDB
2 - PFL
D - Partidos suplementares
1 - PDT
2 – PSOL
3 – PSO
4 – PSDC
5 - PSL
F – Corrida de Campanha
12- Corrida de Campanha
Orçamento de Campanha
Discursos e debates dos presidenciáveis
13- A Prática das eleições de 2006
14- Presidência 2006 – Lula da Silva
15- Discurso de posse do presidente reeleito
Luiz Inácio Lula da Silva
Senhores Pensadores do Brasil
Celso Furtado
Caio Prado Jr.
Sergio Buarque de Holanda
Gilberto Freire
Darcy Ribeiro
Florestan Fernandes
Oswald de Andrade
Parte 3
Os Senhores Pensadores do Brasil
Celso Furtado - Caio Prado Jr. - Sergio Buarque de Holanda - Gilberto Freire
Darcy Ribeiro – Florestan Fernandes - Oswald de Andrade
Deve-se deixar registrado neste capítulo as diretrizes dos pensamentos do que podemos considerar de uma civilização brasileira, por homens notáveis que tiveram a envergadura de ver o Brasil como ele é. São eles: Celso Furtado - Caio Prado Jr. - Sergio Buarque de Holanda - Gilberto Freire - Darcy Ribeiro - Oswald de Andrade. Cada um de sua forma e conteúdo, visto pela direita, pela esquerda, algumas vezes no centro e outras vezes distante destas posições dogmáticas da política recente do mundo contemporâneo.
Celso Furtado
Celso Monteiro Furtado nasce a 26 de julho de 1920 em Pombal, no sertão paraibano, filho de Maria Alice Monteiro Furtado, de família de proprietários de terra, e Maurício de Medeiros Furtado, de família de magistrados. Celso Furtado tem uma paixão especial pelo Brasil, a sua primeira paixão intelectual foi a história, aos catorze anos. A segunda foi a literatura e a terceira, a sociologia norte-americana, com a "teoria antropológica da cultura", revelada por Gilberto Freyre em Casa-grande e senzala.
Após seus estudos secundários no Liceu Paraibano e no Ginásio Pernambucano do Recife, chega ao Rio em 1939, entra para a Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Em 1943, é aprovado no concurso do DASP para assistente de organização, indo trabalhar no Rio e em Niterói. No ano seguinte, cursa o CPOR, conclui o curso de Direito e é convocado para a Força Expedicionária Brasileira. Com a patente de aspirante a oficial, segue para a Itália, servindo, na Toscana, como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano, e sofre um acidente em missão durante a ofensiva final dos aliados no Norte da Itália.
Em 1946, ganha o prêmio Franklin D. Roosevelt, do Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio "Trajetória da democracia na América". Viaja para a França, inscreve-se no curso de doutoramento em economia da Universidade de Paris-Sorbonne, e no Instituto de Ciências Políticas. Envia reportagens para a Revista da Semana, Panfleto e Observador econômico e financeiro, entre outras, narrando sua experiência como integrante de uma brigada francesa de reconstrução de uma estrada na Bósnia, e sua participação no Festival da Juventude em Praga. Em 1948, é feito doutor em economia pela Universidade de Paris, com a tese "L'économie coloniale brésilienne", dirigida por Maurice Byé, obtendo a menção très bien. De volta ao Brasil, retoma o trabalho no DASP e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, trabalhando na revista Conjuntura econômica. Casa-se com Lucia Tosi.
Em 1949, instala-se em Santiago do Chile para integrar a recém-criada Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão das Nações Unidas que se transformará na única escola de pensamento econômico surgida no Terceiro Mundo. Nasce seu filho Mário. No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria-executiva da CEPAL, é nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento, e até 1957 cumpre missões em diversos países do continente, como Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, e visita universidades norte-americanas onde então se inicia o debate sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento.
É de 1950 seu primeiro ensaio de análise econômica, "Características gerais da economia brasileira", publicado na Revista brasileira de economia, da FGV. Em 1952, "Formação de capital e desenvolvimento econômico" é seu primeiro artigo de circulação internacional, traduzido para o International Economic Papers, da Associação Internacional de Economia.
Em 1953, preside no Rio o Grupo Misto CEPAL-BNDE, que elabora um estudo sobre a economia brasileira, com ênfase especial nas técnicas de planejamento. O relatório do Grupo Misto, editado em 1955, será a base do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. Em 1954, com um grupo de amigos, cria o Clube de Economistas, que lança a revista Econômica Brasileira. Nasce seu filho André. Em 1956, mora na Cidade do México, em missão da CEPAL. Passa o ano letivo de 1957-58 no King's College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, a convite do professor Nicholas Kaldor. Escreve a Formação econômica do Brasil, que será seu livro mais difundido.
De volta ao Brasil, desliga-se definitivamente da CEPAL e assume uma diretoria do BNDE. É nomeado, pelo presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. Elabora para o governo federal o estudo "Uma política de desenvolvimento para o Nordeste", origem da criação, em 1959, da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), com sede no Recife.
Em 1961, como seu superintendente, encontra-se em Washington com o presidente John Kennedy, cujo governo decide apoiar um programa de cooperação com o órgão, e, semanas depois, com o ministro Ernesto Che Guevara, chefe da delegação cubana à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso.
Em 1962 é nomeado, no regime parlamentar, o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao país pelo presidente João Goulart por ocasião do plebiscito visando a confirmar o parlamentarismo ou a restabelecer o presidencialismo. No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à Superintendência da SUDENE, quando concebe e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.
O Ato Institucional nº 1, publicado três dias depois do golpe militar de 31 de março de 1964, cassa os seus direitos políticos por dez anos. Têm início seus anos de exílio. Ainda em abril, aceita um convite para dar seminários em Santiago do Chile. Meses depois, em New Haven, Estados Unidos, será pesquisador graduado do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Yale. Faz conferências em diversas universidades norte-americanas e participa de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo.
Em 1965, muda-se para a França, a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico. É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do general de Gaulle. Permanecerá nos quadros da Sorbonne por vinte anos.
Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. No correr do decênio de 1970, faz diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências das Nações Unidas. No mesmo decênio, é professor-visitante da American University, em Washington, da Columbia University, em Nova York, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e é feito Fellow do King's College.
Entre 1978-81, integra o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. No mesmo período, recebe um mandato do Commitee for Developement Planning, da ONU. Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, dirige em Paris seminários sobre a economia brasileira e internacional.
A partir de 1979, quando é votada a Lei da Anistia, retorna com freqüência ao Brasil, reinsere-se na vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Casa-se com a jornalista Rosa Freire d'Aguiar. Em janeiro de 1985 é convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo. É nomeado embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Européia, em Bruxelas, assumindo o posto em setembro. Integra a Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição. Em março de 1986 é nomeado ministro da Cultura do governo do presidente José Sarney; sob sua iniciativa, é aprovada a primeira lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pede demissão do cargo, retornando às atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.
De 1987-90 integra a South Commission, criada e presidida pelo presidente Julius Nyerere, e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Sul. Entre 1993-95 é um dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/UNESCO, presidida por Javier Pérez de Cuéllar.
Entre 1996-98 integra a Comissão Internacional de Bioética da UNESCO. Em 1997 é organizado em Paris, pela Maison des Sciences de l'Homme e a UNESCO, o congresso internacional "A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento", reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França, Itália, México, Polônia e Suíça. No mesmo ano é criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste, o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política.
É Doutor Honoris Causa das universidades Técnica de Lisboa, Estadual de Campinas-UNICAMP, Federal de Brasília, Federal do Rio Grande do Sul, Federal da Paraíba e da Université Pierre Mendès-France, de Grenoble, França.
Em agosto de 1997 é eleito para a cadeira n. 11 da Academia Brasileira de Letras. Empossado em 31 de outubro, é saudado pelo Acadêmico Eduardo Portella. Durante um colóquio organizado no Rio de Janeiro em agosto, a Cátedra e a Rede da Unesco e da Universidade das Nações Unidas (REGGEN), a Associação dos economistas da América Latina (AEALC), o Conselho latino-americano de ciências sociais (CLACSO) apresentaram o nome do professor Celso Furtado para candidato ao "Bank of Sweden Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel" — o prêmio Nobel de economia — em 2004. A acolhida mais que favorável que essa iniciativa recebeu fez com que já conte com o apoio da CEPAL (Comissão econômica para a América Latina e o Caribe), do SELA (Sistema econômico latino-americano), da Academia de Ciências Sociais da China, e de inúmeras instituições acadêmicas, centros de pesquisa, universidade em todo o mundo.
Pensamento – idéias e críticas
Desde suas primeiras obras, nos anos 50, Celso Furtado avançou a hipótese de que subdesenvolvimento e desenvolvimento são dois aspectos do mesmo processo de expansão da economia capitalista internacional. O subdesenvolvimento não seria apenas uma expressão do « atraso econômico » de um país, nem uma etapa pela qual passaram os países desenvolvidos, mas um processo com suas leis próprias de funcionamento, cuja compreensão exige um esforço teórico específico. Furtado elaborou elementos decisivos dessa teoria, como a interação entre a atividade de subsistência e o setor exportador.
Sua visão do sistema produtivo internacional, inspirada em outro economista latino-americano, o argentino Raúl Prebisch, foi decisiva para o pensamento econômico e social que prevaleceu na América Latina nos anos 50-60. Tratava-se de demonstrar a relação entre a deterioração dos termos de intercâmbio e a distribuição desigual dos frutos do progresso tecnológico. Na ausência de mudanças no nível das estruturas econômicas e políticas, as relações econômicas internacionais gerariam uma desigualdade crescente, e não a igualdade prevista pela lei das vantagens comparativas consagrada pela economia ortodoxa.
Celso Furtado trabalhou de modo concludente na formulação desses conceitos a fim de torná-los operacionais. Além disso, demonstrou que a industrialização dos países periféricos não se faria sem o apoio de políticas de planificação.
Paralelamente a suas contribuições para a teoria do desenvolvimento e da planificação, Celso Furtado estudou em profundidade a história econômica do Brasil e a da América Latina com o instrumental teórico e analítico moderno. Seus livros Formação econômica do Brasil e A economia latino-americana foram traduzidos para uma dezena de línguas, inclusive para o chinês e o persa, e influenciaram a famosa Escola dos Anais, como reconheceu um de seus fundadores, o historiador Fernand Braudel. Com efeito, seus estudos sobre a história dos Estados Unidos e a formação do capitalismo na Europa são clássicos que se baseiam na análise intra e interdisciplinar.
Em seus trabalhos mais recentes, Furtado analisa o impacto da transnacionalização e da globalização na economia capitalista contemporânea. Da mesma forma, ele também aprofunda seus estudos sobre as dimensões culturais e sociais do desenvolvimento. Enfim, ele procedeu a uma reflexão sobre a metodologia da ciência econômica, que nos últimos tempos enveredou por um caminho mais próximo da física de fins do século 19 do que de uma ciência social autêntica. Mas a obra de Celso Furtado não se limita ao plano teórico. Sua ação como homem público tornou-o conhecido por ocasião da criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em 1958, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek. À frente dessa agência de desenvolvimento regional ele aplicou as técnicas de planificação regional que fizeram recuar de modo significativo a miséria dos trinta milhões de brasileiros que ali viviam na época.
O sucesso da SUDENE levou-o a ocupar o posto de ministro do Planejamento do governo de João Goulart. Em seguida ao golpe militar de 1964 Furtado foi cassado de seus direitos políticos. A contribuição de Celso Furtado para o pensamento contemporâneo é inestimável. Por isso convocamos todos os Colégios de economistas, as instituições docentes, os centros de pesquisa e outros organismos a apoiarem a proposta dessa candidatura que fará justiça a um eminente economista latino-americano.
Celso Furtado é a melhor expressão do novo tempo, como administrador e cientista social. Visto inicialmente como economista, tem uma obra de importantes desdobramentos e que hoje deve ser percebida como de um pensador que trata do social e sua amplitude", esta é a análise do historiador Francisco Iglésias (falecido em 1999), autor de diversas obras de referência sobre História do Brasil. Para comemorar os 80 anos do humanista Celso Furtado, a Academia Brasileira de Letras inaugurou a exposição "Celso Furtado: vocação Brasil".
Autor de mais de trinta livros que abordam temas econômicos e sociais, além de dezenas de ensaios em livros e revistas. São 32 livros e 53 traduções. Entre os manuscritos, podemos destacar toda a obra de Celso Furtado escrita em cadernos, o discurso de posse na ABL (digitado com anotações); carta de Juscelino Kubitschek; o original do livro mais vendido do escritor "Formação Econômica do Brasil", de 1959. Desde seus primeiros escritos,
Celso Furtado questionou o modelo econômico "essencialmente agrícola", defendido pela classe dominante. Foi o primeiro a denunciar o agrarismo como causa do nosso atraso. Sempre à frente do seu tempo, ocupou cargos importantes e trabalhou em grandes projetos, fundamentais para o Brasil e para América- Latina.
O economista Celso Furtado não é apenas um dos mais influentes pensadores da esquerda brasileira, talvez o mais influente.
Não é apenas o criador da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), nos anos 50, ou um dos sustentáculos da filosofia desenvolvimentista elaborada na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), organismo das Nações Unidas, nem apenas o autor de mais de trinta livros, o último dos quais O Capitalismo Global (Paz e Terra, 1998) e o mais importante o clássico Formação Econômica do Brasil 1959).
Celso Furtado é também uma ponte entre vários Brasis e várias épocas. Uma ponte entre o Brasil dos cangaceiros, do padre Cícero e da violência política entre clãs inimigos, que conheceu na infância, na Paraíba e o Brasil da inserção global, que encara com temor. Entre o Brasil do regime democrático da Constituição de 1946, ao qual serviu em sucessivos governos (Juscelino, Jânio, Jango), e o da redemocratização de 1985, ao qual serviu como ministro da Cultura, no governo Sarney, passando por cima do regime militar que o cassou, censurou e exilou.
Celso Furtado viu tudo, analisou tudo, conheceu todo mundo. Suas relações pessoais com presidentes da República vão de Epitácio Pessoa (1919-1922), que visitou uma vez no Rio, ele rapaz, Epitácio já velho e aposentado, a Fernando Henrique Cardoso, companheiro antigo, com quem manteve estreitas relações, até que a vida e as idéias os separassem. Celso Furtado das idéias e das análises, tão freqüente na imprensa, ou, pelo menos, não apenas esse Celso Furtado que recentemente proclamou ser "inevitável" a moratória da dívida externa brasileira, mas, principalmente, o Celso Furtado da memória dos homens que conheceu e das coisas que viveu.
Tem a vida entre os apartamentos do Rio de Janeiro e de Paris, cidade que acolheu Celso Furtado em diferentes versões -- do estudante dos anos 40 ao exilado dos 60, do professor de Desenvolvimento Econômico da Sorbonne, de 1965 a 1985, ao escritor que encontra hoje, na capital francesa, o melhor ambiente para escrever seus livros.
E declara: O Brasil assumiu riscos muito grandes. Eu, que há cinqüenta anos acompanho todo esse processo de perto e sempre acreditei muito no Brasil, estou seriamente preocupado. Estamos diante de escolhas tão graves que todas parecem apontar contra nós. Se o Brasil se afasta da globalização, perde. Se se aproxima com as mãos atadas, como está fazendo, por meio do Fundo Monetário Internacional, também perde.
A globalização é um imperativo tecnológico, não é nela em si que está o problema. A globalização é uma força acima de tudo, como foram a invenção da roda ou a Revolução Industrial do século XVIII. O problema é a maneira de se integrar a ela. O Brasil enriqueceu, se desenvolveu, está entre os dez países mais industrializados do mundo, mas mantém sua subordinação aos grandes centros, às decisões negociadas fora do país. Por outro lado, quebrar isso significa ir contra a História, porque a História moderna é a da integração. Só tem acesso à tecnologia quem participa do mercado mundial.
Segundo - Vera Alves Cepêda - doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, Celso Furtado é um autor controverso no debate intelectual brasileiro, oscilando de uma posição intelectual quase hegemônica a uma recusa formal de suas teses. Seus primeiros textos, principalmente depois da publicação de Formação Econômica do Brasil, tiveram grande impacto no debate econômico do período e influenciaram a produção acadêmica da geração de intelectuais que se formaram entre os anos 60 e 70.
Nos anos 80 e 90, Furtado passou à categoria de clássico, como um autor necessário para compreender a realidade das décadas que trataram o desenvolvimentismo e a transição da economia mercantil para a economia industrial. A preocupação com um projeto para o Brasil está presente como uma marca em todo o pensamento furtadiano, obedecendo ao diálogo que o autor tece com as variações da realidade que o cerca. O movimento de adequação permite classificar o conjunto da obra de Furtado em três momentos distintos: a fase otimista, o pessimismo espantado e a crítica renitente.
O primeiro bloco representa os trabalhos e a participação política compreendida desde o início da carreira de Furtado até o golpe de 1964. Sua principal característica era o sentimento de esperança, que partia do reconhecimento claro dos limites impostos pela herança colonial ao pleno desenvolvimento nacional, mas que enxergava nos anos 50/60 uma fissura estrutural capaz de permitir o salto para a modernização.
A segunda fase inicia-se com a cassação política e vai até os anos 70, e tem um sabor de amargura. O sentimento de derrota nasce da constatação de que venceu a pior alternativa histórica desenhada no início dos anos 60 - um regime político fechado. Mais adiante, este sabor amargo vai ser ainda mais acentuado pela rachadura aberta na teoria formulada por Furtado na véspera do golpe, de que regimes fechados levariam inevitavelmente ao estrangulamento econômico. Este diagnóstico não ocorreu como o previsto e, anos mais tarde, Furtado revê suas posições, introduzindo o conceito de modernização do subdesenvolvimento.
Os trabalhos posteriores à década de 70 avaliam que o crescimento da economia brasileira, durante o regime militar, conduziu à modernização do subdesenvolvimento. Ou seja, houve adoção de certos aspectos do capitalismo contemporâneo, como novos padrões de consumo, urbanização e surgimento de novos segmentos produtivos, mas, nos aspectos fundamentais, permaneceram defasados os padrões tecnológicos e a modernização da produção. Sem transformações profundas, distantes dos padrões de modernidade ficaram as questões dos direitos sociais, da participação política, da função social do Estado e o problema da democracia. O corte imposto pelo modelo de desenvolvimento do regime militar criaria um obstáculo ainda maior para uma verdadeira superação do subdesenvolvimento, servindo, ao contrário, para perpetuá-lo.
Os anos 80 inauguram a era das reminiscências. Celso Furtado organiza seu passado e ajusta as contas com a memória, a sua e a da geração desenvolvimentista. Terminada a tarefa documental de um dos momentos de maior importância para a história brasileira, respira fundo e parte novamente para o ataque frontal - retoma os temas dos anos 50/60 e os ajusta frente aos desafios e à aparência de progresso unânime apresentados pelo capitalismo globalizado. A economia capitalista desenvolvida de nossa época se configura como um sistema econômico-social com uma relativa aptidão para manter-se em equilíbrio dinâmico. O avanço da ciência, que se apresenta como função exponencial do próprio desenvolvimento econômico, assegura um permanente avanço da tecnologia. A formação de capital segue assim por um canal previamente aberto, tropeçando apenas com obstáculos institucionais decorrentes dos ajustamentos insuficientes ou atrasados do marco institucional que disciplina os distintos fluxos econômicos. Os principais desses obstáculos refletem a persistência de formas anacrônicas de distribuição da renda, que se traduzem em insuficiente vigor na demanda final para consumo ou investimento.
Os países subdesenvolvidos sofrem sérios obstáculos para a introdução dessa dinâmica. Não são atrasados porque não adentraram na modernidade, os principais entraves existentes nas economias subdesenvolvidas é a exigüidade da inovação tecnológica e a abundância na oferta de trabalhadores. Como o exército industrial de reserva é muito grande, não há pressões por elevação de salários nem por políticas de distribuição de renda. A grande oferta de mão-de-obra e os baixos salários acomodam os capitalistas, que não são obrigados a incorporar novas tecnologias nem a aumentar o rendimento do trabalho com base nas técnicas de capital intensivo. Há um raciocínio cíclico impedindo o desenvolvimento de se processar.
O resultado é um círculo vicioso - exército industrial de reserva; mão-de-obra barata; nenhuma distribuição de renda; nenhum incentivo ao investimento tecnológico; baixa produtividade; reforço do subdesenvolvimento. E voltamos ao ciclo infernal que caracteriza o subdesenvolvimento.
Caio Prado Júnior
Caio Prado Júnior, um dos principais representantes do pensamento marxista na filosofia e na teoria política brasileira — e certamente um dos precursores da moderna ciência social no Brasil-, é um pioneiro na utilização dos conceitos marxistas como fator explicativo para a compreensão da nossa história.
Em sua obra, que abrange, além da visada histórica e filosófica, aspectos da nossa geografia, sociologia, economia e política, a formação e o desenvolvimento da nacionalidade brasileira são analisados a partir do ponto de vista da herança colonialista e da questão agrária. Seus estudos procuram alcançar uma dinâmica dialética que dê conta das determinações de nosso passado colonial e investigue as perspectivas para um provável futuro dentro do contexto do capitalismo. Ainda que hoje seu pensamento possa parecer datado, sobretudo em virtude da queda do comunismo mundial, o alcance histórico de suas análises ultrapassa qualquer modelização típica do marxismo e apresenta grande validade contemporânea para o entendimento da sociedade brasileira.
"É nessa reação contra o esquematismo que Caio Prado Jr. se revela um autêntico historiador, atento à realidade e capaz de captar a especificidade do caso brasileiro."
"Caio Prado Júnior nos oferece dois excelentes livros sobre o Brasil […] é, para bem e para mal, um historiador nato. Trata-se de um observador habituado a checar as fontes, a confrontar a relação entre os fatos, a avançar com prudência e, principalmente, atento à vida múltipla dos homens, que confunde os teóricos, sempre caprichosos, mesmo em relação às causas mais profundas e determinadas..." (Fernand Braudel, Folha de S. Paulo)
Quanto à casa-grande, se é certo que seu núcleo é a família ou antes, a família do senhor, e só ele (da pequena, da minúscula maioria, portanto, e isso se esquece freqüentemente), e se, neste sentido, é um ambiente familiar que cerca o filho-rico da sociedade colonial, exceção, no conjunto, quase única; há que abrir larga margem para restrições se pelo conceito de família não entendermos apenas uma estrutura anterior, mas todo aquele complexo de normas, de "atmosfera" mesmo, que concede à família, nas sociedades da nossa civilização, o grande papel de formador dos indivíduos e de seu caráter.
Neste sentido, a casa-grande ficou muito aquém de sua missão. O sistema de vida a que dá lugar, a promiscuidade com escravos, e escravos do mais baixo teor moral, as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas, a indisciplina que nela reina, mal disfarçada por uma hipócrita submissão, puramente formal, ao pai e chefe, tudo isso faz a casa-grande, antes uma escola de vício e desregramento, apanhando a criança desde o berço, que de sua formação moral.
Gláucia Rodrigues Castelani e Luiz Fernando B. Belatto do Depto. de História-USP apresentam a visão deste notável brasileiro com o objetivo de apresentar a vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e que, até hoje, influencia gerações de pensadores de diversas áreas do conhecimento no Brasil.
Primeiro intelectual a utilizar as teorias marxistas no estudo da História Colonial do Brasil, destacadamente, analisar como essa visão está presente no seu principal livro, Formação do Brasil Contemporâneo, e dentro deste no texto introdutório Sentido da Colonização, torna-se um dos responsáveis pela renovação da historiografia e Ciências Humanas brasileiras nos anos 30.
Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. Pertencia à aristocrática família Prado, de certa tradição na sociedade paulista, dona de riquezas e importante participação na economia local. Assim, estudou no Colégio São Luís, realizando depois um ano de estudos secundários no Colégio Chelmesford Hall, em Eastborn (Inglaterra). Voltou para o Brasil para estudar Direito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde formou-se em 1928. Desde sua juventude teve importante participação na conjuntura política nacional; de tendências políticas contrárias ao velho Partido Republicano Paulista, que representava os interesses dos fazendeiros de café, que dominavam desde a proclamação de República o cenário político nacional.
Como oposição a essa corrente, formou-se em 1926, o Partido Democrático, que reuniu os adversários do Partido Republicano Paulista. O jovem Caio Prado Jr. inscreveu-se nele logo no ano de sua fundação, e nele atuou intensamente; foi essa sua primeira experiência política. Participou da Aliança Liberal que apoiou Getúlio Vargas em sua candidatura à presidência da República em 1930, a qual somente chegou ao poder por meio de uma revolução no mesmo ano. Desiludido com o plano político do Partido Democrático e do novo governo, em 1931 tornou-se membro do Partido Comunista e passou a trabalhar para a formação e organização de suas bases políticas junto ao proletariado.
Teve participação também na Intentona Comunista de 1935, sendo preso com a derrota desta e solto dois anos depois. Em 1937 vai para o exterior, exilando-se na França. Época essa do auge do nazi-facismo na Europa e da ascensão do franquismo na Espanha, com a Alemanha e Itália intervindo abertamente na Guerra Civil Espanhola.
Nesta, Caio Prado Jr. vai para a fronteira auxiliando os emigrados espanhóis a fugir do território através de uma organização montada pelo Partido Comunista Francês. Retorna ao Brasil em 1939. Mantendo-se ativo na militancia comunista (ainda que restrita) elege-se deputado estadual por São Paulo em 1947, mas foi cassado no ano seguinte quando o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade. Homem de negócios, fundou a Editora Brasiliense e a Gráfica Urupês. À primeira, fundada com Monteiro Lobato, em 1944. Pela editora publicou de 1955 a 1964 a Revista Brasiliense, editada por vários intelectuais.
Caio Prado Jr. candidatou-se à cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito do Largo São Francisco – embora conhecesse bem o conservadorismo do local, pois lá estudara e se formara -, escrevendo uma tese intitulada Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira. Sabia que não seria aprovado em função de suas posições socialistas, opostas demais a uma instituição tão conservadora. Deram-lhe o título de livre docente (1954), que lhe foi cassado mais tarde, em 1968. Mesmo assim, quando vagou a cadeira de História do Brasil na Faculdade de Filosofia, com a aposentadoria do seu titular, Sérgio Buarque de Holanda, candidatou-se novamente com o trabalho História e Desenvolvimento. O concurso não aconteceu, entretanto, devido ao Golpe Militar de 1964.
Caio Prado Júnior sempre dizia não saber história, no sentido de ignorar uma quantidade de datas e esquecer outras, se embrulhar nas dinastias e dar pouca importância às batalhas e detalhes. O que lhe interessava é a vida diária, a produção, o movimento dos negócios, as técnicas de plantio, os costumes, o mecanismo de transmissão da propriedade.
A curiosidade intelectual foi um traço inesgotável e essencial de sua personalidade, nunca manifestando desconforto ou preguiça ao enfrentar as precárias estradas e hotéis existentes no Brasil. Queria saber a verdade, conhecer de perto as relações de trabalho e de produção em cada recanto do país: defendia uma reforma agrária planejada, com o conhecimento das situações regionais. Motivava-o, basicamente, uma profunda perplexidade diante das desigualdades sociais. Em suas viagens pelos países industrializados, comparava a qualidade de vida, o nível cultural do camponês ou do operário de lá com o daqui, lamentando as desigualdades de nossas estruturas sócio - políticas que ainda mantinham e mantêm padrões de vida deploráveis para a maioria da população.
Quando tinha cerca de 18 anos e retornava de uma viagem que fizera sozinho ao Oriente Médio, desejou então conhecer o Brasil, viajando pelos estados interioranos. A visão que teve marcou-o profundamente. Assombrou-se com a miséria e subdesenvolvimento discrepante dos países considerados modelos do capitalismo industrial. Ao mesmo tempo, observou a diversidade regional deste país.
Sobre tal experiência, acrescentou: "Eu era na realidade um burguês rico, de educação e visão européia, acostumado ao conforto material. Ignorava até então a nossa realidade". Costumava dizer que naquele instante despertou-se para os problemas brasileiros e daí para os porquês daquilo e para suas soluções. A partir de então, começou o seu engajamento e o seu estudo sistemático do Brasil, adotando uma postura receptiva constante. Passou a trabalhar com o presente e o passado, em vista do futuro, perseguindo para sempre tais atividades.
Em 1934, Caio Prado Jr."descobriu" a geografia e sua utilidade, mérito que sempre atribuiu a Pierre Deffontaines, geógrafo francês que viera lecionar a matéria na recém inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Com o professor, viajou diversas vezes pelo Estado de São Paulo e participou da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil, a qual promovia encontros anuais dos especialistas e estudos regionais conjuntos. Dessa forma a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História, produzindo importantes estudos na disciplina.
Considerava suas prisões como oportunidades que a vida lhe proporcionou para aprendizagem, inclusive no sentido didático. Por ocasião de uma delas, aproveitou para tomar aulas de matemática, transmitiu seus conhecimentos aos companheiros e alfabetizou um operário.
E como pensador Caio Prado Júnior destaca-se como um dos principais representantes da utilização do marxismo no estudo da História e teoria política brasileiras. Sua obra abrange os campos da História, Geografia, Sociologia, Economia, Política e Filosofia.
Ela é composta pelos seguintes livros: Evolução Política do Brasil (1933); URSS: Um novo mundo (1934); Formação do Brasil Contemporâneo (1942), que é considerada sua principal obra, um clássico ensaio sobre a História Brasileira; História Econômica do Brasil (1945); Dialética do Conhecimento (1952); Diretrizes para uma Política Econômica (1954); Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica (1957); Introdução à Lógica Dialética (1959); O Mundo do Socialismo (1962); A Revolução Brasileira (1966), pelo qual recebe o título de Intelectual do Ano, sendo agraciado com o prêmio Juca Pato; História e Desenvolvimento (1968); O Estruturalismo de Lévi-Strauss - O Marxismo de Louis Althusser (1971); A Questão Agrária no Brasil (1979) e A Cidade de São Paulo (1983). Caio Prado Júnior morreu em 1990 devido a complicações de saúde conseqüentes de um aneurisma na artéria aorta.
Evolução Política do Brasil (1933) é a primeira obra de Caio Prado Júnior, e também a primeira análise marxista e materialista da história nacional. Curto ensaio de síntese da História do Brasil (da Colônia até o fim do Império). Apresenta um nova visão do passado: temas novos são abordados e outros antes esquecidos reaparecem.
No livro, Caio Prado Jr., prega e prova a não existência do feudalismo no Brasil (pois considera que desde o início da colonização nossa estrutura econômica é capitalista). O que mais se pode destacar é que ele dá uma nova análise às rebeliões regenciais, colocando-as como movimentos que tentaram romper a ordem colonial, considera-os como movimentos do povo, que procura melhorar as condições de vida e ocupar um espaço na nacionalidade (estruturas produtivas e sociais)
Diferentemente da historiografia oficial, Caio Prado Júnior vê tais movimentos como relativamente organizados e nascidos da vontade popular. Considera a Independência não como "emancipação", mas sim "libertação" surgida de um "arranjo político". Ou seja, preserva-se as instituições de mando e a ordem colonial; o povo mantém-se à parte da política nacional. E o livro coloca, pela primeira vez, o "povo" na História do Brasil como participante ativo da mesma.
História Econômica do Brasil (1945) é um texto interpretativo da formação econômica nacional, desde o período colonial até os anos 30 deste século,abordando nossa trajetória econômica. A Revolução Brasileira (1966) critica a atuação das forças de esquerda brasileiras. Ele aponta as falhas das propostas políticas da esquerda e como isso compromete o destino nacional. Critica, entre outros temas, a distância entre as análises do partido comunista brasileiro sobre o Brasil e nossa realidade. Da mesma forma, abre espaço para ressaltar a importância do povo na sociedade e história nacional. Para o autor, somente a ação popular, voltada para a realização de suas necessidades para a sobrevivência, pode revolucionar a sociedade brasileira. Uma sociedade mais voltada para si do que para o exterior (a superação do nosso "sentido" inicial definido no "Sentido da Colonização").
O sentido histórico de um povo é perceptível nos fatos mais importantes e essenciais de sua formação em determinado período de tempo. O sentido histórico pode variar, sob a influência de transformações internas profundas de equilíbrio e estrutura do povo; bem com acontecimentos externos estranhos a ele. Ou os dois juntos. Exemplo: Portugal, que até fins do século XIV se define com o objetivo de formar uma Nação lutando contra a invasão árabe e constituindo uma Monarquia.
Porém no século XV, a nação passa por uma mudança de sentido; com suas fronteiras estabelecidas e a centralização do poder nas mãos de um rei, o país se volta para o oceano; com isso, fomenta ao longo do tempo as navegações e, com as conquistas que promove, forma uma empresa colonial.
Em relação a tal problemática, Caio Prado Júnior afirma que para se compreender a história brasileira é preciso localizar o seu sentido, que se define na nossa formação colonial.
Para promover a análise com vias de achar nosso sentido histórico, o autor parte do início do século XIX. Considera tal período a "síntese" de nossa época como colônia, ou seja, um tempo no qual a obra colonizadora encerra-se e a sociedade começava a buscar outros rumos. O que possibilita tal corte é, para o autor, a continuidade estrutural e de organização que o Brasil teve durante seus três séculos de história colonial.
Sua proposta é, então voltar ao passado para entender nosso sentido, da mesma forma que encaixar nossa colonização e ocupação num processo maior: as navegações e descobertas dos séculos XV e XVI. O sentido histórico do Brasil relaciona-se a tal expansão. A colonização lusa na América não é um fato isolado, mas "a parte de um todo". É um acontecimento não facilmente analisável, pois envolve a compreensão dos anseios econômicos metropolitanos e as circunstâncias de momento histórico.
A colonização não ocorre espontaneamente ou naturalmente, mas é um capítulo relacionado aos Grandes Descobrimentos Marítimos, que se encaixa por sua vez na história do comércio europeu. Todas as políticas conquistadoras e colonizadoras dessa época têm em comum o caráter comercial: é sempre desejando o tráfico de mercadorias que os europeus produzem tal obra. Não é possível entender isso tudo sem uma análise do movimento maior da expansão marítima e comercial da Europa.
Em virtude do caráter mercantil inicial, não há preocupação com o povoamento. O objetivo é somente as atividades mercantis imediatas, o que a América portuguesa não poderia proporcionar naquele momento para comércio imediato. Além disso, a Europa não possuía excesso populacional que viabilizasse a colonização. O que se tem são, inicialmente, simples feitorias que praticam escambo com indígenas e defendem a terra.
O grande processo colonizador virá com a queda do comércio com as Índias e a necessidade de gerar novas fontes de riqueza. A idéia de povoar surge então da tentativa de promover atividades econômicas que gerassem lucros à Metrópole, sendo também capaz de abastecer e manter as feitorias encarregadas desse processo e defender a área. Em relação às outras nações européias, Portugal foi pioneiro nisso. Mas perdeu sua posição de maior potência colonial para ingleses e franceses, com o desenvolvimento destes nos séculos seguintes. O novo sistema colonizador é moldado de acordo com o que o território oferece. O autor propõe a divisão da América em duas áreas de colonização:
1- Temperada – colonizada por camponeses e perseguidos religiosos europeus – seu caráter é constituir "um novo mundo", pois seus habitantes não são traficantes e aventureiros, mas pessoas expulsas de sua terra. Além disso, dirigem-se a uma área de características semelhantes às da Europa, e que portanto não ofereciam bens de interesse comercial. Forma-se uma colonização não voltada para o fornecimento de produtos para o comércio.
2- Tropical – repele o colono do tipo temperado, ou seja, "regular" – (pois o meio era diferente e desconhecido, oferecendo dificuldades de adaptação). Os poucos que vem para cá vão se adaptando com as gerações seguintes. Assim, um novo caráter colonizador é construído. A colonização dos trópicos será realizada em função dos produtos exóticos e diferentes não existentes na Europa que podem fornecer (açúcar, tabaco, pimenta, etc.). este será o estímulo do colono para vir a uma região desconhecida e prover a obra colonizadora. Deseja a riqueza imediata e que custa pouco esforço. Assim, virá para ser dirigente da empresa comercial produtora de bens agrícolas, e não o seu trabalhador
A força de trabalho nos trópicos, assim, será o escravo negro. Influi para isso mais uma vez, a escassa população da Península Ibérica, que impedia a vinda de grande número de colonos. Mas o fato de que já se usava (principalmente em Portugal) escravos negros vindos da África nos trabalhos agrícolas e urbanos. Assim, o negro virá das colônias africanas para abastecer as lavouras coloniais americanas, que por sua vez estão organizadas no regime de grande propriedade e monocultura tudo isso voltado exclusivamente para o abastecimento europeu.
A sociedade que se origina nos trópicos será original, ou seja, especializada na produção de bens agrícolas de grande valor para o comércio europeu. Nunca se tentara isso; será a "empresa do colono branco", que comandará a produção e subjugará o trabalho de "raças inferiores" (negros e índios). Tudo nessa sociedade se dá em função disso: exploração de recursos naturais por uma vasta empresa comercial produzidos em latifúndios monocultores que usam mão-de-obra escrava. É este o sentido da colonização tropical, do qual o Brasil é uma das resultantes; ele explicará nossa formação histórica e evolutiva tanto no campo econômico quanto no social.
O autor afirma que, se vamos à essência da nossa formação, perceber-se-á que o país se constituiu para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros; ouro e diamantes; algodão e depois café para os mercados externos. Isso caracterizou a colônia ao longo de três séculos, dispondo de todas as estruturas e atividades sociais e econômicas para seu desenvolvimento.
O resultado final é que nossa sociedade e economia são moldadas em função desse sentido, o qual se prolonga e se faz notar na nossa evolução até o momento em que o livro foi escrito (1942). Para Caio Prado Júnior, compreender nosso sentido é entender a realidade brasileira, sua formação e problemáticas e é isso que ele se propõe a demonstrar no decorrer da obra.
Caio Prado Jr ao aplicar a ciência marxista na análise da História Brasileira, como um processo: os fatos passados se relacionam e se fazem existentes no presente, e ambos tempos servem de base para se chegar a um futuro, o que ao longo de Formação do Brasil Contemporâneo, o caráter colonial permanece na estruturação da sociedade brasileira.
O passado fazia-se notável no presente do país, mesmo mais de um século de Independência, como uma sombra e característica fundamental, implantada na formação nacional. O sentido da formação e evolução histórica brasileira definiu-se para fornecer bens agrícolas tropicais para o comércio europeu.
É isso que afirma Sérgio Silva em seu ensaio A crítica ao Capitalismo Real: para Caio Prado, a diversificação das atividades produtivas e a industrialização trazem modificações para a economia nacional e contribuem para a superação da velha ordem colonial (produtor de gêneros agrícolas). No entanto, ao mesmo tempo que o elimina gradativamente o reforça, pois a produção ainda se destina ao mercado externo; muitas pessoas ficam excluídas do mercado consumidor e produtivo; essa produção é regida pelos interesses do mercado internacional e por conglomerados imperialistas.
Não se tratava somente de industrializar, mas acima de tudo voltar a produção e economia nacional às necessidades do mercado interno, da nacionalidade, e integrar a população brasileira a esse processo dinâmico produtivo.
Nossa sociedade foi moldada por tal sentido, que representa um modo de produção característico. Este modulará, em conseqüência, um modo de vida. Esta idéia foi expressa por Marx em A Ideologia Alemã:
"O modo pelo qual as pessoas manifestam sua vida reflete muito exatamente o que elas são. Tal modo de ser coincide portanto com sua produção, tanto com o que produzem como o modo pelo qual produzem. O que as pessoas são depende, portanto, das condições materiais de sua produção".
Dessa forma, a presença do latifúndio agrário, do caráter exportador da nossa economia, da força da monocultura em muitas áreas agrícolas, nem mesmo a industrialização modificou essa situação: para Caio Prado Jr., o caráter externo de nossas bases econômicas e sociais permaneceu, visto que a produção industrial passou a ser exportada, e não destinada ao consumo interno.
Da mesma forma, se analisarmos o grosso das exportações brasileiras, ver-se-á que, para as nações européias, continuamos basicamente um grande fornecedor de produtos agrários.
O Materialismo Histórico considera a produção dos bens materiais necessários à existência dos homens – a estrutura econômica da sociedade – como a força principal que determina toda a vida social humana e condiciona a transição de um regime social a outro.
Dessa forma, a História nasce da constante relação homem-natureza, envolvendo a produção dos recursos necessários para a satisfação das suas necessidades. Com a multiplicação da espécie e seu desenvolvimento, o homem sempre está estabelecendo novas necessidades, gerando assim outras relações com a natureza e novos sistemas sociais. Como tal processo é constante.
Fernando Novais considera em seu livro Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial que o papel que justifica e explica o surgimento e funcionamento das colônias é a geração de recursos por meio do comércio de produtos agrícolas que elas produzam e da venda de manufaturas metropolitanas para as mesmas. Ou seja, gerador da acumulação primitiva de capitais, sendo estes surgidos do movimento comercial e empregados no processo de avanço tecnológico das manufaturas para as máquinas (quando o capital gerado a partir da produção das máquinas é denominado industrial).
Essa transformação leva o Antigo Regime a uma crise estrutural e econômica, e o Capitalismo Comercial dá lugar ao Capitalismo Industrial, centrado no lucro fabril.
Dessa forma, o papel da colonização dos trópicos, inicialmente, é montar bases estáveis para a produção de bens agrícolas que gerassem lucros mercantis às suas metrópoles. A acumulação que esse regime proporciona leva, mais tarde, ao inevitável incremento tecnológico e ao deslocamento do gerador de capital: este passa a ser fruto da fábrica e da produção em série das máquinas.
Numa palavra, a Revolução Industrial, que inaugura um novo regime econômico, social e produtivo na Europa. Portanto, o fundamento das colônias ao longo da história é produzir lucros mercantis e servir como escoadouro da produção manufaturada mercantil.
O Brasil é parte da engrenagem desse sistema: essa é a visão pradiana que é explicitada no Sentido e abordada no decorrer da obra. As contradições e deficiências do Capitalismo Comercial geraram outro Capitalismo, que na essência mantém os mesmos parâmetros de funcionamento mas possui certas diferenças. As colônias não mais geram capital, mas sim fornecem matérias-primas para as indústrias; da mesma forma, é mais lucrativo dispor delas não como territórios acoplados à metrópole, mas como países cujas economia sejam dela dependentes.
E, claro, o advento do Capitalismo Industrial engloba a luta de classes: destacadamente entre realeza e burguesia, na qual a segunda exige liberdade para exercer suas atividades, e não mais ser limitada e explorada por um rei absolutista e dominador.
Assim, as contradições, novas conjunturas e luta de classes levam às transformações e modificação do sistema produtivo-econômico próprio do Antigo Regime, característico do Brasil Colonial.
Desta forma o pensamento de Caio Prado Jr. referente a entender o Brasil repúblicano e ditatorial devemos ter análises do período colonial, do qual configura a formação econômica do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda
Juntamente com Celso Furtado e Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902, foi um dos "explicadores do Brasil", isto é, alguém que, por meio de um respeitável obra, procurou tornar o país mais inteligível aos próprios brasileiros. Seu interesse oscilou entre a literatura e a história, sempre abordadas pelo viés da sociologia, especialmente a da escola alemã, mais precisamente a de Max Weber.
Hoje, Sérgio Buarque de Holanda, falecido em 1982, é considerado um dos mais eminente intelectuais brasileiros do século XX.
Sérgio Buarque de Holanda, saindo com a mulher e amigos nas noites de sábado no Rio de Janeiro, tinha um meio infalível de conseguir uma boa mesa num restaurante. Chegando-se ao maitre dizia: "Sou o pai do Chico!" Palavras mágicas que, testemunhou Raymundo Faoro, faziam com que de imediato providenciassem um lugar para o historiador e seus convivas. O próprio Sérgio Buarque, cujo centenário de nascimento comemora-se no dia 11 de julho de 2002, divertia-se com aquilo, comprovando assim a eficácia de uma das suas teses famosas: a da inata cordialidade do homem brasileiro.
Quando ele a defendeu, nos idos dos anos trinta ( é o 5º capitulo do Raízes do Brasil, publicado em 1936), desabaram críticas. Para os integralistas, os fascistas brasileiros de então, a concepção dele era desvirilizante, pois eles preferiam um varonil bandeirante como característica nacional. Alguém como Domingos Jorge Velho ou Pai Pirá, descritos na Marcha para o Oeste de Cassiano Ricardo, paulista como Sérgio, editado em 1940, uns fura-matos que, com trabuco na mão, facão na cintura e muita crueldade, enfiando-se pelos sertões, dilataram as fronteiras nacionais no peito e na raça.
Para os comunistas, ao revés, sempre cultivando a revolta, a insurgência das massas, a idéia da cordialidade cheirava a submissão, a conformismo, a conluio com as oligarquias. O tipo ideal deles era o Cavaleiro da Esperança exaltado por Jorge Amado, em edição de 1942, o herói a cavalo que, com pouca munição e muita coragem abalara fundo o agreste injusto e bárbaro, como fizera Luís Carlos Prestes com sua coluna rebelde. Mas assim era Sérgio Buarque, avesso aos extremos, sentia-se mais seguro nas sendas do liberalismo.
A cordialidade....a lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam com efeito um traço definitivo do caráter brasileiro..."Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil, 1936
Historiador e amante da literatura, entre os alemães que então estavam em moda, decidiu-se por Max Weber e por George Simmel, textos de quem ele privou diretamente quando da sua estada na Alemanha entre 1929-1930. Daí a preocupação dele, recorrendo à sociologia weberiana, em identificar entre os ocupantes do Novo Mundo os "tipos ideais" , cunhando então as figuras do semeador e do ladrilhador, para melhor distinguir a colonização lusitana da espanhola.
Ao contrário de Gilberto Freyre, que exaltara a adaptabilidade do português no trópico, Sérgio Buarque queixou-se, veemente, da má vontade deles para com as letras, para com a imprensa e a educação, deixando o Brasil colônia mergulhado por três séculos numa ignorância estratégica. Viu-os como simples semeadores que mal queriam sair do litoral, os "caranguejos" do Padre Antonil, feitores criando arraiais e vilarejos ao deus-dará, espremidos por latifúndios gigantescos, bem ao contrario do ladrilhador espanhol que , este sim, embrenhou-se no coração da América, ocupando-a com cidades planejadas, abrindo escolas, gráficas e universidades, desbugrando o Novo Mundo.
Atribuiu a eles, aos lusos, este nefasto gosto nosso pelo palavreado sem freio, sonoro mas nem método, o cultivo da inteligência como ornamento, sem aplicação útil, a busca bocó pelo anel de grau, a " equivaler a autênticos brasões de nobreza." E, claro, o pavor à técnica e às artes mecânicas em geral, vistas sempre como atividades inferiores, indignas de um homem de bem. Para Sérgio Buarque, o momento crucial da historia social do Brasil dera-se com a Abolição.
A partir de 1888, desencadeara-se uma revolução silenciosa rumo a um progresso material e moral, fazendo com que os demais acontecimentos políticos nacionais (tal como a Revolução de 1930, que ele, como paulista, não devotou simpatias), não passassem de tumultos e afobações inconseqüentes. Viu o Brasil, desde a Lei Áurea, movendo-se como um grande rio de planície, que, no seu fluir, arrasara a casa grande & senzala, deslocando a sociedade brasileira do mundo rural para o mundo urbano, arrastando em seu lento cataclismo o Império, apagando com isso os vestígios do nosso passado ibérico.
Estava em formação algo novo, uma alquimia ainda pouco conhecida, talvez ilusoriamente americano, dominado pelas cidades, que, rompidas com a antiga ordem agrária, reclamavam agora sua soberania, a querem vida própria, a terem a primazia de tudo. Porém, o grande drama, persistente, ainda se impunha.
Como, inquietava-se Sérgio Buarque, implantar uma ordem e uma cultura européia num território tão vasto e tão estranho aos ditames da razão e do método? Pois, como ele assegurava, "somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra", tendo contra nós um outro clima e uma outra paisagem. E, além disso, descendíamos de dois países bem pouco europeus, Portugal e Espanha, que eram destacados amantes do personalismo, chegando as raias da anarquia, avessos à instituições solidárias, o que levava à frouxidão da estrutura social e à falta da hierarquia organizada. Desafio para colossos que, entretanto, repousa nos ombros estreitos de todos nós. Ao comentar o destino que previa para os integralistas, uma força política nos anos trinta, foi lapidar e profético ao dizer que eles, como qualquer outro partido que representava interesses ou de ideologia, se estiolariam, pois "a tradição brasileira nunca deixou funcionar os verdadeiros partidos de oposição".
O "achamento" do Brasil pela frota de Pedro Alvares Cabral não teve efeitos imediatos, nem para os lusos nem para os nativos. Somente meio século depois, com a instalação de um governo-geral na Bahia em 1549, é que pode dizer-se que seu descobrimento começou a gerar proveitos. A razão disso é que a Coroa Manuelina estava mais interessada no comércio com as Índias, devotando suas energias para a instalação de uma atividade regular com Calicute e outras feitorias, bem como não terem encontrado os portugueses nenhum metal precioso no território recém conhecido. Assim, o Brasil foi considerado em seus princípios apenas como uma paradouro, eventualmente a recorrer-se, na "carreira para as Índias"
Tanto é que a frota de Cabral, partiu uns dias depois ao da missa. Quanto ao descobrimento ter sido causal ou não, como colocou em duvida o escritor brasileiro Joaquim Norberto, parece-nos hoje uma discussão ociosa, bem como aquelas outras afirmações de ter sido o litoral brasileiro desbravado antes por outros navegadores, tais como Jean Cousin, Martim Behaim ou Vicente Pinzón. "Paz do esquecimento" recomendou Oliveira Martins "a todas as quimeras!"
Pensador de idéias graves e um dos mais alegres homens de sua geração. Jornalista, boêmio, crítico literário e historiador profundo, o maior deles, das nossas raízes brasileiras. Sérgio Buarque de Holanda, e sua obra, saborosa pelo estilo, legado de escritor, mantém-se um desafio para toda pessoa que se dispuser a entender o Brasil. A sua memória continua a inspirar a polêmica, em seminários e novos livros, com o leque de fontes para a discussão ampliado pelos textos garimpados, nos últimos anos, em seu extenso arquivo, com muitos inéditos, que continuam a vir à tona.
A viagem pelo arquivo, mantido desde meados dos anos 80 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é o encontro com um homem de biografia multifacetada, pai dos sete filhos que teve com Maria Amélia - alguns ilustres, como Miúcha e Chico - e autor de uma obra complexa, na qual o pensamento se desdobra em caminhos inesperados, que causaram muita perplexidade. Até o fim da vida, dr. Sérgio, como era chamado, viu-se obrigado a explicar uma idéia que tivera nos seus 30 e poucos anos, lançada no arrebatador "Raízes do Brasil", de 1936, quando afirmou que o brasileiro é o homem cordial.
"Já refutei essa tese", diria, numa entrevista de 1958 à "Tribuna da Imprensa" que pode ser lida no arquivo. "Hoje eu não usaria essa expressão, porque é ambígua", voltaria a reiterar à "Folha de São Paulo" em 1977. "Nunca disse que o brasileiro é bonzinho. O sujeito pode ser mauzinho e mauzão", brincou ele na conversa. Na segunda edição de "Raízes", em 1947, Sérgio Buarque já acrescentara uma nota, para afastar controvérsias: "A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado".
Na sociedade onde vive o homem cordial, diria ele no livro, cada indivíduo "afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas". O homem cordial, generoso e hospitaleiro no trato, é na verdade superficial, apegado às aparências. Abre flanco aos personalismos, segundo ele, um dos fundamentos da sociedade brasileira. - É um livro muito polêmico, mas os bons livros são polêmicos. É um mérito ser assim depois de tanto tempo. A cada geração, "Raízes do Brasil" faz pensar. Incomoda porque essa noção de cordialidade não é uma essência, mas resulta de um longo processo histórico de mudança.
A cordialidade é sobretudo um alerta, não se trata de uma verificação feliz, é algo que precisa ser alterado - afirma a antropóloga Lilia Schwarcz, autora, entre outros, de "As barbas do imperador", sobre d. Pedro II, em que lançou mão de muitas lições aprendidas com o mestre.
Na Unicamp, pode-se consultar a biblioteca de Sérgio Buarque, com 8.513 livros, 600 obras raras, sua rica correspondência, cadernos e blocos de anotações, recortes de jornais, fotografias. O próprio Sérgio, pesquisador acurado que era, iria se sentir radiante diante de acervo tão rico (complementado pelo site www.unicamp.br/siarq/sbh).
O historiador Edgar de Decca, que preside a comissão da Unicamp para a celebração do centenário, estuda há quatro anos uma dissertação de mestrado inédita de Sérgio Buarque, "Elementos formadores da sociedade portuguesa na época dos Descobrimentos", de cerca de 150 páginas, que gostaria de ver publicada. A tese foi defendida em 1958 na Escola Livre de Sociologia de São Paulo.
Para prestar o concurso para professor de História da Universidade de São Paulo (USP), no mesmo ano, Sérgio Buarque precisava apresentar títulos acadêmicos (ele era formado em direito). Segundo De Decca, o texto inédito complementa "Visão do paraíso", a tese que o professor apresentou no concurso de admissão na USP e que se tornaria, para muitas pessoas, seu mais belo e importante livro. Em "Visão do paraíso", Sérgio Buarque trabalha no plano das mentalidades dos portugueses no tempo dos Descobrimentos. Já em "Elementos", ele estuda o lado mais material dessa cultura, mostra o vazio do interior de Portugal, de forte cultura marítima - conta De Decca.
Modernista de primeira ordem, Sérgio Buarque, aos 20 anos, foi o correspondente da inovadora "Klaxon" no Rio, em 1922. Com Mário de Andrade, manteve uma contínua correspondência, que iria até o fim da vida do autor de "Macunaíma". As cartas trocadas serão publicadas em breve pela Edusp, em livro preparado pelo professor de literatura de Princeton Pedro Meira Monteiro, autor de "A queda do aventureiro", sobre o legado de Sérgio Buarque, e a pesquisadora Vera Neumann. Muitas das cartas encontram-se no arquivo de Campinas. Mário de Andrade elegeu Sérgio Buarque como consultor de questões históricas, no tempo de sua pesquisa sobre folclore. É impressionante acompanhar como ele insistia em algumas perguntas a Sérgio, até que ele respondesse - conta Pedro Meira.
Com a modernização do Brasil, acreditava Sérgio Buarque que muitos dos arcaísmos e vícios do país poderiam ser superados. Segundo Antonio Arnoni Prado, organizador do fundamental "O espírito e a letra", que reúne a maior parte das críticas literárias publicadas pelo pensador em jornais, o projeto de Sérgio Buarque para o futuro do Brasil era uma interrogação. Sérgio Buarque abriu caminhos para se pensar o Brasil na sua singularidade exótica, excluída, diferente, desigual, errada, mas nossa - declara Arnoni.
Gilberto Freyre
" Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro." Mestre Gilberto Freyre... Escritor pernambucano, morador de Apipucos, no Recife. Era descendente de senhores de engenho. Conhecia bem os casarões... Em 1933, após exaustiva pesquisa em arquivos nacionais e estrangeiros, Gilberto Freyre publica Casa-Grande & Senzala, um livro que revoluciona os estudos no Brasil, tanto pela novidade dos conceitos quanto pela qualidade literária.
Gilberto Freyre foi buscar nos diários dos senhores de engenho e na vida pessoal de seus próprios antepassados a história do homem brasileiro. As plantações de cana em Pernambuco eram o cenário das relações íntimas e do cruzamento das três raças: índios, africanos e portugueses. Em Casa-Grande & Senzala, o escritor exprime claramente o seu pensamento. Ele diz: "o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada" . Os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos.
Casa-Grande & Senzala foi a resposta à seguinte indagação que eu fazia a mim próprio: o que é ser brasileiro? E a minha principal fonte de informação fui eu próprio, o que eu era como brasileiro, como eu respondia a certos estímulos."
Havia tempos Gilberto Freyre procurava escrever sobre o ser brasileiro. Pressões políticas e familiares o levaram, entre 1930 e 1932, a viver o que chamou de "a aventura do exílio". Partiu para a Bahia e pesquisou as coleções do Museu Afro-Brasileiro Nina Rodrigues e a arte das negras quituteiras na decoração de bolos e tabuleiros. Observou que a culinária baiana era neta da velha cozinha das casas-grandes. Depois da Bahia partiu para a África e Portugal. Iniciou em Lisboa as pesquisas e estudos que sedimentariam o livro Casa-Grande & Senzala. De Portugal foi, como professor visitante, para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde viajou pelo Sul e pôde constatar a existência, durante a colonização americana, do mesmo tipo de regime patriarcal encontrado no nordeste brasileiro. Durante o período de estudos na universidade americana, o escritor elaborou uma linha de pensamento que diferenciava raça e cultura, separava herança cultural de herança étnica; trabalhou o conceito antropológico de cultura como o conjunto dos costumes, hábitos e crenças do povo brasileiro.
Portugal, um país largamente marítimo, recebia sempre povos de todos os lugares do mundo. Seus portos eram rota de comércio e de migrações. O contato com estrangeiros estimulava, no povo português, tendências cosmopolitas, imperialistas e comerciais.
Na Península Ibérica as raças se misturavam havia milênios. O encontro das culturas árabes e romana impregnava a moral, a arte, a economia e a vida do português. Os árabes - excelentes técnicos navais - e os judeus - financistas e com altos cargos de administração, no conselho real -, emprestavam conhecimento e dinheiro para o empreendimento das navegações e dos descobrimentos.
A burguesia comercial ganhava mais poder que a aristocracia territorial portuguesa e buscava no além-mar terras e riquezas nunca exploradas. Além da mobilidade, o português tinha a capacidade de se misturar facilmente com outras raças. Os homens vinham sem família, sozinhos. Chegavam carentes de contato humano e começavam a se reproduzir primeiro com as índias e depois com as negras escravas. Era preciso povoar o território. No momento em que embarcou na aventura ultramarina, Portugal tinha três milhões de habitantes. O Brasil era imenso; então, como povoar esse território?
Num processo de equilíbrio de antagonismos, o branco e o negro se misturavam no interior da casa-grande e alteravam as relações sociais e culturais, criando um novo modo de vida no século XVI. As relações de poder, a vida doméstica e sexual, os negócios e a religiosidade forjavam, no dia-a-dia, a base da sociedade brasileira.
A casa-grande abrigava uma rotina comandada pelo senhor de engenho, cuja estabilidade patriarcal estava apoiada no açúcar e no escravo. O suor do negro ajudava a dar aos alicerces da casa-grande sua consistência quase de fortaleza. Ela servia de cofre e de cemitério. Sob seu teto viviam os filhos, o capelão e as mulheres, que fundamentariam a colonização portuguesa no Brasil. Embora diretamente associada ao engenho de cana e ao patriarcalismo nortista, a casa-grande não era exclusiva dos senhores de engenho. Podia ser encontrada na paisagem do sul do país, nas plantações de café, como uma característica da cultura escravocrata e latifundiária do Brasil.
O clima tropical e as formas agressivas de vida vegetal e animal impossibilitavam a implantação de uma cultura agrícola, nos moldes do costume europeu. O português teve então de mudar seus hábitos alimentares. A mandioca substituía o trigo; no lugar das verduras, o milho; e as frutas davam um colorido novo à mesa do colonizador. Mas sua dieta ficava empobrecida, devido à ausência de leite, ovos e carne, que só apareciam em datas especiais, festas e comemorações.
A terra foi usada para o cultivo da cana em detrimento da pecuária e da cultura de alimentos, o que provocou a apatia, a falta de robustez e a incapacidade para o trabalho. Males geralmente atribuídos à mestiçagem. Os portugueses não traziam para o Brasil nem separatismos político, nem divergências religiosas, e não se preocupavam com a pureza da raça. Assim o país se formava. E a unidade dessa grande extensão territorial com profundas diferenças regionais, garantida muitas vezes com o uso da força, aconteceu devido à uniformidade da língua e da religião.
A Igreja desenvolvia planos ambiciosos de evangelização da América Latina, toda ocupada por países de tradição católica. Nessa quase cruzada no Novo Mundo, os padres jesuítas desempenhavam um papel importante na tentativa de implantar uma sociedade estruturada com base na fé católica. Para catequizar os índios, os jesuítas decidiram vesti-los e tirá-los de seu hábitat. Já o senhor de engenho tentava escravizá-los.
Nos dois casos, o resultado era o extermínio e a fuga dos primitivos habitantes da terra para o interior. A sociedade brasileira, entre todas da América, era a que se formava com maior troca de valores culturais. Havia um aproveitamento de experiências dos indígenas pelos colonizadores. Mesmo quando inimigo, o índio não provocava no branco uma reação que levasse a uma política deliberada de extermínio, como a que ocorria no México e Peru.
A reação dos índios ao domínio do colonizador era quase contemplativa. O português usava o homem para o trabalho e a guerra, principalmente na conquista de novos territórios, e a mulher para a geração e formação da família. Esse contato provocava o desequilíbrio das relações do índio com o seu meio ambiente.
"A grande presença índia no Brasil não foi a do macho, foi a da fêmea. Esta foi uma presença decisiva, a mulher índia tomou-se de amores pelo português, talvez até por motivos fisiológicos, porque, segundo pude apurar quando escrevi Casa Grande & Senzala, as sociedades ameríndias ou índias, inclusive a brasileira, eram sociedades que precisavam de festivais como que orgiásticos para provocar nos homens, nos machos, desejos sexuais. O que há de acentuar é o grande papel da índia fêmea na formação brasileira, essa índia fêmea não só através do relacionamento mencionado sexual, mas através do papel social que ela começou a desempenhar magnificamente, tornou-se uma figura capital na formação brasileira."
A união do português com a índia havia gerado os mamelucos que atuavam como bandeirantes e, junto com os índios, formavam a muralha movediça da fronteira colonial. O mameluco e o índio, que excediam o português em mobilidade, atrevimento e ardor guerreiro; que defendiam o patrimônio do senhor de engenho contra o ataque de piratas estrangeiros, nunca firmaram as mãos na enxada. Os pés de nômades não se fixavam na plantação da cana-de-açúcar.
Dos costumes dos primitivos habitantes da terra eram as relações sexuais e de família, a magia e a mítica que marcavam a vida do colonizador. A poligamia e a sexualidade da índia iam ao encontro da voracidade do português, ainda que a vida sexual dos indígenas não se processasse tão à solta quanto o relatado pelos viajantes que aqui estiveram. Para as tribos mais primitivas, a união do macho com a fêmea tinha época; o costume de oferecer mulheres aos hóspedes era prática de hospitalidade, quase um ritual. A mulher nativa resgatava o sonho da ninfa, que se banhava no rio e penteava os longos cabelos negros. Uma imagem deixada pela invasão moura na Península Ibérica e adormecida no inconsciente do português.
Os portugueses davam uma contribuição criativa ao novo mundo através da produção de açúcar. E implantavam um sistema econômico que aprenderam com os mouros durante a ocupação da Península Ibérica. Os mouros, de grande tradição agrícola, introduziram a laranjeira, o limoeiro e a tangerina e implantaram a tecnologia do fabrico do açúcar em Portugal. O engenho mouro é avô do engenho pernambucano. Essa contribuição criativa é que diferenciava o português do holandês e do francês, que para cá traziam apenas aperfeiçoamentos tecnocráticos.
O choque das duas culturas, a européia e a ameríndia, no Brasil colônia, se dava mais lentamente, tanto a Igreja quanto o senhor de engenho fracassavam nos esforços de enquadrar o índio no sistema de colonização que iria criar a economia brasileira. Fora de seu hábitat natural, o índio não se adaptava como escravo: morria de infecções, fome e tristeza. Para suprir a deficiência da mão-de-obra escrava, os senhores de engenho de Pernambuco e do Recôncavo baiano começavam a importar negros caçados na África.
Agora, as escravas negras substituíam as cunhãs tanto na cozinha como na cama do senhor. Na agricultura, a presença do negro elevava a produção de açúcar e o preço do produto no mercado internacional. O Brasil, esquecido por quase duzentos anos, despertava finalmente o interesse do Reino de Portugal. Entre os africanos que vinham para o Brasil, eram os negros muçulmanos, de cultura superior não só à dos índios como também à da maioria de colonos brancos, que aqui chegavam e viviam quase sem nenhuma instrução, que para escrever uma carta necessitava da ajuda do padre-mestre.
O movimento malê da Bahia, em 1835, foi considerado um desabafo da cultura adiantada, que era oprimida por outra menos nobre. Contava-se que os revoltosos sabiam ler e escrever em alfabeto desconhecido. Eram negros que liam e escreviam em árabe. "Pode-se juntar à superioridade técnica e de cultura dos negros sua predisposição como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto pelo sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical."
O Brasil importava da África não somente o animal de tração que fecundou os canaviais, mas também técnicos para as minas, donas de casa para os colonos, criadores de gado e comerciantes de panos e sabão.Os negros vindos das áreas de cultura africana mais adiantada eram um elemento ativo, criador e pode-se dizer nobre na colonização do Brasil, degradados apenas pela condição de escravos. O negro escravo e a cana-de-açúcar fundamentavam a colonização aristocrática e a estrutura básica do mundo dos coronéis se repetiria nos ciclos do ouro e do café, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com o mesmo fundamento: a ocupação da terra.
Na sociedade escravocrata e latifundiária que se formava, os valores culturais e sociais se misturavam à revelia de brancos e negros. Sua convivência diária favorecia o intercâmbio de culturas e gerava sadismos e vícios, que influenciavam a formação do caráter do brasileiro. A escravatura degradava senhores e escravos.
A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. Além dos trabalhos forçados, ele era usado como reprodutor de escravos: era preciso aumentar o rebanho humano do senhor de engenho. As crias nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja, esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado ao negro. A mulher escrava fazia a ponte entre a senzala e o interior da casa-grande e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelo sinhô para serem concubinas e domésticas.
Objeto dos desejos sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados. Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas que normalmente estariam destinadas à mãe de família. As damas da sociedade se casavam entre os doze e os quinze anos com homens muito mais velhos. Cedo se casavam e cedo morriam por causa de sucessivos partos ou se tornavam matronas aos dezoito anos. O ócio e a vida reclusa faziam das sinhás mulheres amarguradas. E ignorantes: era raro encontrar uma que soubesse ler e escrever. "Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas.
O Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado. A contaminação da sífilis em massa ocorreria nas senzalas, mas não que o negro já viesse contaminado. Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram as negras das senzalas. Por muito tempo dominou no Brasil a crença de que para um sifilítico não há melhor depurativo que uma negrinha virgem."
Os senhores de engenho casavam-se sucessivas vezes, sempre preferindo as jovens sobrinhas; exagerava-se, então, o sentimento da propriedade privada. As heranças eram disputadas por filhos legítimos e parentes próximos. Aos filhos bastardos, gerados nas casa-grande e paridos na senzala, restava a tolerância do senhor, que ao morrer os libertava. Nomes e sobrenomes se confundiam: os escravos mais próximos, que ganhavam a simpatia do senhor, conseguiam adotar o sobrenome dos brancos. Na tentativa de ascensão social, os negros imitavam dos senhores as formas exteriores de superioridade. Mas muitos nomes ilustres de senhores brancos vinham dos apelidos indígenas e africanos das propriedades rurais - a terra recriava os nomes dos proprietários à sua imagem e semelhança.
A música, o canto e a dança dos escravos tornavam a casa-grande mais alegre. A risada do negro quebrava a melancolia e o silêncio infinito do senhor de engenho. As mães negras e as mucamas, aliadas aos meninos, às moças das casas-grandes e aos moleques, corrompiam o português arcaico ensinado pelos jesuítas aos filhos do senhor. A nova fala brasileira não se conservava fechada nas salas de aula das casas-grandes, nem se entregava de todo à maior espontaneidade de expressão da senzala. Mas o modo carinhoso do brasileiro colocar os pronomes: me diga, me espere... vem do africano. Também do seu modo de falar ficaram as formas diminutivas: benzinho, nézinho, inhozinho.
A culinária da senzala aproveitava as sobras de carnes da casa-grande, usava o aipim indígena e as verduras, misturava aos temperos africanos, principalmente o dendê e a pimenta malagueta. Surgiam a feijoada, a farofa, o quibebe, o vatapá. Alimentos que combinavam com a dureza do trabalho no cativeiro. As crenças e magias trazidas pelos portugueses eram transformadas em feitiçaria nas mãos dos africanos. Aos negros feiticeiros recorriam os senhores brancos idosos a procura de afrodisíacos; as jovens sinhás, que não conseguiam engravidar; e as belas mucamas, que aprendiam a receita do café mandingueiro, um filtro amoroso feito com café bem forte, muito açúcar e sangue de mulata.
Na religião conviviam a cultura do senhor e a do negro. O catolicismo praticado aqui era uma religião doce, doméstica, de intimidade com os santos. Os padres se vangloriavam de conceder aos negros certas vantagens, como o direito de manifestar suas tradições nas festas do terreiro. Nasciam então as religiões afro-brasileiras: São Jorge é o orixá Ogum e Nossa Senhora é Iemanjá.
Os negros, muitos agora, libertos pela alforria, pela revolta ou pelas fugas, unidos nos quilombos, lutavam pelo fim da escravidão. Aliavam-se aos ideais libertários os filhos de poderosos senhores de engenho que se tornavam abolicionistas por motivos econômicos, humanitários ou, simplesmente, pelo apego que tinham às suas mães de leite.
Em 1984, numa de suas últimas entrevistas, o escritor Gilberto Freyre resumia o seu pensamento sobre a situação presente do negro, lembrando o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco: Com a abolição, os problemas do negro estariam apenas começando. Mas quem se interessou por isso? Ninguém se interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar as periferias das cidades. Abandonado, constituiu-se num sub-brasileiro.
Gilberto Freire é a paixão de Darcy Ribeiro. Mas tem muita gente da esquerda que o acha reacionário e chato. Intragável. Assim como é fácil se apaixonar pela obra-prima de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala. Um livro de décadas atrás. Exemplar, genial, pelo texto, pelo estilo. Um livro erótico como poucos de nosso Brasil. Não é sociologia chata. Uma espécie de filme. Uma literatura de paixão pela mulher negra. O sensualismo do século 19. Quem descobriu que Casa Grande e Senzala era um poeta foi Otto Maria Carpeaux. E quem ficou apaixonado por este livro foi Roberto Rosselini, o gênio do neo-realismo italiano. Queria filmar Casa Grande e Senzala. Ficou amigo de Gilberto Freyre. Bebeu o famoso conhaque de pitanga. Fórmula secreta.
O sensualismo é o que define a formação da raça brasileira de uma nação engendrada na alcova. E aquilo, que antropologicamente, cientificamente interessa, o encanto era o estético, o erótico e o sensual. A mestiça de sangue negro e branco, sangue negro e índio, é uma mulher que não anda como as outras, ela anda dançando sempre por instinto de andar assim. O europeu de certa época desprezava esta figura na sua beleza, nas suas qualidades, na sua inteligência. E um dos afãs do autor de Casa Grande e Senzala é essa reabilitação de um tipo étnico desvalorizado injustamente. E um afã um tanto patrioticamente brasileiro, dada a grande presença do negro na população do Brasil. Não só da negra, como do negro. o verdadeiro brasileiro integrado com o clima tropical foi o negro.
O Brasil colonial era profundamente erótico. O Brasil criou, tipos antagônicos de mulher, aristocrática, a da expressão da casa grande e sua rival, a expressão da senzala. A que vinha da senzala pelo seu próprio mérito físico, sensual, sexual, em competição com a outra, que tinha outros méritos, tinha requintes europeus, tinha requintes de perfumes vindos da Europa, de modas vindas da Europa. A mucama, quando conquistava o senhor branco, ela o conquistava quase somente pelo seu encanto físico, biológico, pelo seu próprio cheiro de suor.
A idéia de Casa Grande e Senzala surgiu em mim no exílio. Eu era secretário particular, mas inteiramente particular, sem ser eleitor, sem me interessar em partidos, sem ter qualquer ideologia política, de um antigo vice-presidente da República, quase presidente da República, quase presidente, que foi Estácio Coimbra.
Ele foi um derrotado político em 30 - e muito visado, porque era acusado de ser responsável pelo assassinato de João Pessoa, na Paraíba. Ele teve de deixar o governo, depois de muitas peripécias, o Recife caiu na mão dos revoltosos. Estácio Coimbra estava no Sul de Pernambuco esperando auxílio militar do Sul. Nada de chegar. Decidiu, então, fugiu para a Bahia. E fomos, mas no caminho, fomos interceptados por um navio de guerra brasileiro que manda a nossa embarcação parar para ter um entendimento.
O Estácio Coimbra me designa para ir ter esse entendimento e o vice-almirante, que vinha nesse cruzador, me disse. "Avise ao governador Estácio Combra que ele quanto antes siga para a Europa, pois a vida dele está em perigo. Eu sou legalista, mas a Marinha não vai poder fazer coisa alguma. Quem está dominando é o Exército, que está inteiramente revoltoso. Vai destronar o Washington Luís em poucos dias". E, assim, da Bahia seguimos para a Europa em um cargueiro, ou um semicargueiro, um navio misto, francês, que ia primeiro à África e depois a Lisboa.
Eu fui, devo dizer, com as roupas com que estava, sem dinheiro nenhum. Estácio Coimbra era um homem de certa riqueza, mas o dinheiro dele já estava bloqueado. O cargueiro francês em que íamos parou na África, para tomar uma grande carga, me lembro bem, de amendoim, que demorou três dias. Nessa parada eu disse: que vou fazer aqui? Era perto de Dakar, Senegal. O Senegal ainda nominalmente francês, mas inteiramente tribal. Eu vi que, saindo de Dakar, entrava-se numa África selvagem, de tribos, gente nua... Algumas negras muito bonitas, até estive notando. E penso: daqui foi muita gente para o Brasil. Estou vendo aqui parentes daqueles negros que conheço no Brasil. E comecei a tomar várias notas.
Aquilo já era Casa Grande e Senzala sem eu me aperceber. Era um assunto tomando conta de mim, sem eu estar à procura do assunto. Tomei notas e notas... e fomos para Lisboa, residir numa água-furtada a coisa era bastante crua do ponto de vista do clima. Ali ficamos, fazendo o possível para que nossos conhecidos em Lisboa não soubessem que estávamos em situação tão precária. Passei fome em Lisboa, onde tinha muitas amizades ilustres, com gente da nobreza me convidando para ir a chás e recepções. Passei fome indo a jantares com duquesas e condessas.
Mas o que eu quero dizer é que o meu interesse pela presença da África no Brasil acentuou-se em Lisboa, onde até para me defender do frio eu me refugiava na biblioteca e no arquivo, tomando notas, e no museu etnológico. Mas uma honra enorme e uma honra que vinha com um talão de cheques... De repente, eu, que era obrigado a lavar minhas próprias roupas, estava num transatlântico, a caminho de Nova York. .. E, daí, para a Califórnia. Em Stanford havia uma grande coleção de livros brasileiros, de um antigo reitor, um geólogo que na mocidade fizera estudos de geologia no Brasil. Dei meus cursos para ótimos estudantes e comecei a escrever o que seria Casa Grande e Senzala. Com essa documentação magnífica que estava lá como que à minha espera.
Do que eu tinha visto na África e do que eu tinha aprendido em Lisboa, era evidente que a formação brasileira se tinha dado entre a casa-grande e a senzala. Veio a idéia de que não era o rei de Portugal, que não era a Igreja Católica, que não era nenhum poder que tinha feito o Brasil, mas a família patriarcal. Eu consegui acumular uma tal riqueza de documentação desse ponto de vista... Estava tão inspirado... que eu pensava que tinha um anjo-da-guarda me guiando. Assim nasceu um livro chamado Casa Grande e Senzala.
Darcy Ribeiro
Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro.
Meu livro mostra por que caminhos e como nós viemos, criando aquilo que eu chamo de Nova Roma. Roma com boa justificação... Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença. Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical. Com as vantagens imensas de um mundo enorme que não tem inverno e onde tudo é verde e lindo, e a vida é muito mais bela... E é uma gente que acompanha esse ambiente com uma alegria de viver que não se vê em outra parte. Esse país tropical, mestiço, orgulhoso de sua mestiçagem... Isso é que me levou muito tempo. Entender como isso se fez... Havia muita bibliografia sobre aspectos particulares, mas não uma visão de conjunto.
Deixa eu contar pra vocês como é que isso se fez? Os iberos se lançaram à aventura no além-mar... desembarcavam sempre desabusados, atentos aos mundos novos, querendo fruí-los, recriá-los, convertê-los e mesclar-se racialmente com eles... "
No Brasil a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se fez desde o primeiro dia... Eu prometi contar como. Imagine a seguinte situação: uns mil índios colocados na praia e chamando outros: "venham ver, venham ver, tem um trem nunca visto"... E achavam que viam barcas de Deus, aqueles navios enormes com as velas enfurnadas... "O que é aquilo que vem?" Eles olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar...
Mas os portugueses e outros europeus feiosos assim traziam uma coisa encantadora: traziam faquinhas, facões, machados, espelhos, miçangas, mas sobretudo ferramentas. Para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la.
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Crianças indígenas: junto à natureza. Ao longo da costa brasileira se defrontaram duas visões de mundo completamente opostas: a selvageria e a civilização. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Aos olhos dos europeus os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção do "pecado". Mas com um grande defeito: eram "vadios", não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Com a descoberta de que as matas estavam cheias de pau-brasil, o interesse mudou... Era preciso mão-de-obra para retirar a madeira.
Onde tinha algum europeu instalado na costa em contato com as naus, e portanto capaz de fornecer mercadoria, cada aldeia, e eram milhares de aldeias, levava uma moça pra casar com ele. Se ele transasse com a moça, então ele se tornava cunhado. Ele passou a ter sogro, sogra, genros... ele passou a ser parente. Então o sabido do português, do europeu, conseguia desse modo pôr milhares de índios a serviço dele, pra derrubar pau-brasil...
A porta de entrada do branco na cultura indígena foi o "cunhadismo". Através desse costume foi possível a formação do povo brasileiro. E da união das índias com os europeus nasceu uma gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil.
No ventre das mulheres indígenas começavam a surgir seres que não eram indígenas, meninas prenhadas pelos homens brancos – e meninos que sabiam que não eram índios... que não eram europeus. O europeu não aceitava como igual. O que era ? Era uma gente "ninguém ", era uma gente vazia. O que significavam eles do ponto de vista étnico ? Eles seriam a matéria com a qual se faria no futuro os brasileiros...
Um dos primeiros núcleos povoadores surgiu em São Paulo, chefiado pelo português João Ramalho. Há quem afirme que ele tenha chegado ao planalto paulista antes mesmo da chegada de Cabral. Os poucos registros da época supõem que ele teve mais de trinta mulheres índias e quase oitenta filhos mestiços. Um escândalo comentado numa carta do padre Manoel da Nóbrega de 1553! "É principal estorvo para com a gentilidade que temos, por ser ele muito conhecido e aparentado com os índios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irmãs e têm filhos delas... suas festas são de índios e assim vivem andando nus como os mesmos índios... "
O povoamento se fez a partir do litoral. Na Bahia, em Pernambuco, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, em toda a costa os europeus geraram uma legião de mestiços. Homens e mulheres chamados de mamelucos pelos jesuítas espanhóis, por acusa do aspecto rústico e da violência com que capturavam e escravizavam os indígenas, de quem descendiam.
"A expansão do domínio português terra adentro, na constituição do Brasil, é obra dos mamelucos... O mameluco abriu seu mundo vasto andando descalço, em fila, por trilhas e estreitos sendeiros, carregando cargas no próprio ombro e no de índios e índias cativas..." Esses filhos das índias aprendem o nome das árvores, o nome dos bichos, dão nome a cada rio... Eles aprenderam, dominaram parcialmente uma sabedoria copiosa, que os índios tinham composto em dez mil anos. Em dez mil anos os índios aprenderam a viver na floresta tropical, identificaram 64 tipos de árvores frutíferas, domesticaram muitas plantas, essas que a gente usa: mandioca, milho, amendoim.... quarenta e tantas que nós demos ao mundo...
A mandioca faz parte do cardápio do brasileiro. Ela é cultivada e preparada em todo o país do mesmo modo que os indígenas ensinaram no começo da colonização. É uma planta preciosa porque não precisa ser colhida nem estocada. Mantém-se viva na terra por meses. Nas comunidades caiçaras, isoladas dos centros urbanos, é possível reviver um pouco da atmosfera do Brasil dos primeiros tempos. Os ancestrais dessa gente provavelmente descendem dos primeiros mestiços que habitaram o litoral. A canoa, feita a partir do tronco de árvore, se parece com as usadas pelos índios. Ela é o único meio de transporte e garante a sobrevivência. Em alguns lugares o recuo na história é ainda maior. Quinhentos anos após a chegada dos portugueses, é possível encontrar indígenas vivendo no litoral, próximo do Rio de Janeiro. São guaranis, um povo nômade, de origem tupi, que hoje habita a Serra do Mar. Eles conseguiram resistir ao processo de extermínio de sua gente e à ocupação de suas terras. Mesmo depois de séculos de contato eles conseguiram preservar boa parte de sua origem e cultura.
"Antigamente a terra era do índio guarani... Guarani passava com fruta do mato. A mistura era palmito. Hoje nós estamos que nem branco. Os brancos terminaram com a natureza. Nosso trabalho a maioria é de lavoura; comemos numa panela só. A gente sente o guarani como puro brasileiro, porque muitos brancos dizem: 'esses bugres aí, índio não vale nada'. Não é isso não. O puro guarani é o brasileiro puro... Cacique Miguel. "Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani.... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo.
Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP. Há duas contribuições fundamentais nesse encontro: uma mestiçagem do corpo e uma mestiçagem da cultura. Em nós vivem milhões de índios, índios que foram esmagados porque a brutalidade do branco com o índio foi terrível. Esmagados porque o europeu tinha muita doença. Os índios não tinham cárie dentária, nem gripe, nem tuberculose... Cada enfermidade dessas era uma espécie de guerra biológica, matou índios em quantidade...
Estima-se em cinco milhões o número de indígenas que habitavam as terras brasileiras na ocasião da chegada dos portugueses. Dois séculos depois, eles não chegavam a dois milhões. Hoje, os sobreviventes somam duzentos e setenta mil habitantes, menos de meio por cento da população brasileira
Em cinco séculos desapareceram para sempre cerca de oitocentas etnias. Eram povos de diferentes culturas, que ocupavam vastos territórios de características geográficas distintas. Mas esses índios que morriam sobreviviam naqueles mestiços que nasciam. Somos nós que carregamos no peito esses índios, os genes deles para reprodução e a sabedoria deles da mata. O Brasil só é explicável assim, é uma coisa diferente do mundo...
A população paulista dos primeiros tempos vivia numa economia de subsistência. Não podia contar com a riqueza gerada pela exportação de açúcar. O regime de trabalho, voltado para o sustento, e não para o comércio, era quase o mesmo da aldeia tribal. A base da agricultura era indígena, enriquecida pela contribuição dos europeus, que trouxeram os animais domésticos. As casas passaram a ser de taipa, cobertas por telhas. E equipamentos como o monjolo vieram para ficar. Até hoje facilitam o trabalho de beneficiar o milho. "A importância dele é que a gente, por exemplo, planta, depois colhe, depois leva para lá para ceifar farinha pra gente gastar. A gente cria galinha pra gastar... Dá um pouco pra criação, pro gado, pro porco..." Era uma sociedade que, por ser mais pobre, era também mais igualitária.
A miscigenação era livre, porque quase não havia entre eles quem não fosse mestiço. Até meados do século XVIII essa gente falava uma língua aprendida com os índios, o " nheengatu " . Um jeito de falar tupi com boca de português, inventado pelos padres jesuítas. Em suas andanças, os paulistas foram aumentando o tamanho do Brasil. Na esperança de encontrar minérios, eles buscavam no fundo das matas a única mercadoria que estava ao seu alcance: os indígenas. As bandeiras partiam de São Paulo levando mais de duas mil pessoas. Eram homens e mulheres, famílias inteiras de mestiços que iam fazendo roça de milho e feijão pelo caminho, fundando vilarejos, caçando e pescando pra comer. Eles ignoraram as fronteiras portuguesas para aprisionar os habitantes da terra e depois vendê-los como escravos aos engenhos do nordeste. E não pouparam sequer os índios convertidos à fé católica que habitavam as missões jesuíticas do sul do país e do Paraguai. O modelo jesuítico procurava assegurar a eles uma existência própria dentro das Missões, ao contrário dos colonos, que tratavam o indígena como mão-de-obra escrava.
Desde o princípio houve um partido de jesuítas que tinha uma utopia para os índios. Era fazer dos índios pios seráficos, religiosos, gente tão boa que era a melhor gente do mundo. Eles achavam que era a maneira de fazer o Paraíso na Terra. A religião pegou mesmo foi com as filhas das índias e das negras, as mestiças, que, não podendo satisfazer-se com a religião dos índios e dos negros, aceitavam e gostavam das novenas, das ladainhas, das missas, das procissões... E assim surgiu esse catolicismo santeiro e festeiro, que foi um belo catolicismo do Brasil até pouco tempo.
Minas foi o nó que atou o Brasil e fez dele uma coisa só. No final do século XVII, a descoberta de ouro pelos paulistas nas terras do interior mudou os rumos do Brasil Colônia. Em menos de dez anos, chegaram à região das Minas mais de 30 mil pessoas, vindas de todo o país. Eram paulistas, baianos, senhores de engenho falidos e, principalmente, escravos.
No começo da exploração muitos morriam de fome com o ouro nas mãos, já que não havia o que comer. Os tropeiros garantiam a sobrevivência vendendo comida e panos de algodão. Atraídos pelo ouro, muitos deles acabaram se fixando no cruzamento das rotas de comércio e estabeleceram as primeiras povoações. Desse modo abriram caminho para a ocupação do interior do país. "No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos daqui mesmo."Setenta anos depois, a capitania de Minas Gerais já era a área mais populosa da América, com trezentos mil habitantes. Eram pessoas que vinham fazer fortuna, como os garimpeiros que ainda hoje trabalham na região das Minas.
A descoberta do ouro mudou totalmente a vida da colônia. A mineração desbancou a indústria açucareira, que era então a principal atividade econômica. A sociedade estava estruturada nos moldes da fazenda – da casa-grande e da senzala - vivendo ao redor do senhor de engenho. O país prosperava graças ao trabalho escravo de três milhões de negros. O açúcar, no entanto, começava a sofrer concorrência das Antilhas. A grande contribuição da cultura portuguesa aqui foi fazer o engenho de açúcar... movido por mão-de-obra escrava.
Por isso, começaram a trazer milhões de escravos da África. O negócio maior do mercado mundial era a venda de açúcar para adoçar a boca do europeu e depois a remessa de ouro. Mas a despesa maior era comprar escravos. Os europeus sacanas iam à África e faziam grandes expedições de caça de negros que viviam ali uma vida como a dos índios aqui, com sua cultura, com sua língua, com seu modo... Metade morria na travessia, na brutalidade da chegada, de tristeza, mas milhões deles incorporaram-se ao Brasil.
E esses negros não podiam falar um com o outro, veja esse desafio como é tremendo. Eles vinham de povos diferentes. Então, o único modo de um negro falar com o outro era aprender a língua do capataz, que nunca quis ensinar português. Milagrosamente, genialmente esses negros aprenderam a falar português. Quem difundiu o português foi o negro, que se concentrou na área da costa de produção do açúcar e na área do ouro... Mas preste atenção: com os negros escravos vinham as molecas de 12 anos, bonitinhas. Uma moleca daquelas custava o preço de dois ou três escravos de trabalho. E os donos de escravos queriam muito comprar, e os capatazes também. Comprar uma moleca pra sacanagem. Mas essas molecas pariam filhos, e quem era o filho? Era como o filho da índia. Ele não era africano, visivelmente. Ele não era índio. Quem era ele ? Ele também era um "zé ninguém" procurando saber o que era. Ele só encontraria uma identidade no dia em que se definisse o que é o brasileiro.
Nestas terras, ricas em ouro e diamante, muitos escravos conseguiram comprar a liberdade e enriquecer. Assim surgiu uma classe intermediária formada de mulatos e negros libertos, que conseguiram melhorar de vida e se dedicar às atividades de ourives, carpinteiros, ferreiros e artistas. Ouro Preto viu florescer a mais alta expressão da civilização brasileira.
Na música, na poesia e na arquitetura o mineiro deixou sua marca. Entre eles um brasileiro, mulato de grande talento, que traduziu na pedra tosca a sofisticação do barroco europeu: Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A riqueza com que as igrejas foram construídas no período do ouro deixa transparecer a importância da religião católica na vida da colônia. Todos iam à missa: brancos, negros libertos, mulatos e escravos. Mas cada um freqüentava sua própria igreja, decorada a seu modo. Nos detalhes da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o catolicismo é temperado com os símbolos religiosos africanos. A mineração de ouro e diamante alterou profundamente o aspecto rural e desarticulado do país.
Até então, os brasileiros viviam isolados uns dos outros devido às grandes distâncias. Mas a rede de intercâmbio comercial que começava a se formar entre as capitanias daria uma bela base econômica à unidade nacional. O sertão nordestino, que vivia da criação de gado, fornecia a carne e o couro. A sede do governo foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, devido à proximidade das Minas. E o Rio Grande do Sul acabou sendo incorporado ao país através do comércio de mulas.
Esse país tomou conta de si pela primeira vez num movimento fantástico – a Inconfidência Mineira... O movimento idealizado por uma elite intelectual previa uma nova organização da sociedade. Entre os planos dos inconfidentes estavam a criação de universidades, a instalação de indústrias e a libertação dos escravos. A inspiração maior vinha dos ideais da Revolução Francesa e de um novo país da América do Norte, os Estados Unidos. Uma denúncia acabou levando à forca um dos líderes do movimento: o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que foi esse herói nacional fantástico, um homem sábio, engenheiro que fez o serviço de águas do Rio de Janeiro, que fez o planejamento dos portos do Rio... e que conspirou na Europa, em Portugal e conspirou com os norte-americanos também.
Era um intelectual que lia, conhecia a constituição americana e queria fazer uma república. Era respeitado pelos magistrados, pelos coronéis militares, pelos poetas, por aquele grupo atípico de Minas que quis criar uma República Brasileira, criar um Brasil e criar brasileiros, dando dignidade. Mas os portugueses abafaram isto tão bem que continuou soterrada a idéia de liberdade e de autonomia do Brasil... Trinta anos depois da rebelião dos inconfidentes, o Brasil se tornava império autônomo.
Mas levaria quase cem anos para extinguir o trabalho escravo em seu território. Durante trezentos anos o país usou cerca de doze milhões de negros como principal força de trabalho em seu processo de formação. Trazidos do Sudão, da Costa do Marfim, da Nigéria, de Angola e de Moçambique, essa gente marcaria com sua cor e com sua força a fisionomia e a cultura brasileiras. E, ao final do período colonial, era uma das maiores populações do mundo moderno.
"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária ".
São Paulo. A terceira cidade do mundo. Uma megalópole com doze milhões de habitantes. Esta cidade, fundada em 1554 é hoje o espelho do Brasil. Olhando com atenção seus bairros e sua gente é possível perceber todas as contradições do país. O Brasil rico, moderno, que chega às vésperas do século XXI como a oitava economia do planeta. Mas também o Brasil que não acompanhou o progresso. O país que ainda luta por melhores condições de vida. As grandes capitais são o retrato do crescimento desordenado das cidades brasileiras no século XX.
Para se ter uma idéia, entre 1920 e 1960 a população urbana cresceu dez vezes. Hoje quase 70% dos brasileiros moram em cidades. As maiores transformações foram sentidas nos centros urbanos, mas elas são reflexos do que ocorreu no campo. Em toda a história brasileira, as mudanças de regime pouco afetaram a ordem social.
Durante o período colonial e depois no Império e na República, o poder na zona rural sempre foi baseado no monopólio da terra e na monocultura. Aqui nenhuma terra foi reservada para o povo que ia formando o Brasil. Nos Estados Unidos as pessoas iam para o Oeste (o que corresponderia no Brasil a Goiás, Mato Grosso). Elas iam porque sabiam que se construíssem uma casa, fizessem uma roça ganhavam o direito de demarcar uma fazenda de 30 hectares. Aqui isto nunca deu certo porque um pequeno grupo monopolizou a terra, obrigou o povo a sair das fazendas. Eles não dividiam e sim expulsavam. Não é que eles usem a terra. Eles não usam dez por cento da terra que existe, mas expulsaram. E essa gente que foi expulsa vem viver uma vida miserável na cidade. Em 1850 as regras de acesso à propriedade rural mudaram. A simples ocupação e cultivo já não bastavam para garantir a posse. O registro obrigatório acaba expulsando da terra os menos favorecidos.
Na periferia de São Paulo vive gente entregue a uma pobreza total. É de se perguntar: como tão poucos latifundiários fizeram a infelicidade de tantos brasileiros que estão em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Recife, na Bahia, por toda parte?
Nenhum município estava em condições de absorver o êxodo rural num ritmo tão intenso, mas nem sempre foi assim. O país cresceu e se desenvolveu a partir de uma economia de base agrícola, voltada para abastecer o mercado europeu. A maioria da população concentrava-se na zona rural. As cidade e vilas funcionavam como entrepostos comerciais, onde o povo vivia da prestação de serviços aos fazendeiros. Somente nas regiões mineradoras é que se implantou uma rede urbana independente da produção agrícola. Recife enriqueceu com os holandeses e com o açúcar. Na Amazônia, Belém e Manaus se desenvolveriam como portos de exportação dos recursos naturais extraídos da floresta. O Rio de Janeiro cresceu como porto de escoamento do ouro.
A partir de 1808 tornou-se o principal núcleo urbano do país, com o desembarque do rei de Portugal D. João VI e de sua corte. Muito sabido esse D. João VI. Descrevem-no como um bestão que andava numa carroça, comendo frango com as mãos e jogando os ossos para o lado... Ele é descrito popularmente como uma besta, mas não tem nada de besta. Enquanto os reis de Espanha ficavam querendo pedir perdão a Napoleão para continuar mandando, ele viu que o bom era o Brasil, não era Portugal. Ele largou aquela velharia e veio para cá, abriu os portos e começou a organizar o país. Trouxe 18 mil pessoas. Essa trasladação trouxe pra cá toda uma classe dominante já feita, muitos deles com cursos universitários em Coimbra. É essa gente que organiza o país.
A luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi – e ainda é – a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional." O Brasil só se tornou uma nação com a abolição da escravatura, que concedeu aos negros, ao menos no papel, a igualdade civil. Emancipados mas sem a terra que cultivaram por quase quatro séculos, os ex-escravos abandonaram as fazendas e logo descobriram que não podiam ficar em nenhum lugar. A terra tinha dono. Saindo de uma fazenda caíam em outra, de onde eram, também, fatalmente expulsos. Houve quem tivesse melhor sorte. É o caso de uma comunidade negra situada no litoral fluminense. Ali, todos descendem da mesma família. São netos, bisnetos, trinetos e tataranetos de três mulheres escravas – como o Sr. Valentim.
Ele nasceu na comunidade e casou-se com D. Madalena, com quem teve nove filhos, que também moram nas redondezas. Nos dias de festa todos aparecem para dar um abraço no patriarca da família. Hoje estas terras se valorizaram e a família, ameaçada de perder tudo, tenta provar que tem direito de permanecer onde nasceu. "Eu sempre falo isso: que se desse um lote aqui, de graça, para uma pessoa que morava na cidade, ela não aceitaria porque é um lugar difícil. Como é que o cara que nunca fez uma horta no lugar, nunca plantou sequer um pé de flor vai colocar três juizes porque ele é dono daquela terra? A escritura é muito fácil fazer... Essa terra é terra hereditária, terra que vem de lá de trás do tempo da escravidão."Depoimento do Sr. Valentim.
"Eu vim pra cá com dezessete anos. O povo era muito bom. Um pessoal escuro, mas eu senti em mim a mais negra, por causa da maneira que me acolheram. A minha parte da família não queria mas a parte dele fazia muito gosto. Eu acabei casando com ele e graças a Deus tenho fé em Deus de levar nossa vida pra frente. Deus é que abraça o mundo, tudo é filho dele, não tem gordo, nem magro, não tem cor, não tem raça. Tudo é dele, né?"Depoimento de d. Madalena.
A maior parte dos escravos concentrou-se na periferia das cidades, nos bairros africanos. Ali eles criaram uma cultura própria, feita de retalhos do que o povo africano guardou nos longos anos da escravidão. O negro guardou sobretudo sua espiritualidade, sua religiosidade, seu sentido musical. É nessas áreas que ele dá grandes contribuições e ajuda o brasileiro a ser um povo singular. Quando chegam na cidade são capazes de fazer coisas, por exemplo, a cultura do Rio de Janeiro, a beleza do Carnaval carioca, que é uma criação negra, a maior festa da Terra!
A beleza de Iemanjá, uma mãe de Deus que faz o amor. Você não vai lá pedir que o marido não bata tanto, que não seja tão filho daquilo, vai pedir um amante gostoso. Isso é uma coisa fantástica! Um povo que é capaz de inventar uma coisa destas! Nunca houve depois da Grécia! Isso são os nossos negros, os nossos mulatos desse país.
"O jongo é tradição muito antiga, e naquele tempo, logo que a princesa Isabel libertou os escravos, o preto fundou o jongo. Naquele tempo os brancos freqüentavam, mas os negros não gostavam muito. Gostavam dos pretos, dos morenos, morenos bem pardos, bem tostados, né... Hoje é diferente. Hoje tudo dança, dança preto, dança branco, dança moreno, dança qualquer um. Mas naquele tempo não era assim não, segundo a escola que tive do meu pai, que foi da escravidão, né? Então, tem um ponto de jongo que eu canto pro jongueiro e pergunto pra ele: o que é o jongo? E o jongueiro não sabe responder o que é jongo. Agora, pro jongueiro tirar mesmo o ponto, para dizer tirei o ponto, ele precisa responder pra mim, na cantoria, na hora do jongo: " jongo pra quem sabe, é jongo, pra quem não sabe, não é nada ". É isso ...""Eu canto o canto porque eu sei cantar. Não quero que a saudade venha me matar...Enquanto a abóbora amadurece, eu como a cambuquira... "
No final do século XIX, a crise de desemprego que ocorreu na Europa trouxe para o Brasil sete milhões de imigrantes. Eles vinham para trabalhar nas plantações de café, o principal produto de exportação da época. Acabaram ocupando o lugar dos mestiços e escravos libertos, como mão-de-obra assalariada.
Os europeus se fixaram principalmente em São Paulo e no sul do país, onde renovaram a vida local e promoveram o primeiro surto de industrialização do país. Esse país já feito num certo momento recebe uma invasão branca... Veja a diferença.
Os que foram para a Argentina caíram em cima do povo argentino, paraguaio e uruguaio que haviam feito seus países, que eram oitocentos mil, e disso saiu um povo europeizado. Aqui não, essa quantidade de gringos caiu em cima de quatorze milhões de brasileiros. Então foram absorvidos por nós. Encontraram um país feito, com um século de história, com cidades importantes. Deram, é claro, uma grande contribuição e continuam dando, mas muitos deles não conhecem nada e acham que deram o automóvel.
Essa influência das matrizes índias, negras e européias foi descrita algumas vezes como uma democracia racial. Aqui não há nenhuma democracia racial. Aqui é muito duro ser negro, o preconceito nosso é por natureza diferente do preconceito americano. Aqui há um conceito curioso de branquização, o negro quando vai ficando claro, a mestiçagem facilita isso sobretudo quando vai ficando rico, fica branco. Esse preconceito de branquização é um conceito bonito, não é democracia racial. É branquização, é uma possibilidade até preconceituosa de que o negro é aceito como alguém que vai deixar de ser negro, que vai transar com todas as brancas que vão clarear os filhos deles. É um preconceito, de certa forma, melhor do que um apartheid, que quer que o negro fique longe, fique distante para respeitá-lo lá longe, mas não quer proximidade com ele. Nós queremos é confluir, misturar. Isso é bom, mas não pode ser chamado de democracia racial. "A distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres aos ricos. A ela se soma a discriminação que pesa sobre índios, mulatos e negros. "
Nos anos 90, a separação entre classes ricas e pobres é quase tão grande quanto as que existem entre povos diferentes. E o Brasil destaca-se no mundo por sua péssima distribuição de renda. Quando o indivíduo consegue melhorar de vida, é possível perceber que seus descendentes em uma ou duas gerações cresceram em estatura, se refinaram, se educaram.
Muitos estrangeiros que chegaram aqui no começo do século XX encontraram condições de ascensão social mais rápida do que muitos brasileiros gerados aqui. Para Darcy Ribeiro, o país pouco mudou desde 1.500. E dos escravos aos assalariados de hoje, o Brasil se fez como um moinho de gastar gente. É muito duro para um negro fazer carreira no Brasil. Eles são a parcela maior da camada mais pobre que tá lá, no fundo do fundo, e é a camada onde pesa mais o analfabetismo, a criminalidade, a enfermidade. E é claro que precisam de uma compensação que nunca tiveram. Eles fizeram este país, construíram ele inteiro e sempre foram tratados como se fossem o carvão que você joga na fornalha e quando você precisa mais compra outro. A atitude para com o negro e o mulato e com o pobre é muito bruta.
Sobretudo os branquinhos de merda, que tem uma atitude muito freqüentemente de profundo preconceito e nenhum respeito para com essa gente que fez o Brasil. Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Essa unidade não significa porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais. Mais do que uma simples etnia, o Brasil é um povo nação, assentado num território próprio para nele viver seu destino.
Mas foi essa gente nossa, feita da carne de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Esse "paisão" formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil do mundo, bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma área imensa, preparada para lavouras imensas, produtoras de tudo, principalmente de energia.
A Amazônia devia ser um país, porque é tão diferente. O nordeste, até a Bahia... outro país que é diferente. A Paulistânia e as Minas Gerais juntas são outra gente... O sul, outra gente... Esse povão que está por aí pronto pra se assumir como um povo em si e como um povo diferente, como um gênero humano novo dentro da Terra. É claro que eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa forma isso. E vivi fazendo pesquisa, e vivi muito com negros, brasileiros, pioneiros de todo o lugar do Brasil. E li tudo que se falou do Brasil. Então estava preparado pra fazer esse livro. E gosto dele. Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro. É o melhor que eu podia dar. Gosto muito disso.
Florestan Fernandes
O intelectual militante, o professor engajado e o político eleito com mandato pelo partido dos trabalhadores marcaram a história deste grande educador. Um pensamento importante de Florestan se deu por volta de 1969 em plena ditadura militar, com a transição da fase acadêmica-reformista para a política-revolucionária. O processo de consolidação do pensamento revolucionário foi destruído pelo AI-5, que coloca vários intelectuais para fora das universidades, inclusive Florestan, que passa a não reconhecer mais a universidade como um centro dinâmico das transformações.
Seu ingresso no partido dos trabalhadores se deu a convite do presidente do partido, Luis Inácio Lula da Silva, num momento de sua vida, onde o desencantamento com a Universidade já se fazia presente. Época da Constituinte, em frente ao Congresso Nacional.
Eleito deputado federal duas vezes pelo Partido dos Trabalhadores, ele manteve coerência com seu pensamento e obra, e, se destacou na defesa da escola pública e do projeto de Diretrizes e Bases da Educação. Devido à sua crítica ao governo militar, a sua ligação a movimentos sociais e organizações políticas de esquerda e a luta pela educação pública. Revolucionando a sociologia brasileira.
Na Universidade, Florestan inaugura uma nova fase de sua vida. Engajado nos estudos e na reflexão sobre a sociedade, aprofunda-se no pensamento de Émile Durkheim e dos demais pensadores da sociologia positivista. Como um intelectual orgânico, introduz no meio acadêmico um novo perfil intelectual, responsabilizando-se e engajando-se nos problemas da realidade social brasileira, sobretudo na militância em prol das pessoas de condições menos favorecidas.
Na década de 40, Florestan participava de um grupo marxista, onde se dedicou ao estudo da obra de Marx e sofreu uma influência muito grande, principalmente sobre o pensamento dialético, pois isso o ajudou a entender melhor a dominação da sociedade burguesa e seus métodos expressos na realidade social.
Aliando o rigor metodológico à pesquisa empírica, Florestan Fernandes funda a sociologia critica no Brasil. Inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social. Para Florestan, o pensamento se pensa todo o tempo, pois a reflexão crítica deve ser sobre o pensamento e o pensado.
Segundo Ianni, contribuições de Florestan para a Sociologia brasileira, tem origem em 5 fontes, são elas:
A Sociologia Clássica e moderna, com diálogo contínuo, aberto e crítico que se desenvolve com os principais sociólogos, ou cientistas sociais, que apresentam alguma contribuição à pesquisa e à interpretação da realidade social.
No pensamento marxista é contínuo e o crescente diálogo com as obras de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Gramsci, entre outros, incorporou progressivamente o pensamento dialético, que fica evidenciado tanto na escolha dos temas quanto no tratamento dado a eles; criando desafios para os movimentos sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes populares.
A corrente mais crítica do pensamento brasileiro – em diferentes momentos, manifesta-se um diálogo, explícito ou implícito, como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Manoel Bonfim, Astrogildo Pereira, Graciliano Ramos, Caio Prado Junior e outros cientistas sociais e escritores, inclusive do século XIX.
Em diferentes escritos, reencontram-se sugestões, desafios ou temas suscitados pela obra desses autores, compondo uma espécie de família intelectual fundamental e muito característica no pensamento brasileiro. Levam em conta as lutas dos mais diversos setores populares que entram no passado e no presente da sociedade brasileira. Ajudam a recuperar algumas dimensões básicas das condições de existência, de vida e trabalho, do índio, caboclo, escravo, colono, seringueiro, camarada, sitiante, operário e outros, pretéritos e presentes.
Os desafios de sua época, a começar pelos anos 40. As transformações em curso na sociedade, em termos de urbanização, industrialização, migrações internas, emergência de movimentos sociais e partidos políticos, governos e regimes, sem esquecer as influências externas, criam e recriam desafios práticos e teóricos para muitos.
Os grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo, descortinando um panorama social e histórico mais largo do que aquele que aparece no pensamento produzido segundo as perspectivas dos grupos e classes dominantes.
É o negro, escravo e livre, isto é, trabalhador braçal, na lavoura e indústria, que descortina um horizonte inesperado, amplo. Ao lado do índio, imigrante, colono, camarada, peão e outros, a presença do negro na história social brasileira desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de vista crítico na Sociologia, nas Ciências Sociais e em outras esferas do pensamento brasileiro.
Além dessas cinco fontes principais da Sociologia Crítica fundada por Florestan, Ianni acrescenta outras inspirações como a militância política, a reflexão sobre a responsabilidade ética e política do sociólogo, o convívio com o pensamento latino-americano, destacando-se figuras como as de José Martí, José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara e assim por diante.
Sintetizando as matrizes da Sociologia inaugurada por Florestan Fernandes no Brasil. Sociologia Crítica essa que se caracteriza como um estilo de pensar a realidade social a partir da raiz.
Na década de 50, Florestan volta-se para a questão do racismo, em um trabalho pioneiro, onde levantou sérias dúvidas sobre o mito da democracia racial e deu espaço para o estudo da democracia de forma mais ampla. Em um artigo de 1977, publicado em O Globo, o sociólogo afirma que no Brasil “não existe sequer democracia para brancos poderosos, imagine para negros e mulatos”.
Antonio Candido, intelectual, amigo de Florestan por mais de 50 anos, descreve o professor Florestan Fernandes em três momentos com a seguinte citação: “Houve um Florestan dos anos 40, um Florestan dos anos 50 e um Florestan dos anos 60 a partir do qual a síntese já estava feita.
O Florestan dos anos 40 é o da construção do saber, que ao construir o seu, constrói a possibilidade de saber dos outros. O Florestan dos anos 50 é o que começa a se apaixonar pela explicação do saber do mundo, porque, tendo já os instrumentos na mão, se dedica a aplica-los para compreender os problemas do mundo. O terceiro momento é o do Florestan que, tendo aplicado o saber à compreensão do mundo, transforma-o numa arma de combate. Naturalmente, as três etapas estão misturadas, pois sempre houve a terceira na primeira e, a primeira na terceira. Estou me referindo às predominâncias.
O professor Florestan criticou a pedagogia tradicional e condenava a postura dos educadores distante do processo social, acreditando que estes deveriam estar engajados na tarefa de transformação social. Desta forma, tornou-se defensor permanente da escola pública, fazendo da Educação um dos temas centrais da sua vida. Para ele, não poderia existir estado ou sociedade democrática sem uma educação democrática via escola pública gratuita.
Como bom marxista defendeu uma educação vinculada ao pensamento socialista. Para ele, a classe trabalhadora era a principal força revolucionária, e, portanto seus membros deveriam estar preparados, bem informados e conscientes de seu papel e isto seria uma responsabilidade da Educação. Portanto entendia a Educação como um fator de mudança social.
As faces que marcam o professor Florestan Fernandes na Educação são: a de professor, cientista, militante e publicista da Educação, faces que ele manteve em outras práticas e que mostraram a coerência deste intelectual em toda sua trajetória de vida.
Muitos educadores já estavam envolvidos na discussão e principalmente na criação de um projeto que, através do Estado-Educador, privilegiasse a educação escolarizada, tornando o acesso e a permanência cada vez maior nas classes mais baixas. Simultaneamente, estava em tramite a aprovação da lei de Diretrizes da Educação Nacional, que com o apoio das elites, não suportavam essas propostas. É neste contexto que nasce a campanha em defesa da escola pública.
Em torno de indignações, reuniram-se vários educadores em São Paulo e realizaram a I Convenção Estadual em Defesa da Escola Pública, donde saiu grande mobilização, dando origem a Campanha em Defesa da Escola Pública.
Essa campanha conseguiu juntar diversos intelectuais além de outros segmentos da sociedade. No meio intelectual uniu uma diferente corrente do pensamento educacional: os liberais idealistas, os liberais pragmáticos e os socialistas. Nesta esta última corrente, encontravam-se Florestan, Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso.
Tendo a Educação se apresentado como tema de grande relevância para o professor Florestan, sua atuação em defesa do tema se constitui em algo memorável. Além de sua atuação na campanha, podemos destacar a sua atuação na assembléia constituinte e no processo de construção da L.D.B.
No processo de constituição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Florestan Fernandes sofre uma grande decepção com seu até então amigo Darcy Ribeiro, que havia o acompanhado na longa trajetória em defesa da Educação.
A maior injustiça de Darcy a Florestan é referente a sua frase: “Florestan não se inquieta com o milhão de alunos do proletariado estudantil, que pagam caro para estudar a noite, em escolas péssimas, montadas para fazer lucros empresariais, enganando-os. Abandona-os à sua sorte”.]
Florestan, que sempre lutou pelos menos favorecidos, que mobilizou diferentes segmentos para a construção de um projeto democrático e tentou incluir nas leis medidas que contemplassem a educação popular, encontrando resistências nas comissões foi traído e injustiçado por seu amigo.
Darcy considera, também, que o projeto da Câmara consolida o atual sistema de ensino e que continuará a manter o Brasil na condição do “... país que oferece a seu povo a pior educação”. Esse conflito vivido entre Florestan e Darcy Ribeiro foi aberto e ocupou espaço na mídia, persistindo até próximo dos últimos dias da vida do professor.
Florestan Fernandes foi professor a vida toda e apesar de decorrentes internações hospitalares nos últimos anos de vida, o sociólogo não abriu mão do tom professoral e intelectual que o caracterizava. Florestan foi, sem dúvida, um dos maiores professores e sociólogos do Brasil por ser um dos grandes responsáveis pela Consolidação do pensamento científico no estudo dos temas sociais no Brasil.
Florestan Fernandes, de engraxate a Professor catedrático, 75 anos de vida dedicada a luta contra desigualdade social. Intelectual orgânico, no sentido empregado por Gramsci, foi militante aguerrido na defesa da Escola Pública de Qualidade e com forte influência marxista, acreditou, lutou e defendeu a transformação social, atribuindo papel relevante aos trabalhadores a partir da consciência de classe e incluindo a Educação como tema de grande destaque na construção e consolidação de um novo projeto de sociedade.
Sociólogo formado em 1943, obteve título de mestre em 1947 e de doutor em 1951. Atuou em universidades importantes no Brasil e em outros países, contudo, conquistou uma posição de destaque na Sociologia Brasileira devido sua atuação nos diferentes campos das ciências sociais, abrindo caminho para a profissionalização dos sociólogos ao defender a participação e a interferência dos intelectuais nos problemas nacionais, inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social, por meio da qual se torna possível reinterpretar a sociedade e a história, bem como a Sociologia anteriormente produzida.
Fundador da Sociologia Crítica no Brasil, tem sua produção intelectual impregnada de reflexão, no questionamento à realidade e o pensamento sintetizado. Enfrentou especialmente durante a ditadura, a grande repressão por propagar no meio universitário, um engajamento dos intelectuais, aos problemas da sociedade brasileira. Foi desligado da Universidade e exilado no Canadá, com base no AI 5, retornando para o Brasil após 1972.
No Brasil, guiado pela inquietude em que o tema da Educação representava em seu projeto de sociedade, participou intensamente da Campanha em Defesa da Escola Pública, na criação do Fórum de defesa, no processo de construção da LDB, defendendo um projeto lei, democrático e tinha o apoio e a participação de diversas entidades sociais.
Este grande intelectual, a convite de Lula, inicia sua vida partidária no partido dos trabalhadores, mantendo sempre sua coerência, valoriza a diversidade dentro do partido, mas mantém-se, como ele me se intitulava: "lobo solitário", sendo admirado e respeitado por todas as alas do PT. Conquista o parlamento, onde convive com as tensões do momento de transição pelo qual passava o nosso país.
No parlamento, dedica-se a defender as causas dos menos favorecidos, sem nunca abandonar sua dedicação ao tema Educação, desempenhando um papel de grande relevância na Constituinte de 1988. Acreditava que a Constituição poderia corrigir as desigualdades verificadas no projeto Educacional da sociedade.
Com toda sua participação na Constituinte, conhecendo por dentro o parlamento, Florestan teceu críticas de que o parlamento servia para sustentar o conservadorismo imperialista, expressando as tensões entre passado autoritário e as perspectivas futuras e que a constituição de 88 foi um processo inacabado, pois a própria conjuntura que desencadeou colocou a Constituição de um lado, e as organizações populares de outro.
Enfim, crítica social, militância ativa, dedicação à docência, a pesquisa, ao publicismo; o sociólogo e professor, político engajado na luta contra desigualdade, na defesa da educação pública, do socialismo, da democracia e da solidariedade entre a classe trabalhadoras e entre os povos latino-americanos fizeram do Professor Florestan Fernandes, um grande homem de nosso tempo – coerente, sonhador e comprometido com sua classe.
No dia 10 de agosto de 1995 o Brasil perdeu uma pessoa ilustre. O nome dele: Florestan Fernandes. Desde sua despedida, seu testemunho e sua voz continuam ecoando entre aqueles que lutam e sonham com um Brasil diferente. Na seqüência destacaremos alguns elementos do trabalho acadêmico de Florestan Fernandes, dada sua atualidade e pertinência ao nosso contexto.
As décadas entre 1930 e 1960 representam um período extremamente significativo para a compreensão da realidade brasileira. Período controverso que motivou uma vasta produção acadêmica, literária, filosófica, artística e cultural.
Acontecimentos emblemáticos deste período são, por exemplo, o processo de industrialização; o surgimento, crise e declínio do Estado Novo; a criação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP); o I Congresso Brasileiro de Escritores; a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); a Plataforma da Nova Geração; a criação do Instituto Brasileiro de Economia Sociedade e Política (IBESP); e a crescente disputa entre os partidos políticos entre o Estado Novo e o golpe militar de 64.
A demanda por mão-de-obra vinda do processo de industrialização provocou um grande êxodo do campo para as cidades, fator decisivo no processo de formação dos centros urbanos brasileiros. Este cenário, propiciou algumas formulações do pensamento social brasileiro em torno de questões como classes sociais no Brasil, as possibilidades da industrialização, o capitalismo associado, negros e índios, o subdesenvolvimento e outras...
É neste período que surgem análises e interpretações teóricas da realidade sócio-política, econômica e cultural do Brasil elaboradas por figuras como Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido, Hélio Jaguaribe, Raimundo Faoro e Florestan Fernandes. Este último, sem dúvida, foi um dos intelectuais que mais se destacou na interpretação do processo de modernização da sociedade brasileira.
Sua obra abrange vários campos para além da sociologia, como a antropologia e etnologia (no que diz respeito aos estudos sobre os índios Tupinambás e sobre os negros), a educação, a questão da universidade, a política nacional e internacional, bem como ocupou-se, também, da tradução e edição de várias obras para o português, sobretudo, na área da Sociologia. Preocupou-se com o fomento à pesquisa em todos os setores da ciência, pois acreditava que por meio do desenvolvimento científico e tecnológico seria possível ao Brasil superar a situação de atraso e dependência na qual se encontrava.
Florestan Fernandes acreditava que o desenvolvimento da ciência, de modo amplo, possibilitaria aos brasileiros detectar os problemas sociais, bem como aplicar esforços e inteligência na sua solução, e promover o processo de emancipação cultural em relação aos países que nos colonizavam.
No sentido acadêmico, a formação de Florestan Fernandes acontece entre 1941 e 1953. Seus primeiros trabalhos visavam, simultaneamente, testar os conhecimentos teóricos recebidos dos professores e, por meio da leitura de autores clássicos, interpretar a realidade brasileira nas suas diversas relações, instâncias e processos. Autores como Comte, Durkheim, Mauss, Gurvitch, Weber, Sombart, Simmel, Mannheim, Malinowski, Parsons, Merton e Wright Mills destacam-se nas pesquisas de Florestan.
Para ele, a produção e a utilização da ciência estão ligadas a dois fatores condicionantes: os modelos de indagação e verificação (método) da verdade e as exigências sócio-culturais do meio (possibilidade de aplicação). Na obra A sociologia numa era de Revolução Social ele constata, que “a sociedade estimula, assim, o desenvolvimento da ciência, compelindo os cientistas, de várias maneiras, a conceber e a realizar projetos de investigação ou de aplicação que levem em conta necessidades práticas de alcance social.
Entretanto, ele observa que naquela época, especialmente nos países subdesenvolvidos, o segundo elemento era ignorado, isto é, a ciência e os cientistas estavam mais preocupados com a questão do método do conhecimento que com sua aplicação à realidade social. E adverte: “Em nossa época o cientista precisa tomar consciência da utilidade social e do destino prático reservado às suas descobertas. O ‘bom’ ou o ‘mau’ uso dos conhecimentos científicos depende, em grande parte das atitudes que os cientistas tomarem diante da utilização dos dados da ciência.
Neste sentido, Florestan voltou-se a análise de alguns dos fatores condicionantes do processo de desenvolvimento da ciência no Brasil. Ele destaca que, com o avanço tecnológico e a ascensão da ciência na planificação racional da sociedade, teriam surgido novas exigências para os cientistas. Estas transformações, afirma ele, expressam a marcha que a civilização estaria tomando: uma marcha rumo à civilização baseada na ciência e na tecnologia científica.
Deste modo, surge uma nova perspectiva quanto à natureza e o significado das obrigações extra-científicas do cientista na sociedade. Caberia, então, a eles uma dupla tarefa: “contribuir de modo positivo para o progresso do saber científico” e, também, “contribuir para o progresso das comunidades às quais pertencem em termos dos ideais associados à propagação e à democratização da concepção científica do mundo, com suas garantias materiais, sociais e morais”. Em nossa interpretação é a partir desta perspectiva que podemos afirmar sem titubeios que Florestan não só defendeu como exigiu um vínculo indissolúvel entre o saber e o compromisso com a transformação da sociedade numa perspectiva política socialista.
Florestan denunciava, neste sentido, como a postura da sociedade marcada pela herança tradicional aristocrata, escravocrata e senhorial, baseada num noção elitista de ciência, postulou uma educação pública voltada exclusivamente para a classe dominante ou visando formar uma classe seleta para as atividades de liderança social, administrativa e política; enquanto que para as classes populares foram criados especialmente o SENAI e SENAC com o objetivo de preparar mão-de–obra apta para o mercado de trabalho.
Para ele, a ciência tem essencialmente um papel transformador e, por esta razão, a responsabilidade pela efetivação deste papel transformador da ciência recairia sobre os ombros do cientista. Deste modo, torna-se indispensável o comprometimento e a colaboração entre os cientistas das diversas áreas do conhecimento, objetivando encontrar alternativas para a superação do sub-aproveitamento dos quadros de pesquisadores, das vocações intelectuais e dos recursos materiais empregados na pesquisa no Brasil.
A preocupação de Florestan com relação ao tema do desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil fica explícita em sua obra. Para ele, o desenvolvimento econômico e social (e, neste aspecto, entra a questão da educação) estaria atrelado ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Decorrente destas questões resulta a preocupação constante e a defesa da pesquisa na universidade, fato que não se deu somente no período que se comenta neste ensaio, mas que foi um dos marcos na militância e na produção acadêmica de Florestan. “(...) Sem conjugar ciência e tecnologia de forma verdadeiramente ampla estaremos sempre na condição de país importador de técnicas inventadas alhures, sem iniciativas próprias e, o que é pior, aproveitando tais técnicas com margens enormes de atraso temporal e cultural.”
Deste modo, tornava-se urgente a preparação de quadros humanos para o florescimento das ciências no Brasil e uma das formas de acelerar este processo era, e ainda é, a investida na preparação de pessoal para a atuação científica (ensino e pesquisa). Tal preparação compreenderia desde uma educação básica de qualidade até a formação de um espírito de colaboração entre os cientistas das diversas áreas do conhecimento. Ora, isto significaria pôr fim ou, então, minimizar ao máximo a lógica competitiva que estava instaurada nas áreas de investigação e que transformava a pesquisa e a disputa pelas parcas verbas de financiamento numa guerra de interesses particularistas.
Assim, os líderes intelectuais das diversas áreas olhavam-se como “aves de rapina”, conforme Florestan, demonstrando-se verdadeiramente oportunistas. As conseqüências disto eram extremamente prejudiciais ao desenvolvimento qualitativo e quantitativo da ciência no Brasil. Ao invés da colaboração inteligente havia um antagonismo e uma concorrência absurdos.
Comenta Florestan que: “embora saibam que a ciência exige progressos concomitantes nos diversos ramos de investigação, que ela é um edifício construído na base da cooperação inteligente e da capacidade de especialização interdependente, na prática dão ombros a esses valores.
Na defesa destes valores, foi expressiva e intensiva sua atuação e produção especialmente por meio de artigos em revistas acadêmicas (especializadas), conferências e artigos de jornal. Florestan não só se ocupou em falar ou escrever sobre a importância da pesquisa como encarnou em si a missão de praticá-la e difundi-la como uma práxis essencial. Como resultado temos sua intensa produção intelectual sistemática que vai desde o trabalho teórico, analítico e interpretativo dos clássicos até a pesquisa empírica, buscando desvelar a realidade brasileira através de estudos sobre os Tupinambás, sobre a revolução burguesa no Brasil, as questões raciais e o folclore em São Paulo, estudos sobre comunidade e sociedade e questões relativas à educação. Ele sempre esteve atento ao complexo processo histórico-social da cultura brasileira, mesmo admitindo que nem todas as faces da realidade são evidentes e podem ser analisadas do ponto de vista sociológico. O debate que Florestan Fernandes instaura no período em questão é de suma importância para a compreensão da realidade brasileira atual.
Florestan constatou o acúmulo de conhecimento sobre os mundos orgânico e inorgânico; era momento de sabermos mais sobre o mundo supra-orgânico. Em conseqüência, ao sociólogo (cientista social) é atribuído um papel fundamental a ser desempenhado, pois ele, por meio dos devidos instrumentos (conceituais, metodológicos e materiais) desvela a realidade, apontando para os seus problemas, dilemas e inconsistências, propondo a reflexão sobre as perspectivas de solução.
Assim, o saber deve estar fundamentalmente a serviço da transformação da sociedade, na perspectiva da transformação dentro da ordem e/ou contra a ordem. Como a ordem social brasileira apresentava sérias inconsistências, especialmente no plano social (dilema social) e cultural (demora cultural), era urgente a modificação do padrão de ação e relação nestas duas esferas.
Entre seus principais trabalhos encontram-se: A organização social dos Tupinambá (1949), Ensaios de sociologia geral e aplicada (1960), A sociologia numa era de revolução social (1962), Educação e sociedade no Brasil (1966), Sociedade de classes e subdesenvolvimento (1968), A revolução burguesa no Brasil (1975), Universidade brasileira: reforma ou revolução? (1975), A sociologia no Brasil (1977).
"Intelectual militante largado a si mesmo", eis como se define neste livro Florestan Fernandes. Vitimado pelo AI-5, foi afastado de sua cátedra e abandonou suas antigas idéias sobre a possibilidade de uma sociologia cientificamente neutra . O funcionalismo deu lugar ao marxismo, e o apego à vida acadêmica foi substituído por uma nova militância, intransigente e sem compromissos, solitária e despojada.
Florestan prega a "desobediência civil generalizada" como forma de luta política contra o regime, e justifica e defende a necessidade de uma extrema esquerda organizada que, embora ineficaz a curto prazo, teria a função de "desmascarar e desmistificar a democracia burguesa", além de desempenhar outras funções revolucionárias.
Não obstante o linguajar às vezes incendiário, trata-se afinal de tese bastante moderada. Florestan defende a implantação de um regime político democrático, com lugar para ampla participação de setores hoje marginalizados dos centros de decisão.
Ainda que sua preferência seja pelo que chama de "democracia operária", esta é uma opção para o futuro, a não ser que "a transição da democracia restrita em sua versão atual para a democracia de participação ampliada" seja "bloqueada de modo cego e persistente; sem deixar alternativas e esperanças", caso em que surgiriam "as polarizações anti-capitalistas e socialistas".
Finalmente, ao contrapor a democracia operária a democracia burguesa, Florestan simplesmente deixa de lado toda a triste experiência das chamadas "democracias populares" contemporâneas, que tem levado os analistas políticos a considerarem, cada vez mais, que a democracia não pode ser entendida como simples decorrência de determinado jogo de interesses, mas implica a implantação e manutenção de uma série de mecanismos de garantia da pluralidade e diversidade de interesses e valores em uma mesma sociedade, incluindo um sistema judiciário independente e o pluri-partidarismo.
Dificilmente alguém não compartilharia as preocupações do autor com os limites estreitos do sistema político brasileiro, e com o destino trágico de. tantos que ficam à margem ou pagando o preço da sociedade moderna que aqui se vem implantando a duras penas. O que nem sempre se percebe, porém, é que não bastam a indignação e a firmeza de intenções para alterar esta situação; é necessário, e além disto, incorporar de forma adequada o conhecimento e a experiência acumulada em relação a esses problemas.
Oswald de Andrade
Numa conferência em 1923 na Sorbonne, em Paris, em que destacou a presença sugestiva do tambor africano e do canto negro como forças étnicas que desembocavam na modernidade, Oswald Andrade também afirmou que o século XX estava em busca das fontes emotivas das origens concretas e metafísicas da arte. Desta maneira, venho digerindo o pensamento Oswaldiano desde o Tropicalismo.
É a marca do “Manifesto Pau-Brasil”, que tanto penderia para o primitivismo de natureza psicológica quanto para o da experiência da forma externa na estética do cubismo, associada à exaltação futurista da vida moderna nos grandes meios urbanos. O ideal do “Manifesto Pau-Brasil” é conciliar a cultura nativa e a cultura intelectual renovada, num composto híbrido que ratificaria a miscigenação étnica do povo brasileiro e que ajustasse, num balanço espontâneo da própria História, o melhor da tradição lírica com o melhor de nossa demonstração moderna. E graças ao despojamento do modo de sentir e conceber provocado pela máquina e pela tecnologia, o caráter universal da cultura não dependeria mais de um centro privilegiado de irradiação de idéias e experiências: “A universalidade da época deixará de ser excêntrica para tornar-se concêntrica. O mundo se regionalizará e o regional contém o universal. Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi or not tupi that is the question. Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do Homem. Sem nós, a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Morte e vida das hipóteses. Da equação, eu parte do Cosmos, ao axioma, Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia. Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso! Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais”.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. A alegria é a prova dos nove. No matriarcado de Pindorama. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. Se examinarmos em conjunto, a geografia e a história, veremos que tudo que de mais importante se vem processando no globo, tem por habitat uma faixa que se pode situar entre o Trópico de Câncer e o 60 graus de latitude norte. Os Estados Unidos e a Europa, o Egito, a Judéia e o Japão. Que aconteceu de essencial fora desta faixa geográfica, as sociedades, países ou aglomerados que se desenvolveram, dividiram precocemente, ou melhor, o seu trabalho e criaram mais cedo as instituições e as suas éticas.
Partiram tanto as conquistas da guerra, como saíram os frutos da paz. A geometria e a gramática, a colonização e a máquina, as finanças e o direito, a arte, a literatura e a ciência. O solo, a fauna e a flora, o clima e a nitidez das estações, o subsolo e as cercanias fáceis do mar, o índice demográfico e a técnica. Tudo isso preparou uma eleição antropológica que se tornou preponderância histórica. Foram as nações marinhas desse anel latitudinário que criaram a navegação. E esta lhes deu as descobertas. A Fenícia levou as suas moedas até o Báltico, a Holanda e a Península Ibérica dominaram os oceanos renascentistas. Foi o carvão que equipou depois oImpério Britânico e o petróleo a América do Norte e a Rússia atual. Todos esses fatos se localizaram na faixa situada ao norte do Trópico de Câncer. Ao lado desse anel de terra e mar, onde brotou e se fez o homem organizado e inquieto, fica o anel equatorial onde o Brasil acorda, com a Índia e a África. Ao sul, na faixa correspondente à primeira vista, isto é, do Trópico de Capricórnio a 60 graus de latitude meridional, uma atividade de reflexo parece imitar e querer seguir a outra.
São Paulo situa-se no limiar deste último anel, onde estão a Argentina, a Austrália, a África do Sul e o sul do Brasil. Na faixa mais decisiva e importante, os ciclos históricos se têm sucedido e revezado com características que os separam nitidamente. Numa fase predomina o elemento individual e na outra o coletivo. Assim, verificam-se na História períodos de individualismo e períodos de coletivismo. Pelo menos quatro períodos se marcaram no desenvolvimento da Humanidade, desde que a vida sobre a Terra foi fixada pela memória, pela arte e pela escrita. Dois trazem um forte caráter coletivista e social. Suas expressões são dadas pela Judéia dos profetas e pela Idade Média européia. Dois outros períodos, apesar de suas íntimas contradições, são preponderantemente humanistas.
O primeiro vem do século V a.C. até a queda de Roma e, o segundo, do Renascimento até a atualidade. Hoje estamos em face de um quinto período, cujo caráter é eminentemente social. O humanismo é sempre uma cultura da liberdade que traz em seu bojo o individualismo econômico. Anima-o a consciência de novas necessidades do indivíduo em expansão. Ao contrário, os períodos coletivistas se caracterizam por uma cultura do social, que traz em si uma economia sempre dirigida, seja patriarcal como na Judéia, comunal como na Idade Média ou, como hoje, nacional ou autárquica. Forma-se neles uma consciência da necessidade de novas limitações do indivíduo pelo bem social. Da Judéia, saiu do Velho Testamento, o espírito autocrático. Ao contrário, o primeiro período humanista deu, como seu índice, o Direito Romano, base de toda legislação individualista posterior. Depois do período coletivista chamado Idade Média cujo signo é o Papado e cujo bardo é Dante, surge o segundo período humanista.
É o que inicia a busca das matérias-primas, o comércio exterior e a conquista colonial. Criou o Renascimento e a Reforma. A era máquina produziu o Código Napoleônico, esta Marselhesa dos direitos burgueses e, como resultado, criou Wall Street. A forma por que se processam estas mudanças históricas já foi estudada por mais de um exegeta. A superestrutura da sociedade, direito, moral, forças espirituais, letras, e artes, passa a não mais corresponder à estrutura, às forças econômicas, ao progresso técnico e ao índice demográfico.
E a derrocada dos sistemas dominantes se produz inexoravelmente. Foi assim quando a idade homérica, mitológica e fideísta terminaram na democracia ateniense. Os filósofos gregos surgiram no ângulo de dissociação dos dois ciclos. A moral socrática, apesar de seu tom de conquista social, levado avante por Platão e expresso na ética aristotélica. A moral socrática era a oposição individualista ao ciclo dionisíaco que a precedera. Isso não foi visto totalmente por Nietzsche. E ela estava também longe do pensamento tribal judaico. Do “Conhece-te a ti mesmo” é que saiu o cinismo de Diógenes, o ceticismo de Pirro e o edonismo de Epicuro. Há um progresso sensualista que doura toda a cultura romana. Isso conduziria o Império ao latifúndio e à conquista exterior. A superestrutura exorbitou da estrutura. E a derrocada se produziu, conduzida ideologicamente pela revolução cristã. Nos primeiros séculos da nossa era, um ciclo social se movimenta na mitologia das catacumbas, o cristianismo primitivo. Ele traz em si, contraditoriamente, a personalidade humana, posta em foco pelo agreste espírito pauliniano. Mas é Agostinho, com seu mágico fideísmo, que prevalece sobre o individualismo de Paulo. O período é vitoriosamente conventual, místico e coletivista. E é esse caráter que oferece toda a Idade Média.
O Cristianismo foi a ideologia revolucionária do momento, mas não teria êxito se as condições econômicas do Império não exigissem uma transformação de sistema político. Uma era evangélica profetiza sempre as convulsões econômicas. Com a quebra do livre contrato e o advento da pequena propriedade, o Cristianismo estava maduro para tomar o poder. E, como a propriedade, cresceria depois, durante o Feudalismo. Do mesmo modo, quando na alta Idade Média se estabeleceu a querela filosófica da Santíssima Trindade, já se colocavam em face um do outro os dois ciclos novos em debate ante a aproximação de uma ruptura econômica do sistema feudal. Os realistas que acreditavam na realidade do “Unum in trino” eram os senhores da época, os que afirmavam a realidade substancial do coletivo e da sua forma de produção. Ao contrário os nominalistas, eram os condutores do futuro, os pioneiros da liberdade econômica. Foram revolucionários do momento, os que viram no coletivo somente um nome, incapaz de dissolver o indivíduo ímpar.
Com o pensamento socrático, no início de uma era individualista e o pensamento pauliniano de uma era coletivista, temos a dialética hegeliana que elucida perfeitamente este propósito. O progresso humano se processa por contradições e não caminha numa reta ascensional. Aliás, Sócrates e São Paulo são fontes luminosas de contradições. Como o Cristianismo bebeu suas origens triunfais nos elementos platônicos do ciclo humanista anterior, é no paulinismo que a Renascença e a Reforma vão buscar suas ardências contra a hegemonia tomista. Algumas das obras-primas do humanismo clássico, a “Cidade do Sol”, de Campanella, a “Utopia”, de Morus têm sentido social. São tardes góticas em meio às auroras da burguesia.
No entanto, é o racionalismo cartesiano e a mordacidade de Erasmo, a análise de Cervantes a Moliére, dos enciclopedistas aos naturalistas ingleses como Dickens, de Renan e Spencer aos sorrisos cansados de Anatole France. A guerra, os terrores do fascismo, o apelo às forças primitivas da Humanidade, significando a morte de um ciclo – o ciclo individualista burguês. Estamos no verdadeiro limiar da História. Quero dizer com isto que a era da máquina tecnizou de tal maneira o Homem em toda a Terra que ele pode alcançar, enfim, uma unificação de destino e igualar-se num padrão geral de vida civilizada. Então, o Homem poderá ser o mesmo em todo o globo, e pretender, portanto, os mesmos direitos em qualquer latitude. Estamos, pois, à entrada de um ciclo que traz, de um modo novo, todas as características coletivistas. Vivemos no mesmo sentido da Idade Média ou da Judéia, mas bem longe delas. Há a máquina entre o século XIII e XX. A política de nossos dias de ser mais comunal ou autárquica e a economia mais social do que individual. Quando se afirmou, há cem anos, que bastava encontrar o necessário, era preciso transformá-lo para encontrar sua própria mitologia. Desta Terra, nesta Terra, para esta Terra. E já é tempo. A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto, ao valor favorável.
A vida é devoração pura. Nesse devorar que ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao Homem totemizar o tabu. Que é o tabu senão o intocável, o limite? Enquanto em sua escala axiológica fundamental, o Homem do Ocidente elevou as categorias de seu conhecimento até Deus, o supremo bem, o primitivo instituiu a sua escala de valores até Deus, o supremo mal. Há nisso uma radical oposição de conceitos que dá uma radical oposição de conduta. E tudo se prende à existência de dois hemisférios culturais que dividiram a História em matriarcado e patriarcado. Aquele é o mundo do Homem primitivo. Este o do civilizado. Aquele produziu uma cultura antropofágica, este, uma cultura messiânica.
No mundo do Homem primitivo, que foi o matriarcado, a sociedade não se dividia em classes. O matriarcado assentava-se sobre uma base tríplice – o filho do direito materno, a propriedade comum do solo, o Estado sem classes, ou seja, a ausência de Estado. Quando se instaurou o Estado de classes, como conseqüência da revolução patriarcal, uma classe se apoderara do poder. A ruptura histórica com o mundo matriarcal produziu-se quando o homem deixou de devorar o homem para fazê-lo seu escravo. Friedrich Engels assinala o fecundo progresso dialético que isso constitui para a Humanidade. De fato, da servidão derivou a divisão do trabalho e a organização da sociedade em classes. Criou-se a técnica e a hierarquia social. E a história do Homem, passou a ser, como disse Marx, a história da luta de classes. Uma classe se sobrepôs a todas as outras: a sacerdotal. A um mundo sem compromissos com Deus, sucedeu um mundo dependente de um Ser Supremo, distribuidor de recompensas e punições. Sem a idéia de uma vida futura, seria difícil ao Homem suportar sua condição de escravo. Esta é a importância do messianismo na história do patriarcado. O monoteísmo do fundo de velhas fés absolutistas tinha uma finalidade, a obediência do homem-escravo ao senhor de terra que era espelho do Senhor do céu. O sacerdote foi muitas vezes o legislador, outras vezes, por meio de augúrios e oráculos, presidiu a paz como ordenou a guerra.
Sacerdócio que dizer ócio consagrado aos deuses. O ócio não é esse pecado que farisaicamente se aponta como a mãe de todos os vícios. Ao contrário, Aristóteles atribui o progresso das ciências ao ócio concedido aos pesquisadores e aos homens de pensamento e de estudo. A palavra ócio vem do grego sxolé, donde se deriva “escola”. E hoje, quando pela técnica e pelo progresso social e político, atingimos a era em que, no dizer de Aristóteles, os fusos trabalham sozinhos, o homem deixa sua condição de escravo e penetra no limiar da Idade do Ócio. É um outro Matriarcado. A Utopia da Antropofagia de Oswald de Andrade.
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